Revista "MUNDO e MISSÃO"

Testemunhos da Vida Missionária

Esta é a minha história

Josepf Son Lam Buy

Joseph Son Lam Buy está cursando o terceiro ano de teologia no seminário do Pime em Monza, Itália. Ele é um dos muitos vietnamitas que, nos anos 80, buscaram a liberdade, fugindo de seu país e desafiando os perigos do oceano. Sua história é feita de coragem e fidelidade à sua vocação cristã e sacerdotal.

Nasci em 1957, em Saigon (hoje Ho Chi Minh Ville), ao sul do Vietnã, e cresci numa família numerosa: tenho quatro irmãos e quatro irmãs. Quando terminei a escola primária, resolvi ser padre. Estávamos em 1968 e eu tinha 11 anos.
Depois do colegial, fiz dois anos de filosofia no seminário de Ho Chi Minh Ville até que, em 1978, fui obrigado a interromper os estudos porque os comunistas fecharam o seminário. Durante quase um ano, tentei estudar sozinho, depois, com outros seminaristas, procuramos um padre, que tinha sido professor de teologia, para que nos ajudasse no estudo e esclarecesse nossas dúvidas.
Com a chegada do comunismo, deslocar-se no interior do Vietnã ficou difícil, porque os comunistas, que sabiam muito bem que não tinham o apoio da população, controlavam todas as estradas e as vias de comunicação aéreas e marítimas: para ir a qualquer lugar, era preciso pedir uma permissão. E como os comunistas eram inimigos da religião católica, fecharam muitas igrejas e alguns bispos, padres, seminaristas e cristãos praticantes acabaram na cadeia. Muitas paróquias continuaram com suas atividades, mas sob rigoroso controle.

Defender a Igreja

No final de 1979, o arcebispo de Ho Chi Minh Ville pediu se algum de nós estava disposto a ajudar, como voluntário, as igrejas do interior que tinham ficado sem padre e eu me ofereci. Tinha medo porque era muito jovem, eu tinha só 22 anos, e deveria cuidar de 4 mil cristãos. Enchi-me de coragem, confiando na ajuda do Senhor.
A paróquia à qual fui enviado estava a muitos quilômetros da cidade; as pessoas eram pobres e as casa tinham sido destruídas pela guerra. Na paróquia, eu devia fazer tudo sozinho, cuidando de todos os aspectos da vida pastoral: explicava a Bíblia, distribuía a comunhão aos fiéis, ficava pelo menos durante uma hora, rezando com eles.
Durante a semana, tinha encontros com os jovens, que orientava no aprofundamento da fé e, a cada quinze dias, ensinava os rudimentos da Escritura a um grupo de crianças. Todos os meses convidava o padre de uma outra paróquia para celebrar a Missa em nossa igreja. Nos momentos livres, eu visitava os doentes e tentava animá-los a serem fortes e perseverantes na fé.
Às vezes, ia me divertir, trabalhando com o pessoal nos campos, cultivando arroz e colhendo frutas. Fiquei naquela paróquia durante quase um ano.
Enquanto isso, crescia o medo de que os comunistas chegassem e foi isso mesmo que aconteceu. Quando eles chegaram, disseram-me que precisavam da igreja para fazer um local de encontro e que a religião católica não interessava ao comunismo. Respondi: "Não podemos lhes dar esta igreja porque ela foi construída pelos cristãos daqui e para eles é muito importante". Então, os comunistas foram embora, mas a partir daquele momento, todos os fiéis começaram a ter muito medo. Eu repetia para eles que não era para ter medo: "Vamos defender a nossa igreja, enquanto estamos em condições de resistir". A situação piorou rapidamente. Quando se espalhou a notícia de que todas as paróquias vizinhas tinham sido ocupadas pelos comunistas, os cristãos se reuniram diante da igreja e choraram.
Algum tempo depois, como era de se prever, os comunistas voltaram armados e decididos. Um homem que os avistou deu o alarme, tocando o sino e todos os cristãos que viviam perto da igreja se deram conta do que ia acontecer, mas não puderam atacar os comunistas. Fui detido e colocado na prisão.
A paróquia ficou sem ajuda e foi usada como ponto de encontro dos comunistas.

A fuga da prisão

Num primeiro momento, fui levado à prisão de Ho Chi Minh Ville, onde fiquei durante um ano, antes de ser transferido para outro local. Sofri muito na prisão, mas procurei ser forte através da fé. Meus carcereiros chamavam-me todos os dias ao escritório porque queriam que eu lhes fornecesse informações sobre as atividades da Igreja católica no Vietnã. Mesmo sentindo muito medo, não falei e por isso, algumas vezes, me bateram. Só resisti por causa da fé.
Depois de um ano, fui para uma prisão bem distante da cidade, perto de uma floresta e ali fiquei durante quase oito meses. Eu estava melhor, mas não sabia se seria libertado.
Todos os dias, tinha que trabalhar nos campos e assim tive a idéia de fugir. Já tinha visto muitos prisioneiros morrerem por causa de doenças ou mortos pelos comunistas. Um amigo que estava comigo na prisão me disse: "Joseph, precisamos escapar daqui o mais rápido possível".
Estudamos durante um bom tempo a fuga e, algumas semanas depois, à meia-noite, deixamos a prisão, indo em direção à floresta. Depois de poucos minutos, os guardas perceberam nossa fuga, mas já estávamos longe, escondidos nas árvores. Ficamos dois dias na floresta, sem água e comida.
Tentamos nos orientar seguindo o sol e uma pequena trilha que encontramos. Depois de andar por algumas horas, vimos uma estrada maior e pedimos carona para um comerciante de lenha que nos levou a Ho Chi Minh Ville.
Não podendo voltar para casa, fiquei sete meses na casa de uma tia, esperando poder ir embora do Vietnã. Na verdade, eu não queria deixar meu país porque o amava e porque não queria viver longe da minha família, mas tive que partir já que não podia mais viver em liberdade.

No campo de refugiados

No final de 1982, enquanto ainda estava com minha tia, soube que uma barca devia sair do Vietnã. Era pequena, mas nela cabiam 212 pessoas que também estavam fugindo. Havia também um padre, uma freira e um seminarista que foi meu colega de estudos no seminário de Ho Chi Minh Ville.
Depois de 14 dias em alto mar, estávamos ainda a bordo e nada de terra firme. Uma vez, fomos surpreendidos por uma tempestade: relâmpagos tremendos, céu escuro, chuva forte e ondas enormes. As crianças e as mulheres começaram a chorar porque a barca ameaçava virar. Rezamos e, logo depois, uma barca proveniente da Indonésia veio nos socorrer. Assim, chegamos à terra firme e fomos abrigados num campo de refugiados para vietnamitas.

Visite as outras páginas

[P.I.M.E.] [MUNDO e MISSÃO] [MISSÃO JOVEM] [P.I.M.E. - Missio] [Noticias] [Seminários] [Animação] [Biblioteca] [Links]

Voltar