Revista "MUNDO e MISSÃO"
Testemunhos da Vida Missionária
|
Guiné Bissau: a guerra vista por dentro Alberto Garuti A renúncia do presidente João Bernardo Nino Vieira e a retirada das tropas senegalesas que foram em seu apoio apressou o fim dos combates, iniciados há quase um ano, na Guiné Bissau. Pe. Daniel de Souza, do Pime, esteve lá durante todo esse tempo e nos dá suas impressões M.M.: Qual foi o papel dos missionários durante a guerra? Pe. Daniel: Eles estiveram sempre unidos no apoio ao povo. Todos os missionários
se dispuseram a ajudar onde fosse preciso. Quem morava perto da capital,
onde os combates eram violentos e de onde fugiram centenas de milhares
de pessoas, recebia em suas casas os refugiados. Os que moravam mais longe
foram ajudar. M.M.: Vocês conseguiam manter contato com o mundo? Pe. Daniel: Conseguimos. Através de quem tinham rádio-transmissores, entramos em contato com o exterior, especialmente Portugal e Itália. Através do rádio, a Guiné-Bissau conseguiu muita ajuda durante a guerra. Cito o exemplo de Portugal. Lá tem o grupo "Vida" que, todo ano, enviava pessoas para trabalharem conosco. Enviava, por exemplo, professores para ajudar nossos alunos no português e na matemática. Desta vez, o mesmo grupo mandou também médicos e enfermeiras. Um grupo deles assumiu a tarefa de trabalhar com as crianças subnutridas. Mais tarde, conseguimos os telefones celulares que permitiam comunicações via satélite. Vários jornalistas que passaram por ali os deixaram para nós. Praticamente, em cada residência de missionários, acabamos tendo um desses telefones. M.M.: Conte-nos algumas de suas impressões do tempo de guerra. Pe. Daniel: A primeira impressão foi esta: no meio de tanto ódio e violência, vi tanta solidariedade. A guerra começou em Bissau e as pessoas, que fugiam da capital, começaram a chegar às cidades vizinhas, como Mansoa, onde tem uma missão do Pime. Elas se acumulavam nas casas religiosas, nas igrejas, nas escolas. Na casa provincial do Pime, algumas dezenas de quilômetros fora de Bissau, chegaram a se ajuntar de dez a quinze mil pessoas. Mas era sempre uma multidão em trânsito que ficava ali o tempo necessário para achar uma casa de parentes ou amigos que os recebesse. Mas a multidão que chegava da capital não cabia nas casas religiosas. Muitos iam direto à casa de amigos, parentes ou de outras pessoas que se dispusessem a recebê-los. Vi casas, em Mansoa, onde antes moravam de 10 a 15 pessoas, receber outras tantas e pôr à disposição delas alimentos que tinham estocados para o ano inteiro. Os refugiados, por sua vez, dispunham-se a trabalhar na lavoura, para colaborarem na sua manutenção. M.M.: Onde você esteve durante este período? Pe. Daniel: Nos primeiros dias, estive em Suzana, na minha missão, depois fomos para Mansoa para colaborarmos com os outros missionários que estavam recebendo milhares de refugiados. Íamos ao encontro dos refugiados que vinham a pé da capital. Nesse trabalho, vi cenas que tinha assistido somente na televisão, quando mostrava as colunas quilométricas dos refugiados de Ruanda e Burundi. Eu nunca teria imaginado que um dia viveria pessoalmente essas cenas. Tentando ajudar velhos, doentes, pessoas que se arrastavam, outras que caíam desmaiadas sob o sol de 40 graus, colocávamos alguns em nosso caminhão, dávamos um pouco de água, mas não podíamos atender a todos. M.M.: Como foi a atividade da missão durante a guerra? Pe. Daniel: Todas as atividades ordinárias, como por exemplo,
a catequese, foram suspensas. A primeira atividade dos missionários
era ajudar os refugiados, proporcionar-lhes alimentação,
cuidados médicos e abrigos. Não tínhamos nada e tínhamos
que pedir tudo de fora. Era preciso fazer levantamentos: quantos refugiados
em cada região, quais as doenças mais comuns entre eles,
as eventuais epidemias. Eram feitas listas de remédios e alimentos
necessários a serem apresentadas aos organismos internacionais,
pedindo envio imediato, porque, naquelas condições, as pessoas
morriam debaixo dos nossos olhos e nós não podíamos
fazer nada. Vimos, depois, que o problema não era só conseguir
aquilo de que precisávamos: através da Cruz Vermelha e outros
organismos internacionais, até que conseguimos. Dificuldade era
fazer com que tudo isso chegasse até nós, porque foram aparecendo
controles, nas fronteiras e dentro do próprio país. Esses
últimos eram os mais cruéis: as tropas senegalesas, em apoio
ao governo, não deixavam passar nada, nem remédios nem alimentos,
tentando levar o povo ao desespero, na esperança de que ele se
revoltasse contra as forças rebeldes. Mas isso não aconteceu. M.M.: Que problemas mais graves a guerra deixou? Pe. Daniel: Muitos. Vou lembrar só um: o problema das minas. Elas foram espalhadas e enterradas nas estradas, nos campos e nas plantações para atrasar o avanço das tropas inimigas. As primeiras, em sua grande maioria, foram desativadas. As outras não. Imagino o que pode acontecer quando as pessoas recomeçarem seus trabalhos agrícolas. M.M.: Lembra de algum fato acontecido naqueles dias que lhe chamou particularmente a atenção? Pe. Daniel: Lembro de um grupo de refugiados que saía de Bissau rumo ao interior. Caminhavam lentamente carregando suas trouxas. Entre eles, havia uma mãe com uma criança pequena. De repente, uma bomba caiu no meio deles e matou a mãe. Nesses casos, os mortos são abandonados e a caminhada continua. O casal, que caminhava ao lado da mãe, viu a cena e, sem pensar duas vezes, levou a criança que acabava de ficar órfã consigo. Fiquei sabendo que foi adotada por eles. Foi decisão imediata, tomada no espaço de alguns segundos. Na crueldade da guerra, há sempre esses exemplos de generosidade e de amor. É o trigo que cresce no meio do joio. |
Visite
as outras páginas
[P.I.M.E.] [MUNDO e MISSÃO]
[MISSÃO JOVEM] [P.I.M.E.
- Missio] [Noticias] [Seminários]
[Animação] [Biblioteca]
[Links]