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ÍNDIA: diálogo em favor da vida
Jorge Alves
A visão comum é que a Índia, imenso país
com mais de um bilhão de habitantes, esteja envolvida numa áurea
de desafios e mistérios.
Os hindus, praticantes do hinduísmo, representam 80% da população
e estão ligados à grandeza de seus templos e a uma maneira
peculiar de vestir-se: grandes lençóis brancos para os homens
e vestidos longos e coloridos para as mulheres. O moderno e o tradicional
vivem juntos e, a cada esquina, misturam-se num conjunto original de elementos.
A riqueza de uma minoria e a luta pela sobrevivência de uma grande
maioria tornam esta nação um conglomerado cheio de contradições
e de ambigüidades.
É sobretudo o mundo dos pobres que impressiona, mesmo que todos
eles demonstrem uma grande dignidade. Ao redor dos templos um grande amontoado
de miseráveis circulam sem rumo, pedindo ajuda e esmola. As mãos
estão estendidas e os olhos, bem abertos, clamam por um ato de
amor. Perto de Bombaim, cidade de oito milhões de pessoas, há
uma lugar chamado "Swarga Dwar" (a Porta do Céu). É
mais um acontecimento do que um lugar, todo circundado de bosques e de
campos cultivados, onde os leprosos se sentem em casa.
Lugar de serviço e partilha
Tudo começou como uma iniciativa humanitária, alguns anos
atrás. A motivação que inspirou "Swarga Dwar"
foi a necessidade de introduzir um novo estilo de vida, para que os leprosos
pudessem viver e morrer em paz, os desesperados pudessem ter esperança
e os "sem voz" pudessem se expressar. Em poucas palavras, a
Porta do Céu é um lugar de hospitalidade, de reabilitação
e de oração.
O intento missionário que está na base dessa atividade é
a partilha e o serviço. Os leprosos hóspedes nesta casa
não são meros objetos a serem curados e atendidos, mas agentes
que partilham a própria vida com os outros. Nesse espírito
de serviço, todos providenciam a comida diária, trabalham
juntos nos campos, comem juntos, fazem limpeza das próprias áreas
em mutirão e rezam juntos durante o dia. Uma vez que os residentes
praticam diferentes religiões, a oração é
feita a partir das tradições de cada um.
Um pequeno espaço de oração, bem afastado, serve
para a oração dos muçulmanos, dos hindus, dos budistas
e dos cristãos. Todos se sentem filhos de Deus, ao qual todos se
dirigem de diferentes maneiras e com diferentes orações.
O ponto de inspiração é propriamente o plano de Deus
e o seu Reino. Entrando nesse conglomerado, vê-se uma faixa pendurada
no muro, onde está escrito em inglês: "O Reino de Deus
está alicerçado sobre pedras rejeitadas pelos construtores"
(cfr. Mateus 21, 42). Aqueles que foram e estão excluídos
pela sociedade mostram, através de uma vida serena, que a morte
representa uma porta para o céu e que o Reino de Deus é
o lugar em que todos os marginalizados são acolhidos de uma maneira
prioritária e especial.
De um ponto de vista missionário, o que é verdadeiramente
novo em tudo isso é a participação de todos na construção
de uma vida mais humana e digna. Tradicionalmente, o método era
aquele de assistir e atender aos necessitados; agora, é enfatizada
a partilha, a participação e o serviço fraterno,
em que os excluídos tornam-se os agentes mais valiosos na construção
do Reino de Deus.
Diálogo é participação
Na Índia, o tipo de presença que acontece na "Swarga
Dwar" continua questionando o estilo tradicional de evangelização,
especialmente em relação à maneira participativa
através da qual os excluídos se tornam agentes na construção
do Reino de Deus. O fato também de que pessoas de diferentes credos
e religiões se encontram para trabalhar, curar-se e rezar abre
perspectivas novas na questão do diálogo inter-religioso.
Antes de tudo, diálogo não é uma questão de
teorias que devem ser discutidas juntas nem é um empreendimento
de comparação de textos e de obras. Diálogo é,
principalmente, um aprendizagem sobre a vida, uma colaboração
mútua, um trabalho que deve ser feito em conjunto, uma construção
de relações humanas em que todos se sintam irmãos
e irmãs. Em segundo lugar, é na perspectiva do Reino de
Deus e na vida em abundância para todos que necessitamos juntar
as forças.
Certamente, há dimensões do diálogo religioso em
que é necessário abordar temas teológicos, mas a
inspiração deve sempre ser aquela em favor da vida que nunca
pode ser negada e diminuída. Os seres humanos devem derrubar as
barreiras em vista de uma maior solidariedade e ajuda mútua. Esse
é um pouco o espírito através do qual se move o caminho
da "Swarga Dwar", no contexto indiano.
Evidentemente, na Índia há outras tentativas de diálogo
inter-religioso em que o aspecto teológico, os estudos temáticos
e as discussões teóricas são mais evidentes. Na cidade
de Puna, distante algumas horas de Bombaim, há um renomeado centro
teológico em que, com competência, se analisam os livros
sagrados e são debatidas questões teológicas. Puna,
no entanto, sem o aporte da "Swarga Dwar," seria somente um
estéril lugar acadêmico. Os dois, de diferentes maneira,
podem contribuir para um frutuoso diálogo inter-religioso que tenha
como horizonte a perspectiva do Reino de Deus.
Iqbal, um brilho em Swarga Dwar
Iqbal tem 25 anos. Quando tinha três anos, os pais descobriram
que ele tinha lepra e, em lugar de levá-lo a um médico,
mantiveram-no escondido em casa, durante anos. A opção foi
fatal. Iqbal tem uma aparência física delicada e perdeu os
dedos das mãos e dos pés, corroídos pela doença.
Apesar disso, encontramos uma pessoa muito viva. Sem Iqbal, Swarga Dwar,
sem dúvida, seria um local menos acolhedor. Em seus doze anos de
permanência ali, esse jovem muçulmano a-prendeu a ler, a
escrever e a usar o computador. Fala inglês, um pouco de italiano
e continua aprendendo. "Quando eu cheguei aqui, pediram-me para trabalhar.
Pensava não poder dar conta, devido a minha situação,
mas o pe. Carlos, fundador e diretor de Swarga Dwar, ajudou-me a reagir.
Não queria usar o computador, porque pensava que minhas mãos
não iam conseguir." "Se você quebrar o computador,
compraremos outros, disse o padre. O importante é que você
faça tudo o que puder."
Aos domingos, em Swarga Dwar, todos, independentemente de sua religião,
participam ativamente da missa. Iqbal faz a leitura e entoa os cânticos
e explica: "É verdade que sou muçulmano, mas nós
também respeitamos Jesus. Afinal, o que conta é Deus, que
é um só."
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