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Entre os asurini do Xingu
Edith e Mayi
Pertencendo à Fraternidade das Irmãzinhas de Jesus, Edith
e Mayí, duas francesas muito brasileiras, vivem no meio de uma
pequena comunidade indígena, pouco conhecida, mas muito ameaçada.
Com eles, partilham a vida simples, lutando pela preservação
de sua cultura e de seus valores: uma verdadeira vocação
pelas minorias, pelos marginalizados
Chegamos ao Brasil em 1952. Nossa vocação é para
as minorias, os marginalizados, os meios descristianizados ou à
espera do Evangelho. Nossa primeira casa foi no mundo indígena,
em Tapirapé, com três irmãzinhas francesas, sem a
mínima experiência, mas guiadas pelo nosso carisma que é
"procurar fazer-se um deles". Aprendemos a pilar, pescar, trabalhar
na roça, rachar lenha e tomávamos conta da saúde.
Em 1982, o CIMI pediu para as irmãzinhas do Tapirapé acompanharem
o povo asurini, ameaçado de desaparecimento e cá estamos
nós duas trabalhando.
Os índios asurini do Xingu ou do Koatinemo, que se autodenominam
awaeté, isto é, gente verdadeira, eram até pouco
tempo, desconhecidos. Pertencendo ao grupo indígena da língua
tupi-guarani, ocupavam, quando foram descobertos em 1884, um vasto território
que se estendia pela margem direita do rio Xingu, da confluência
deste com seu afluente, o rio Bacajá, ao norte, pelas margens do
igarapé S. José, ao sul.
Em 1971, havia apenas duas aldeias com pouco mais de cem pessoas. Atualmente,
a área asurini não está demarcada e o povo está
ameaçado pela construção da hidrelétrica do
Xingu que deverá inundar parte de seu território e obrigar
a aldeia a uma nova mudança. Outras ameaças vêm por
parte de pescadores, invasores, madeireiros e garimpeiros.
Ainda restam tradições
Apesar dos abalos demográficos que reduziram drasticamente a população
e dos contatos com a FUNAI, os asurini conservam muitos aspectos de sua
tradição cultural, ainda que muitos se tenham perdidos.
Na aldeia tradicional, existiam diferentes tipos de habitações,
todas feitas com folhas de babaçu, mas diferentes no tamanho e
na estrutura, sendo a tawiwa - casa grande - o destaque, com 30 metros
de comprimento, 12 de largura e 7 metros de altura, em cujo chão
eram enterrados os mortos.
O xamanismo é muito importante e as pajelanças servem para
curar os doentes, sendo que todo o grupo acaba sendo mobilizado. Atualmente,
os pedidos das famílias para que o pajé faça um desses
rituais é bem mais raro. Essas pajelanças são gratuitas
e de dois tipos: o maraká e o petinewo, para invocar seres sobrenaturais
com os quais os pajés entram em contato e o outro específico
para curar a pessoa.
As refeições são sempre comunitárias: nunca
se come um peixe ou uma caça sozinho, mas sempre se reparte com
a família vizinha. As mulheres fazem o mingau todo dia e ele é
sempre repartido.
Os asurini continuam sendo artistas, apesar de os jovens não saberem
mais contar as histórias de sua mitologia. A arte gráfica
é a atividade feminina e compreende desenhos geométricos
aplicados em objetos de cerâmica, cuias e no corpo humano. Elas
fazem cerâmica de barro, pintam com tinta preta, amarela e vermelha,
extraídas de pedras, envernizadas com resina de jatobá.
Tudo tem um nome. Dedicam ainda muito tempo à fiação
do algodão e fazem redes, peneiras e cestos.
Os homens fazem colares de coquinho e osso de mutum, peneiras, cestos,
bancos, arcos e flechas e canoas.
A sobrevivência do povo está assegurada pela agricultura
(mandioca, milho, banana, cará, batata, algodão, fava),
pela caça (cotia, mutum, catitu, veado) e pela pesca (piranha,
trairão, surubim, pacu). Ele também vende bananas, quando
vai a Altamira, o centro mais próximo.
O trabalho das irmãzinhas
No Brasil e na América Latina, optamos pelos povos indígenas
por causa do desafio de serem diferentes, com uma história de dominação
social, cultural e religiosa que trouxe sofrimento, morte, mas também
luta e resistência. Dos cinco milhões de índios no
Brasil, restam, hoje, apenas 220 mil e nós nos solidarizamos com
eles.
O objetivo da nossa presença é o Reino anunciado por Jesus.
Mais explicitamente, nessa amizade respeitosa e na convivência com
eles, queremos a vida do povo asurini e tentamos fornecer: a garantia
de sua terra, sua cultura e sua autonomia; o conhecimento crítico
do nosso mundo e a união com outros povos indígenas, em
particular os tupis, em sua organização e suas alianças.
A motivação é Cristo Jesus, os trinta anos que passou
em Nazaré, o valor que deu ás pessoas, vivendo a vida delas,
passando por seus problemas. A própria oração, a
contemplação de cada dia se enchem desse espírito
e se movem para agir de acordo. Se a pessoa humana tem valor para Cristo,
os asurini têm valor para nós.
Para o futuro
Muito caminho resta ainda a ser percorrido: em primeiro lugar, a convivência
que tem por finalidade dizer que a vida deles e as suas pessoas valem
por elas mesmas, e para demonstrar concretamente que a expressão
cultural deles tem um grande significado, sobretudo a religião
que mede a relação deles com as forças da natureza,
muitas vezes, escondidas e difíceis de serem controladas.
Em segundo lugar, abrir novos espaços e horizontes, favorecendo
e acompanhando encontros com outros grupos (povos) indígenas, especialmente
do mesmo tronco cultural, pois aí acontecem fatos importantes para
a defesa da terra, para a organização da própria
vida social e da vida econômica.
Mas há o outro lado, o dos brancos. Precisamos trocar de mentalidade:
os índios são cidadãos do mundo, com todos os direitos
e deveres de qualquer pessoa civil; precisamos querer bem a essas pessoas,
mas concretamente, apoiando suas reivindicações junto ao
governo e às forças que monopolizam a riqueza dos índios
em seu próprio benefício; precisamos estudar um meio que
permita aos asurini venderem sua produção artesanal dentro
e fora do Brasil, o que lhes garantiria uma autonomia segura. Esse pequeno
povo só quer viver, viver em harmonia e paz com todos.
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