Revista "MUNDO e MISSÃO"

Testemunhos da Vida Missionária

GU, o convertido

A fé de um novo cristão contagia os outros

Daniel Cerezo

Eram onze horas da noite. Com sua moto, Gu percorria as angustas ruas de Macau até chegar a sua casa, onde o esperava uma surpresa. O senhor Wong, síndico do edifício, abriu-lhe gentilmente a porta e Gu estacionou a moto no pátio. Logo Wong iniciou a conversa com uma pergunta inesperada: "O que lhe acontece hoje? Parece diferente!". A partir daí, a conversa desenrolou-se por longo tempo.

O objeto foi algo que tinha acontecido poucos minutos antes. Embora, para dizer a verdade, tudo houvesse começado dois anos atrás.

Uma proposta

Gu emigrou do Vietnã para Macau no começo dos anos 90. Na sua peregrinação para a liberdade, teve que passar pelas dificuldades típicas dos migrantes, como despachar os papéis para conseguir a documentação necessária. Mas tudo isso, embora difícil, não o desanimou; ao contrário, com paciência e hábil diplomacia, conseguiu a residência e um trabalho digno.

Começou trabalhando na Caritas, em projetos de ajuda humanitária pa-ra a China. Na realidade, o senhor Wong via sempre que Gu ajudava as pessoas e o fazia sem cobiça de lucro. Isso o impressionava e até que de vez em quando chegavam a comentar alguma coisa sobre religião. Mas tudo ficava por aí.

Um dia me encontrei com Gu no escritório da Caritas. Uma secretária católica com a qual Gu trabalhava o apresentou a mim e começamos uma conversa sobre os projetos de ajuda humanitária na China. A secretária, sem meios-termos, propôs diante dele que eu devia ensinar-lhe catecismo, porque para ela era mais difícil. Gu sorriu e eu lhe dei meu endereço.

Depois de três meses, Gu foi me visitar na igreja. Quase não me lembrava dele. "Não se recorda de mim?", perguntou-me com seu sorriso habitual. Perguntei-lhe o que o trazia por aí e me respondeu com uma afirmação decidida que queria conhecer Jesus Cristo. Deixou-me um pouco confundido, no início, porque não esperava palavras tão diretas, mas depois marcamos uma data para o início.

Durante quase dois anos, Gu foi fiel a seu compromisso semanal de uma hora e meia de catecumenato. Uma das experiências mais bonitas do missionário é a de acompanhar os adultos ao encontro com Cristo.

Aos poucos, Gu começou a descobrir a influência que Cristo ia exercendo na sua vida; assim, ao se cumprirem seis meses de catecumenato, como costumo fazer com todos os adultos, perguntei-lhe como estava indo no seu conhecimento de Jesus e se sua vida estava adquirindo um novo sentido. Respondeu que sim. Então lhe disse que, se conhecer Jesus Cristo era algo realmente importante na sua vida, devia partilhar esta boa notícia com seus amigos, familiares e colegas de trabalho. Depois de um mês e meio, apresentou-me um amigo, Al Iau, que entrou também na caminhada catecumenal.

Gu comenta que, no trabalho, fala freqüentemente de Cristo para seus colegas. As reações são de todo tipo. Alguns lhe dizem que está perdendo seu tempo, que não vale a pena; porém, há outros que o escutam com muito interesse. Eu lhe digo que o mais importante não é que todo mundo dê uma resposta afirmativa a seu convite, porque isso é obra do Espírito, e sim que ele, como cristão, anuncie o Evangelho.

O batismo

O objeto da conversa de Gu com o senhor Wong foi, porém, sua última experiência durante a vigília pascal do Sábado Santo. Naquela noite, havia sido batizado junto com outros nove jovens e adultos. Depois da celebração, foi servida uma taça de chá no estilo chinês e, em seguida, ele foi para casa de moto. Foi aí que se encontrou com o senhor Wong. Que melhor oportunidade para um recém-batizado de compartilhar sua experiência gozosa de Jesus ressuscitado! Depois de falar com ele por meia hora, Gu convidou-o a ir à igreja no dia seguinte, domingo de Páscoa. Assim foi.

Um dia, disse a Gu que havia recebido Jesus de graça e devia dá-lo de graça. Agora ele me acompanha no ensino da catequese. Os três catecúmenos são todos fruto do convite de Gu.

MACAU

O território de Macau (24 km2) voltou sob a soberania da China no dia 20 de dezembro de 1999, depois de ter sido colônia portuguesa por quatro séculos e meio. Política e economicamente goza de ampla autonomia, na base do princípio "um país, dois sistemas", aplicado também a Hong Kong.

A população de Macau é de 438.000 habitantes (95% chineses).

A religião principal é o budismo (45%); os cristãos não chegam a 10% e os católicos são quase 7%. O catolicismo chegou a Macau no ano de 1513 com os primeiros marinheiros e os jesuítas que os acompanhavam.

Por enquanto, a passagem de Macau para a soberania da China não afetou a situação da Igreja. Sua atividade pastoral não sofreu nenhuma mudança, embora seja difícil prever o que poderá acontecer no futuro.

Certo dia, enquanto explicava a Gu o sentido do batismo, disse-lhe que nos fazia reis, sacerdotes e profetas. Ele me respondeu que o que lhe correspondia era a função de profeta, porque se sentia particularmente inclinado a ensinar, falar e anunciar a outros a mensagem de Jesus.

No trabalho missionário, descobrimos aos poucos que Deus tem seu ritmo com cada pessoa e povo e que os sinais da sua presença em nossa vida estão atrás da esquina. Assim, com essas pequenas "gratificações" pastorais, me dou conta de que Deus é o primeiro interessado em que seu reino se torne realidade. Seus caminhos nunca deixarão de nos surpreender. Por isso continuo me perguntando: "Por que três meses depois de me ter encontrado com Gu, ele mesmo decidiu vir à catequese? Por que ele nunca tem medo de partilhar sua experiência de Jesus no escritório, quando, às vezes, eu receio em fazê-lo para não ferir a sensibilidade dos outros? Por que, naquela noite, se iniciou aquela conversa entre Gu e Wong, que conduziu este à igreja?".

Algo parece claro e em sintonia com a parábola da pequena semente de mostarda, aparentemente insignificante, que cresce e se desenvolve. Uma razão a mais para sentir que o Senhor, muitas vezes de forma surpreendente, atua constantemente no meio de nós. Minha oração de hoje é a do cego no caminho: "Senhor, que veja!".

"Misión sin fronteras"

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