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Esticando as lonas
Frei Paulo Sérgio Carneiro
Um relato das impressões de viagem feita para rever um amigo,
missionário franciscano em
Moçambique e a surpresa de uma acolhida toda especial
"A larga o espaço da tenda, as lonas das tuas moradas sejam
esticadas" (Is 54, 2). O convite é de Isaías e também
da equipe missionária de nossa vice-província que, a pedido
de fr. João Santiago, me enviou a Moçambique. Uma visita
a outro continente muito contribui para alargar o espaço de nossa
tenda...
Conservo ainda nos olhos as imagens dessa visita que fiz àquele
país de 15 de dezembro a 20 de janeiro deste ano. Como não
ser tocado pelo calor humano dos africanos? Como esquecer as cores, os
sons, os ritmos daquela terra?
A situação do povo
João Paulo II, no documento "Ecclesia in Africa", apresenta
ao fiéis uma reflexão preocupante sobre aquele continente:
"Uma situação bastante comum é, sem dúvida,
o fato de a África estar saturada de problemas: em quase todas
as nações existem condições de miséria
espantosas, instabilidade política e má utilização
dos poucos recursos disponíveis e desorientação social.
O resultado está à vista: desolação, guerras
e desespero. Num mundo controlado pelas nações ricas e poderosas,
a África tornou-se praticamente um apêndice sem importância,
muitas vezes abandonada e esquecida por todos" (n.40).
Foi tudo isso que eu vi na África: um país pobre, um povo
pobre, famílias pobres. A cidade de Quelimane, por exemplo, não
possui canal de televisão, ônibus urbano, as estradas estão
em péssimas condições, o índice de malária
é muito alto, etc.
Nos vários lugares por onde passei, vi os grandes estragos causados
pela guerra, quase todas as obras dos missionários foram destruídas,
escolas e postos médicos ficaram em ruínas e só agora
e pouco a pouco, começam a ser reconstruídos.
Após a independência ocorrida em 1975, houve a instauração
do governo comunista que decretou a nacionalização das obras
assistenciais. Para os missionários isso representou o fim das
atividades, pois tudo foi tomado pelo governo que deixou que tudo fosse
destruído. O resultado foi mais sofrimento para o povo que ficou
totalmente abandonado. O clima de paz, porém, estampado na vida
do povo, impressiona qualquer um, apesar de a guerra ter durado 20 anos.
Preciosos encontros
Na cidade de Quelimane, tive a oportunidade de conhecer o que para nós
seria uma comunidade eclesial de base: a comunidade de Sinacura, pertencente
à paróquia da catedral. Junto a eles tive meus primeiros
contatos com o povo moçambicano.
A pedido de fr. João e com a autorização do pároco,
tive a oportunidade de celebrar várias vezes naquela comunidade
e recordo, com saudades, a alegria com que o povo africano celebra a Eucaristia,
com danças e cantos ao som dos tambores.
O povo moçambicano é muito acolhedor: experimentei o carinho,
a atenção e o respeito que têm para com o missionário.
Quero falar de dois momentos fortes do que considero o meu batismo naquelas
terras. O primeiro é a viagem que fiz de Mocuba a Milange, em caminhão
aberto, cheio de passageiros e mercadorias, sob um sol que torrava. Não
havia espaço para mais nada; o percurso de 200 km durou seis horas
e meia e o pneu furou duas vezes...
Experimentei de perto como se locomove o povo moçambicano! Há
poucos carros, os ônibus são raros, deve-se caminhar muito
ou então usar veículos em péssimas condições
e inadequados ao transporte de pessoas.
Viajava comigo uma jovem voluntária argentina, que teve a sorte
de ir na cabine. Comentando a viagem, ela me disse depois que não
poderia ter sido pior.
Percebi naquele momento a solidariedade dos moçambicanos que me
ofereceram o melhor lugar e também frutas e bolachas que compravam.
Um desconhecido ofereceu sua bolsa para que eu pudesse me sentar mais
confortavelmente.
Por duas vezes, acompanhei o sacerdote nas visitas às comunidades
do interior, em Liquadala e Mujeba. Em ambos lugares, foi feita a benção
da capela. A celebração é realizada na língua
local chamada etexuwabo. A comunidade espera o padre a certa distância
do local e fizeram uma acolhida bem afetuosa, batendo palmas e cantando
em sua língua: "Venha a nós, padre Daniel!" A
Igreja estava arrumada para a festa em honra de Molugu (Deus). Após
a celebração, apresentaram um trecho bíblico em forma
de teatro. Frei Daniel, na viagem de volta, comentava: "Este povo
tem a dança no coração".
Hora de dizer adeus
A despedida foi calorosa e fizeram uma grande festa: almoço solene,
discursos, a presença do pároco, bolos... À noite,
os jovens fizeram outra homenagem.
No dia seguinte, domingo, celebrei a missa na comunidade. Tive a graça
de ministrar o batismo a vinte e cinco crianças, numa celebração
cheia de vida, com palavras de agradecimento por parte da comunidade e
um substancioso ofertório que me tocou muito pelo valor do gesto.
Marcou-me aquela despedida e tinha a impressão de que nos conhecíamos
de longa data, quando na verdade foram apenas algumas semanas.
Vou me lembrar sempre da conversa que tive com um ancião que me
disse: "Gostamos muitos de receber visitas de outros povos, sobretudo
daqueles que vêm nos falar de Deus. Nós, sozinhos, somos
como cegos: precisamos de alguém que abra nossos olhos para que
possamos conhecer a Deus".
Posso dizer que fui contagiado pelo calor humano dos africanos e que experimentei
a beleza da comunhão universal de irmãos que reconhecem
Jesus como verdadeiro caminho de salvação. Meus irmãos
de Moçambique moram agora em meu peito.
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