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Dom Helder Câmara, um marco na Igreja do Brasil
Dom Helder Câmara foi, sem dúvida, um marco na Igreja do
Brasil dos últimos 50 anos, que com seu exemplo e modo de agir,
ajudou a mudar profundamente. Sua influência não se limitou
ao Brasil: as numerosas viagens que fez ao exterior, às vezes dificultadas
por mal-entendidos das autoridades militares e religiosas, fizeram dele
uma figura mundialmente conhecida, amada e não pouco contestada.
Foi um dos idealizadores da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil
(CNBB), organização copiada por bispos de outros países,
e seu primeiro presidente. No Rio de Janeiro, atuou como bispo coadjuntor
e, em Olinda e Recife, como arcebispo.
Pioneiro da Teologia da Libertação
"Quando dou de comer aos pobres, chamam-me santo, quando respondo
porque é que os pobres têm fome - chamam-me comunista":
foi assim que dom Helder resumiu suas dificuldades com as autoridades
políticas e religiosas, quando era contestado a propósito
de sua obra social e profética em favor de uma maior igualdade
e justiça no país e dentro da Igreja. Não raramente
se referiam a ele como o "bispo vermelho", especialmente nos
duros tempos da ditadura.
Ele desejava uma Igreja mais participativa, orientada para a defesa dos
pobres e a favor dos movimentos sociais. Quando foi substituído,
em 1985, em seu serviço como arcebispo de Olinda e Recife, retirou-se
para viver de maneira simples, coerente, até o fim da vida, com
seu posicionamento a respeito da pobreza. Sua batina branca era surrada,
celebrava suas missas sem pompas, morava numa casa modesta na periferia
da cidade do Recife; dizem que nunca aceitou um convite para comer em
restaurantes.
Sua obra, de fato, não o apresenta como teólogo, filósofo
ou revolucionário teórico, mas como um pastor, no sentido
mais amplos da palavra, preocupado com o bem-estar social e religioso
do povo que ele amava.
Sua atuação transformadora começou a se manifestar,
quando foi nomeado bispo auxiliar do Rio de Janeiro, aos 43 anos. Além
de ter sido um dos fundadores da CNBB (1952), também o foi da Conferência
Episcopal latino-americana (CELAM). No inicio dos anos 60, dom Helder
dedicou-se à preparação do Concílio Vaticano
II convocado por João XXIII.
Um legado de obras sociais
Realizando seus sonhos e suas aspirações de justiça
social e caridade, dom Helder deixou várias obras como a Obra do
Frei Francisco, criada no Rio de Janeiro; iniciou o Banco da Providência,
hoje ampliado, que centralizava doações e as distribuía
entre a população pobre. Também criou no Rio de Janeiro
um projeto de urbanização de favelas, conhecido como Cruzada
São Sebastião.
Em Pernambuco, realizou a primeira experiência de reforma agrária,
comprando terras na Zona da Mata e assentando trabalhadores rurais.
Ardente defensor dos direitos humanos
Depois do golpe militar, após um primeiro período de convivência
pacífica com o exército, ao ver a violação
brutal dos direito humanos com a caça aos chamados comunistas,
dom Helder passou a atuar em defesa dos presos políticos e contra
a tortura no Brasil, cuja existência o governo militar procurava
negar de todas as formas. Foi o período em que enfrentou as maiores
dificuldades, mas também de maior projeção no exterior,
tendo sido acusado pelos militares e por parte do clero conservador de
promover atividades comunistas no País. O religioso passou a ser
visto como simpatizante da esquerda e seu trabalho em defesa de uma Igreja
mais aberta incomodava o regime militar. Através de documentos
secretos, divulgados no livro "Dom Helder Câmara - entre o
poder e a profecia", de Nelson Piletti e Walter Praxedes, descobriu-se
que o governo Médici (1969-1974) organizou uma campanha contra
a escolha do religioso para o Nobel da Paz, indicação promovida
pelo episcopado alemão.
O bispo dos pobres soube atrair as atenções de todos os
que trabalham e sofrem em favor de uma sociedade mais justa, não
importa qual seja seu credo. Por isso, publicamos aqui parte de um artigo
de Alexandre Gomes, muçulmano praticante, em homenagem a Dom Helder.
A solidariedade radical de Dom Helder Câmara
Alexandre Gomes
"Todas as revoluções não são obrigatoriamente
boas (...) mas a história mostra que algumas eram necessárias
e produziram bons frutos". (Dom Helder Câmara)
Pode parecer estranho, e realmente deve ser, que alguém fora do
meio católico, ligado a outra fé, se sensibilize com o falecimento
desta notável figura humana que foi o arcebispo de Olinda e Recife.
Mas é certo que esta estranheza só é realmente estranha
a quem não o conheceu.
Ainda que recorrendo ao que provavelmente será um chavão
na imprensa nos próximos dias, é impossível não
ver o contraste entre a figura meiga e franzina do arcebispo frente a
toda a sua força interior. Homem incapaz de conhecer o medo - o
que demonstra sobretudo a intensidade da sua fé e a certeza de
estar agindo com correção - dom Helder Câmara teve
a coragem de enfrentar tanto os algozes do regime militar como as forças
conservadoras dentro da hierarquia da qual fez parte.
Jamais perguntou se os perseguidos políticos que defendia eram
católicos, protestantes, judeus ou ateus: defendia-os não
por um sentimento corporativo, mas sobretudo porque nele os valores humanos
- e cristãos - estavam enraizados demais para fazer esta distinção.
Alguém já disse que é fácil amar ao amigo,
muito mais difícil é amar àquele que nos contesta
e dom Helder foi capaz deste amor incondicional, a ponto de colocar a
vida e a segurança em risco.
Sua enorme dedicação não condizia com sua figura
franzina e humilde. Ele agia não por considerar a ação
um mérito, mas porque a tinha no seu íntimo como o dever
de um cristão. Não agia para ser louvado como exemplo de
cristão, mas porque uma ética profundamente arraigada em
seu espírito não lhe mostrava outro caminho senão
o que ele tão heroicamente seguiu.
Não tentou jamais ser herói, mas apenas um cristão
consciente de suas responsabilidades com a humanidade; mas este desprendimento
o fez ainda mais heróico e exemplar. É certamente um dos
melhores exemplos que se pode ter de uma figura humana rara para a qual
até a omissão - entendida como não fazer tudo que
estivesse ao seu alcance pelos seus semelhantes - era um pecado terrível.
Dom Helder foi mais que um símbolo desta luta contra o individualismo,
opondo a ele uma solidariedade radical que encarna o sentimento de Misericórdia
extrema tão pregado e tão pouco colocado em prática
pelas mais diversas fés.
Talvez isto explique porque a figura dele é tão querida
até para quem não compartilha da crença cristã,
como eu que sou muçulmano. Afinal ele se tornou um símbolo
daquela dedicação ao próximo que todos os verdadeiros
crentes de qualquer fé só podem admirar como um sinal da
Misericórdia de Deus para com os homens.
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