Revista "MUNDO e MISSÃO"

Testemunhos da Vida Missionária

Uma experiência missionária no Nordeste do Brasil

O Concilio Vaticano II (1962-1965) convocou toda a Igreja católica a voltar às fontes da vida cristã e os religiosos a voltarem à inspiração primeira de seus fundadores e ao seguimento de Jesus de Nazaré, enviado pelo Pai e conduzido pelo Espírito para evangelizar os pobres, curar os doentes e libertar os oprimidos da terra, proclamando o jubileu.
Participando deste grande movimento de renovação da vida apostólica e voltando-se ao modelo de Jesus de Nazaré, os jovens frades franciscanos, frei Enoque Salvador de Melo e frei Roberto Eufrásio de Oliveira, decidiram iniciar a vida apostólica numa pequena fraternidade, no sertão sergipano. Em 1972, na companhia de frei Angelino Caio Feitosa e de frei Juvenal Vieira Bonfim, começamos nossa vida itinerante pelas cidades e povoações dos municípios de Porto da Folha, Poço Redondo e Canindé.
Autorizados pelo bispo de Propriá, dom José Brandão de Castro e conduzidos pelo Espírito, saímos anunciando a boa notícia de Jesus, convocando aquelas populações sertanejas a sair do isolamento e abandono em que viviam e a ex-perimentar uma vida nova em pequenos grupos e comunidades. Logo descobrimos a necessidade de aliar o trabalho de comunidade ao de evangelização de massa, convocando um público maior a acolher a proposta de Jesus e abrir-se aos princípios da vida comunitária.

As missões populares

Assim, nos idos de 1973, alguns jovens padres, religiosas e leigos nordestinos iniciaram uma experiência de missões populares. Apropriamo-nos da tradição antiga das Santas Missões, estruturando o trabalho a partir da novidade de nosso objetivo: estimular o nascimento das comunidades eclesiais de base, fortalecer as comunidades existentes, apoiar as organizações populares, suscitando os valores da cultura popular. Para nossa melhor capacitação, recolhemos a inspiração de alguns missionários, especialmente do Nordeste, do século 19. De muita ajuda foi o estudo do diretório das missões dos frades capuchinhos, bem como o jeito de missionar de frei Paulo Canicale, frei Doroteu de Loreto e Caetano de Messina. Foi, porém, na fonte missionária do padre Antonio Pereira Ibiapina, conhecido entre nós como o apóstolo do Nordeste (e dos demais missionários diocesanos do século 19, como os padre Francisco e Erculano) e na experiência itinerante dos conselheiros e ermitãos Francisco da Soledade, Antonio Conselheiro, Severino Tavares, José Lourenço, Mãe Dodô, que fomos buscar o ca-minho de aproximação das populações excluídas do Nordeste, a sensibilidade diante de seus problemas, a valorização de sua capacidade de agir de maneira coletiva. Por exemplo, pelo trabalho em mutirão e pela colaboração da população local, o padre Ibiapina fundou 22 casas de caridade (centros de vida comunitária e escolas profissionalizantes de menores), dezenas de açudes, capelas, cemitérios, e pequenos hospitais.
Aprendemos que a evangelização se faz pelo contato direto com as pessoas, no diálogo permanente, na comunicação de duas experiência: de vida e de fé. Por isso, em nossas missões, dedicamos bastante tempo às visitas missionárias, ao conhecimento direto das populações e de sua situação.
Nos anos 80, já éramos cerca de 40 e formávamos a Equipe Missionária do Nordeste, apoiados por dom Manuel Pereira, bispo emérito de Campina Grande, na Paraíba. Escolhemos uma coordenação, fizemos da assembléia anual um tempo privilegiado de convivência, de partilha dos trabalhos, de alimentação de nossa vida espiritual, de avaliação das relações entre nós, de revisão também das diretrizes missionárias de nossa equipe. Pouco a pouco, fomos definindo nossa espiritualidade que se alimenta em duas fontes fecundas: 1. Jesus Cristo pobre, crucificado e servidor dos excluídos e 2. o pobre e excluído pela sociedade nordestina excludente.
Definimos também nosso espaço missionário: o Nordeste do Brasil. Desde cedo, cultivamos a nossa liberdade apostólica dentro e fora da Igreja e não quisemos reforçar as estruturas paroquiais nem submeter pessoas ao seu controle, mas despertar a fé em Jesus Cristo e a responsabilidade das pessoas convertidas em assumir as lutas da vida, encontrando-se na leitura da Palavra de Deus e na oração, nas ações solidária e nos trabalhos comunitários. Por isso, não moramos em casas paroquiais: escolhemos habitar em ruas da periferia para entrar em comunhão com os marginalizados e nos deixarmos envolver por seus clamores e esperanças. Experimentamos a perseguição de latifundiários, as acusações de chefes políticos, espancamentos, rejeição dentro da própria Igreja, prisão e processos por causa do Evangelho de Jesus. Continuamos firmes.

A Associação de Missionários do Nordeste

Em 95, decidimos criar a Associação de Missionários do Nordeste com estatutos e diretrizes próprias. Após 25 anos de vida missionária, criamos uma metodologia de missionar e cuidamos da formação dos jovens, homens e mulheres chamados para a vida missionária nesta associação.
Na assembléia anual na cidade de Caruaru-Pe, em novembro passado, estudamos os pedidos de missão, organizamos as equipes missionárias para os diversos lugares, definindo os missionários que vão fazer a pré-missão. Estamos espalhados da Bahia ao Ceará. Organizamo-nos em 4 pólos: o pólo Ceará, o pólo Mandacaru, que compreende os sertões paraibano e do Rio Grande do Norte, o pólo litoral de Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte, o pólo São Francisco, compreendendo os estados de Alagoas, Sergipe e Bahia. Somos cerca de 50, incluindo os que se preparam nas diversas etapas de formação, de todos as idades, homens e mulheres de rara beleza, de etnia indígena, afro-descendentes, mestiços e alguns vindos da Europa. Só o Espírito de Deus produz esta colaboração entre tantas diversidades.

Frei Enoque Salvador de Melo e frei Roberto Eufrásio de Oliveira.

Maiores informações:

Coordenação da Associação de Missionários do Nordeste
Padre Manuel Machado Bezerra
Rua Ibiapaba n.º 179 - Independência
Ceará -
Tel/fax: (0xx88) 815-1105/675-1105

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