Revista "MUNDO e MISSÃO"

Testemunhos da Vida Missionária

omos uma época sem memória. Também na missão: achamos que tudo no passado foi errado e que agora estamos começando da estaca zero a verdadeira evangelização, no respeito das culturas, na inserção no meio dos pobres, livres das amarras do poder. Talvez. Mas, às vezes, ficamos no campo das boas intenções e dos programas confiados às palavras e aos papéis.

Por isso, é saudável abrir algumas páginas da verdadeira história missionária, feita de suor, de fé, de dedicação, de amor sem retorno. Aqui é a epopéia (uso o nome sem medo de exagerar) dos missionários do Pime na Birmânia. Só algumas pinceladas: deixo os leitores imaginarem o resto.

N.B. A Birmânia, desde 1989, chama-se Mianmá, mas preferimos usar o nome antigo.


Paroquia na Birmânia

Quando era estudante de teologia no Pime, a missão para a qual mais desejávamos ser enviados era a Birmânia. Lembro uma noite, quando o superior, durante a adoração eucarística, anunciou na capela as destinações da turma de meus colegas ordenados em 1960. Um deles, ouvindo-se enviado inesperadamente para a Birmânia, pulou do seu lugar e correu fora no corredor, gritando: “Birmânia, Birmânia!”.

Foi uma alegria, porém, de curta duração. Ele, com outros 18 missionários do Pime, foi expulso daquele país seis anos depois, em 1966, pelo governo comunista.

Por que a “paixão birmanesa”? Era uma missão difícil, longe do mundo “civilizado”, sem confortos, entre montanhas e florestas, sem estradas, no meio de populações geralmente analfabetas. Mas correspondia ao sonho que alimentou os missionários do Pime, desde o início, de partir para terras longínquas e difíceis, onde o Evangelho ainda não fora anunciado. Era a escolha da missão além-fronteiras, uma escolha de fé, com uma pitada de romantismo...

Os inícios

Os primeiros missionários do Pime chegam à Birmânia em fevereiro de 1868, destinados a um território na parte oriental do país, além do rio Salween, entre populações da montanha, autônomas dos colonizadores ingleses e do império birmanês. Na realidade, só em 1912, conseguirão passar o rio e iniciar a evangelização no lugar inicialmente previsto.
Mas não perdem tempo naqueles quase cinqüenta anos: há uma imensa região entre Toungoo, a última cidade sob o domínio inglês, e o Salween, habitada por várias etnias de carianos. A primeira atitude dos missionários é significativa: “Trata-se de nos tornarmos birmaneses, aliás, carianos”, afirma o responsável do grupo, pe. Eugênio Biffi. E é o que realizam, jogando-se, sem se pouparem, numa vida de dedicação e de extrema pobreza. Viajam dias seguidos, a pé, para iniciar os primeiros contatos com as aldeias escondidas nas montanhas, “não permitindo as dificuldades econômicas de comprar cavalos”, explicam.

A comunidade de Toungoo decide comer uma só vez por dia, à noite, porque não pode se permitir duas refeições. A fraqueza física é porta para as doenças: febres, varíola, disenterias golpeiam os jovens missionários. Em 1872, morre o primeiro, pe. Sebastião Carbone. À pobreza acrescenta-se o clima quente-úmido: a lista das vítimas fatais nos primeiros decênios é longa, e todas muito jovens.
Os missionários do Pime pregam um Evangelho integral que à salvação da “alma” une também a do “corpo”: ensinam novos métodos de agricultura, levam o bicho-da-seda, o café, o quinino, a batata e vários tipos de verduras, abrem pequenas escolas, distribuem remédios, cavam poços, ensinam como guardar a água de chuva, construindo tanques de concreto. Igualmente importante é a ação de pacificação entre aquelas populações, testemunhada, por exemplo, pelo irmão Pompeo

Nasuelli, que relata discursos ouvidos muitas vezes: “Como somos felizes que os padres vindos aqui trouxeram a paz entre nós. Antes da chegada dos padres, nunca estávamos seguros da nossa vida: nossos inimigos vinham para nos matar e, muitas vezes, não podendo nos pegar à noite, nos esperavam quando íamos aos campos e nos matavam; nem podíamos ir comprar um pouco de sal, porque temíamos ser mortos pelo caminho. Mas agora que vieram os padres, podemos ir para qualquer lugar, sem medo”.


Imagem da missão na Birmânia

Dom Rocco Tornatore

O pe. Eugenio Biffi, antes de ir para a Birmânia, havia trabalhado em Cartagena, na Colômbia (1855-62), mas foi expulso do país pelo governo maçônico. Para esta cidade o papa vai enviá-lo de novo como arcebispo, em 1882, respondendo aos pedidos insistentes daquele povo. Sucede-lhe o padre Tancredi Conti que, porém, se demite poucos anos depois, deixando o lugar ao grande dom Rocco Tornatore que regerá a missão de 1886 a 1908. Como presente de ordenação episcopal recebe uma sela de cavalo!

Pe. Paulo Manna (agora bem-aventurado) deixou dele uma descrição plástica: “Era o verdadeiro tipo de bispo missionário. Nele há uma grande simplicidade e um grande zelo. Despojado de qualquer importância, a seus missionários mostra com o exemplo, mais do que com as palavras, o que se deve fazer; vale mais dar uma volta pela missão com ele, do que estudar nos livros a prática pastoral. Esta sempre à disposição de todos. O zelo de dom Tornatore é indescritível. Ninguém nunca poderá saber o quanto ele fez e o quanto sofreu, em quarenta anos, para salvar aquelas almas, para estender o Reino de Deus àquelas regiões. Isso, em primeiro lugar, porque viaja quase sempre sozinho, depois, porque cumpre as ações maiores com a simplicidade de homem para o qual o heroísmo é virtude habitual. Ele sara a alma e o corpo dos pobres que sofrem com a lepra, a cólera, a varíola, como se fosse a coisa mais natural do mundo.


Grupo de missionários antes de serem expulsos

Nem na terrível estação das chuvas sabe ficar quieto por muito tempo. Voltando de uma volta pelos montes, deixa passar, no máximo, uma semana e recomeça em outra direção a visita a seus filhos espirituais, enfrentando dificuldades e sacrifícios indizíveis. Sua missão é um contínuo suceder-se de montanhas totalmente cobertas de matas virgens, sem estradas, atravessadas por inúmeros rios impetuosos e sem pontes, infestadas por tigres e outras feras selvagens. Quando o vejo subir e descer aqueles montes íngremes na sua idade avançada, não posso deixar de ver nele a verdadeira imagem do Bom Pastor, que vai em busca da ovelha perdida.

Aquelas populações são rudes e não é fácil o relacionamento com elas. Mas ele os ama com afeto mais que paterno, trata-os com total familiaridade. E, nas aldeias, quantas privações! Nas aldeias carianas não se sabe o que são comodidades. É sempre a capela de bambu que nos hospeda e temos sorte quando o telhado de palha e o piso estão em bom estado. Nada de cama, nada de cadeiras, nada de nada. A alimentação nestas viagens consiste em arroz cozido puro e curry (molho de pimentão) com um pedaço de pão torrado molhado na água. Dom Rocco tem tanto zelo e espírito de sacrifício. É sempre o primeiro a levantar-se e passa as primeiras horas da manhã na igreja. Mas sua companhia é agradável: está sempre alegre, sempre bem humorado. Estar com ele, viajar com ele, é um verdadeiro prazer”.

Os irmãos leigos

Os missionários do Pime tentam várias vezes atravessar o Salween, fazendo, a cavalo, até 1500 quilômetros. Conseguem, em 1912, e fundam a prefeitura apostólica de Kengtung (1927), pontilhando aquele território de presenças da Igreja. Uma das dificuldades encontradas é a oposição de algumas Igrejas protestantes, sobretudo os batistas e presbiterianos, que haviam chegado à região antes dos missionários do Pime: eles os apresentam às populações locais sob uma luz negativa. Este contraste, dos dois lados, na verdade, caracteriza a história da missão na Birmânia oriental que, só depois do Concílio Vaticano II, será embuída de um espírito ecumênico de compreensão e colaboração.

Junto aos missionários sacerdotes, dão uma contribuição determinante à missão do Pime os irmãos leigos e as irmãs de várias congregações. Os primeiros são mais numerosos que nas outras missões do Instituto e com personalidades de grande valor. O padre Alfredo Cremonesi assim os representa: “Os nossos irmãos, antes de serem construtores, tipógrafos, marceneiros, pintores, artistas, são apóstolos. Têm o mesmo fogo dentro que os consome e não só finalizam todas suas atividades pela comum causa apostólica, mas logo que podem exercem um verdadeiro trabalho apostólico. Antes de mais nada, alguns deles são responsáveis de orfanatos e de escolas, portanto, têm nas mãos, junto com o padre com quem trabalham, a educação e a formação das futuras gerações cristãs. Todos os irmãos, depois, nos seus contatos com os indígenas, por causa de seus trabalhos, sempre almejam o verdadeiro apostolado”.

Uma figura mítica é o irmão Pompeo Nasuelli, falecido em Toungoo, em 1927, depois de 55 anos de missão. Homem de grande fé e piedade, marceneiro, construtor, agricultor, catequista, fala seis idiomas. Outra personalidade marcante é o irmão Felice Tantardini (quadro p.26). As irmãs são uma força insubstituível na educação (escolas e orfanatos), na saúde (hospitais, dispensários, leprosários) e na própria evangelização.

Guerra e guerrilha

No início da II Guerra Mundial (1940), a maioria dos missionários da Itália, nação em guerra contra os ingleses, donos da Birmânia, são internados em campos de concentração. Seriam libertados com a invasão japonesa do país (1942). A ditadura militar japonesa tem sido muito dura e alguns missionários, suspeitos de serem espiões dos ingleses, são torturados; entre eles, o bispo de Kengtung, dom Ermínio Bonetta, que perde quase completamente a vista.
Com a independência da Birmânia (1948), cria-se uma situação de caos: começa a guerrilha separatista das tribos dos montes contra os birmaneses e do partido comunista filo-chinês para instaurar um regime maoísta. A eles acrescentam-se algumas tropas dispersas do exército nacionalista de Chiang Kai-shek que se refugiam naquelas regiões, dando-se à exploração das riquezas e ao banditismo. Cinco missionários do Pime são mortos, nos anos cinqüenta, por uma ou outra das forças em conflito.


Familia Padaung

Em 1962, o general Ne Win, no po-der desde 1958, dá um golpe de Estado e inicia uma ditadura, que ele define “o caminho birmanês ao socialismo”, inspirando-se nos modelos russo e chinês e que ainda domina o país. Tudo é nacionalizado: bancos, comércio, terras, meios de comunicação, escolas, hospitais. Só se salva a liberdade religiosa, pela presença maciça do budismo, mas, em 1966, todos os estrangeiros que chegaram à Birmânia depois da independência são expulsos, entre eles, 234 missionários e missionárias católicos e protestantes.

Os do Pime são 19. Este duro golpe, porém, não abala a Igreja da Birmânia nem, em particular, a das dioceses evangelizadas pelo Pime (que, nos dois decênios seguintes, serão quatro): há muitos anos os bispos cuidam das vocações sacerdotais em seminários bem organizados e com uma formação tradicional e sólida. O mesmo acontece com as religiosas.
Os missionários do Pime que ficam depois da expulsão são os mais idosos, mas resistem até o fim, enraizados fielmente em sua missão. Não recebendo mais forças jovens, seu número vai progressivamente definhando. Agora sobrou um só, pe. Paolo Noé, de 84 anos. Em 1989, eles perguntam aos bispos e sacerdotes locais se devem permanecer ou voltar para Itália. Recebem uma resposta que resume a história do Pime na Birmânia: “Vocês devem nos ajudar a dar a nosso clero e a nossos cristãos o espírito missionário vivo, como é o de vocês e da tradição do Pime”.


Pe. Vismara com um grupo de cristãos de um vilarejo

Pe. Clemente Vismara (está encaminhada sua causa de beatificação) é uma figura característica, que representa simbolicamente o missionário do Pime na Birmânia. Morreu em 1988, com 91 anos, depois de 65 de missão. Escritor fácil e arguto, descreve com cores vivas sua experiência

O que eu fiz em toda minha vida missionária? No longínquo 1923, jovem e bonito, com os olhos da cor do mar, fui lançado, inexperiente, todo sozinho, numa mata, a seis dias de cavalo dos meus colegas e me foi dito: “Desenvolva-se”. Meus companheiros eram um catequista, um guardião de cavalos, um cavalo de sela e dois de carga. Dois católicos: o catequista e eu. Dinheiro pouco. “Você não conhece o idioma – disse-me o superior – não sabe falar, portanto não precisa de dinheiro. Deve passar seu tempo no estudo do idioma”. Casa, igreja, estábulo, cavalos: tudo estava numa cabana de barro, com o telhado de palha.

E comecei. Vocês perguntarão: “A evangelizar?”


Mons. Than, bispo de Kengtung, que luta pela canonização de Pe. Clemente

Erraram. Comecei, com o machado, a desmatar, para... respirar. Na cabana havia fumaça demais: construí uma cozinha separada. Ao redor da casa, no capim, havia muitos sanguessugas. Construí um atalho largo e limpo.

E comecei... Vocês perguntarão: “A evangelizar?”.

Erraram. Comecei a ser médico, a distribuir remédios, agradecendo a quem se dignava aceitar, de minhas mãos, comprimidos de quinino (quanto quinino!), a quem se deixava ungir com ungüento sulfúrico (quanta sarna! Eu também a peguei!).

À noite, ao redor da fogueira, à luz da lâmpada, estudava idiomas e medicina. Se o peso da solidão me desanimava (não havia pescado nenhum “peixe”) e a febre malárica vinha me fazer companhia, me divertia, escrevendo um artigo para uma revista missionária da Itália. Encontrava todos meus coirmãos uma vez por ano. Sozinho demais: poetava para não chorar, escrevia só à noite – tempo de poesia – para prolongar o dia.

E comecei.... Vocês perguntarão: “A evangelizar?”.


Pe. Vismara com crianças akha, um grupo tribal que povoam os montes da Birmânia

Comecei a andar, andar, andar. O Evangelho eu o conhecia, o amava, o praticava, mas devia guardá-lo no coração só para mim. As pessoas, desconfiadas, não se importavam. Deveria antes demonstrar, com os fatos, que aquilo que depois pregaria era verdadeiro. Nos primeiros tempos, entrando nas aldeias, as pessoas fugiam, escondiam-se nas casas e das frestas de suas cabanas de bambu observavam meus movimentos. Era a primeira vez que um homem de pele branca, com grande barba, estava no meio deles. O importuno era eu, não eles. Meu trabalho era só doar o que tinha, o que podia, o que me pediam. O privar-me até do necessário me dava satisfação. Se me ofereciam comida, dizia sempre que era muito boa, embora não me tivesse acostumado aos pimentões. Condescender, contentar ao máximo. Tinha mais desejo eu de dar do que eles tinham de receber. Parecia-me um ato de confiança até quando me puxavam a barba.

Ele me pediam: arroz, roupa, bem-estar, remédios, etc, etc. Eu pedia sua alma. Qual dos dois era mais exigente? Durante minha vida, não pesquei produto de grande valor. Todas pessoas de baixo nível. Estava no meu programa: lixo humano, órfãos, doentes, viúvas, miseráveis...

Tornar felizes os infelizes era meu ideal e, depois de 40 anos de paciência, os felizes existem. Quantos? No início, eu os contava. Depois, pareceu-me inútil. Minha preferência foi sempre pelos órfãos e, acho que, por essas muitas centenas de passarinhos caídos fora do ninho, que não tenho medo da morte. “Non omnis moriar” (não vou morrer todo). Eles foram meu sol, minha esperança. A eles, mais do que a outros, eu me doei. Muitos me tornaram seu “avô” e, no seu ninho refeito, conhecem o amor e Aquele que é a fonte do amor. Pouco me importa se me estão gratos ou não; se eles estão bem, eu também estou.


Visita a um vilarejo com o bispo de Yangon, Dom Gabriel

Talvez eu me preocupe demais e intempestivamente. Sempre esperei ficar fiel a meu compromisso. Sempre esperei poder garantir meu rebanho: “Eu nunca vou abandonar vocês”.

Além de honrar a Deus, estava persuadido de honrar também minha pátria, da qual recebi os meios para alimentar meus pobres, remédios para os doentes, ajuda para construir igrejas, hospitais, orfanatos, etc. Não me parece exagero, se digo que foram usados cerca de dois milhões de tijolos em obras. Recebi, talvez, algum favor? Sim, só o privilégio de doar sempre, certo de nunca receber. Sou italiano, mas na Itália agora seria um estrangeiro: meu ninho é aqui e me encontro tão bem, apesar de tudo!

O Dono da vinha, o Dono absoluto é o bom Deus e tenho certeza de que fará sua parte. Medo de quê? Ele fez bem todas as cosas. Temos que dar crédito ao Onipotente e somos tão generosos que podemos dar um pouco de crédito também aos homens.


Dom Gobbato à esquerda, com irmão Felipe Tantardini

 

Pe. Paolo Noé

irmão Felice morre e apresenta-se a São Pedro para ser admitido entre os santos.
– Quem és?
– Sou o ferreiro de Deus!
– Ferreiro? Aqui não precisamos de nenhum ferreiro. Vá embora!
– Mas eu fui ferreiro por mais de sessenta anos na Birmânia e acho que tenho o direito...
– Vá embora!
– Eu daqui não saio. Tenho as credenciais em ordem. Abra-me!
Nossa Senhora ouve Pedro e o ir. Felice gritarem e sai para ver o que está acontecendo.
– Nossa Senhora, olha, São Pedro não quer me admitir entre os santos.
– Mostre-me seus papéis.
Fora dos muros do Paraíso está reunida uma multidão de maltrapilhos. São Pedro grita e ameaça. Nossa Senhora intervém e coloca sua assinatura em cada carteira de identidade... e São Pedro tem que abrir. Naquele instante o ir. Felice, que ainda não tinha entrado no Paraíso, acorda e comenta: “Agora que estava entrando no Paraíso, acordei! Mas entendi que a história do “ferreiro de Deus” vale pouco, se falta todo o resto”.
Mas o resto ele tinha em abundância, nos 69 anos que passou na Birmânia (1922-1991). O ir. Felice Tantardini era ferreiro, mas sabia fazer tudo: marceneiro, construtor, agricultor. Trabalhava 10-12 horas por dia. Na boca, o inseparável cachimbo, muitas vezes apagado. Era pequeno, mas possuía uma força incrível: dobrava com as mãos barras de ferro. Falava bem o inglês, conhecia o birmanês e alguns idiomas locais. Logo que chegou à missão, o bispo lhe disse: “Você é um irmão, veio aqui para trabalhar”. E ele suava da manhã até a noite, não tinha tempo para as línguas. Então começou, à noite, com o inglês. Morto de cansaço,
pegava o dicionário e um caderninho e escrevia as palavras que tinha ouvido durante o dia. Tinha uma memória formidável. Assim aprendeu os idiomas, com constância e método, um pouco a cada dia.
Sentia-se 100% missionário: pregava nas línguas locais, nas aldeias, aos domingos e, à noite, nas capelas, também depois de jornadas de trabalho extenuante. A isso deve-se acrescentar sua compaixão pelas crianças, os doentes, os pobres. Para si não gastava nada; tudo era para os pobres. Quando recebia uma oferta do exterior, dizia: “Este dinheiro não é meu, é dos pobres”.
Era apaixonado por Nossa Senhora: a cada dia rezava um rosário inteiro. Quando, aos 85 anos, quase cego, o bispo lhe ordenou: “Agora não trabalhará mais; seu trabalho agora é rezar”, obedeceu a ponto de passar praticamente o dia em oração. Assim, de um, os rosários passaram a ser quinze ou vinte. O problema dos seus coirmãos era encontrar algum defeito nele: o principal era a impaciência, mas era mais o desejo de não perder tempo para ser útil aos outros.
Quando morreu, o sonho do ir. Felice tornou-se realidade. Ele mesmo registra no final de sua autobiografia, escrita em obediência ao bispo, dom Gobbato: “Anseio tanto e peço ao bom Deus e à querida Nossa Senhora que me conservem uma perene juventude de espírito e me concedam a perseverança na minha linda vocação missionária, tão linda que não tem igual. E também depois de minha morte, chegando ao Paraíso – como espero – lá quero continuar a ser missionário: certamente não mais batendo a bigorna, mas martelando sem parar o coração do bom Deus, para arrancar tantas graças para este pobre povo (falo sobretudo dos pagãos), que agora vejo ao meu redor, mas que sou incapaz de ajudar e salvar”.

N.B. Também do ir. Felice está aberto o processo de beatificação.

 

Como era a vida de vocês na Birmania?

Mata e montanhas: muito bonito.Como era a vida de vocês na Birmânia?

Mata e montanhas: muito bonito.
Andávamos quase sempre a pé
e, onde era possível, a cavalo. Uma vida primitiva, linda, apaixonante, porque o povo dependia de nós em tudo: na nossa missão éramos papa, bispo, presidente da república para eles. Quando tinham um probleminha, recorriam ao padre. Não havia luz, se usava a vela ou a resina dos pinheiros. A vida deles era muito simples: da mata tiravam tudo, do sal às fibras para o tecido para confeccionar a roupa, às raízes mais desconhecidas que seus pajés usavam para tratar as doenças. Havia firmas farmacêuticas estrangeiras que enviavam seus técnicos para procurar raízes desconhecidas em outras partes do mundo e fazer remédios.

E as missões?

A diocese estava dividida em distritos: nós das missões próximas nos encontrávamos quase a cada mês, mês e meio. Todos juntos da diocese, só uma vez por ano por ocasião do retiro, porque, para alguns, eram necessários 4-5 dias a pé. Nas regiões onde estava presente a guerrilha era perigoso mover-se.

As missões têm várias capelas. Normalmente, nós missionários éramos um por missão; dois, se a paróquia era grande. As capelas (10-15 e até mais) estavam distantes do centro até alguns dias de caminho a pé ou a cavalo e nós as visitávamos 2-3 vezes por ano com uma permanência de um ou mais dias, dependendo da importância. Administrávamos os sacramentos e distribuíamos os remédios, que eram uma das coisas mais importantes, porque, na cultura daqueles povos, quem é unido a Deus, como seus feiticeiros, tem o poder sobre a matéria. Portanto, depois do atendimento espiritual, vinha o atendimento aos doentes. Tínhamos feito uma escola de medicina em Milão, que era muito séria e me serviu muito. Levávamos sempre remédios, vitaminas, antibióticos, remédios para o fígado, contra a diarréia das crianças, o tifo. Também os não cristãos vinham. Eles não tomavam os remédios sozinhos, mas queriam que lhes colocássemos na boca, porque éramos nós que dávamos eficácia ao remédio.

Que religião praticam aquelas etnias?

Eles têm sua fé, centrada na crença nos espíritos invisíveis. As mulheres, todo dia de manhã, numa mesinha de bambu fora da casa, colocam comida para o espírito. Ele encontra comida e não fica bravo nem entra na casa para causar doenças ou outras desgraças. É a mesma coisa que o encosto, aqui no Brasil. No ingresso das aldeias pagãs há um pequeno bosque dedicado ao espírito e uma vez por semana eles vão a este lugar, oferecem sacrifícios de animais e de outras coisas e derramam o sangue do animal sacrificado sobre o altar. Depois assam a carne e a repartem entre os presentes. Assim, o espírito não entra na aldeia.

Quais eram os motivos da conversão?

A conversão dos não cristãos vinha mais através de nossa atividade de atendimento aos doentes do que através da nossa palavra. Quando eles tinham uma dor ou uma doença, procuravam o benzedeiro ou alguém de nós. Era muito difícil ir ao hospital: o mais próximo estava a 300 km e era preciso muitos dias a pé para chegar, fazendo 10-12 horas de caminho por dia na mata.

Mas dependia bastante da cultura de cada tribo. Há algumas tribos com regras morais extremamente rígidas: ali o cristianismo entra mais facilmente.

Muitas vezes, entra através do chefe e, atrás dele, todo o povo. Lembro-me de um chefe que tinha a esposa doente. Era rico: possuía muitos pés de manga, uma horta belíssima, dez búfalos. Lucrava muito, vendendo os produtos na feira. Foi ao feiticeiro, que lhe mandou cortar todas as árvores, arrancar a horta, matar os búfalos, sem nenhuma melhora da esposa. Enfim, o chefe me procurou. Fui visitar a doente: era tifo. Prescrevi-lhe os remédios e, depois de três semanas, o chefe chegou todo enfeitado com a esposa, recuperada, e toda a aldeia. Trouxeram-me cestas com arroz, bananas, cana de açúcar e outros produtos. O chefe me disse: “Agora você envia à minha aldeia seu mestre, porque nós queremos seguir sua religião”.

Mas não são motivos espúrios?

Houve um período em que um padre dava arroz a uma aldeia, que depois abandonou a fé, porque quando se tornaram auto-suficientes na produção do arroz, lhe disseram que não precisavam mais dele.

Mas, geralmente, as conversões, progressivamente, se tornavam sinceras, quando eles viam que o cristianismo era sério. E eram fiéis. Depois da cura, havia sempre uma catequese profunda. Naturalmente, dependia também do catequista que era muito importante. Em cada aldeia com capela, colocávamos um que recebia um sustento da missão, porque estava à disposição da comunidade. Quando o catequista era bom, a comunidade funcionava muito bem.

Preocupavam-se com a educação?

Além dos colégios nos centros, em cada missão, recolhíamos as crianças das aldeias, na maioria órfãos, e as le-vávamos para as escolas da missão, porque nas aldeias não há escola. Lá viviam em regime de internado e recebiam formação escolar e religiosa. Daqui saíram os catequistas, muitos padres e religiosas. A ajuda para manter as escolas e os catequistas vinha do bispo e do exterior, mas também da horta e da criação de animais. Um dia, alguns sacerdotes da Itália foram visitar o pe. Clemente Vismara. Ele lhes disse: “Venham ver minha congregação das Filhas de Maria!”. Saiu ao pátio, assobiou com o apito e logo duzentas galinhas acorreram. “Estas são minhas Filhas de Maria”.

 

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