Revista "MUNDO e MISSÃO"

Testemunhos da Vida Missionária

A vida
pelos índios

Bonito, forte, alto, alegre e extrovertido, com uma carga que inspirava confiança à primeira vista. Assim era o padre João Calleri.

Nasceu no norte da Itália, em 1934 e, depois de cinco anos de sacerdócio na sua diocese de origem, em 1963, entrou no Instituto das Missões Consolata. Três anos depois, veio para o Brasil e foi en-viado à missão de Catrimani entre os índios ianomami, em Roraima, próximo à fronteira com a Venezuela. “Quando cheguei ao Brasil, não me importava morrer – escreveu em 1966 – mas agora quero viver por amor dos índios”. Por amor aos índios viveu, mas também pelo mesmo amor morreu, aos 34 anos, em 1968.

No início de 1968, pelo seu conhecimento da realidade indígena e pela sua rica personalidade, padre João foi escolhido pelo governo brasileiro para dirigir uma expedição destinada a pacificar os índios waimiri-atroari. Desde 1961, estava em construção a rodovia BR-174, que une Manaus a Boa Vista e daí seguia até a Venezuela. Para a realização desse projeto, era preciso levar em conta os índios que se consideravam, com pleno direito, os donos da região e não queriam renunciar a seu sistema de vida. Os primeiros contatos entre índios e brancos tinham sido um autêntico fracasso e por isso tornava-se necessário organizar uma expedição pacificadora.

Padre João trabalhou com dedicação na preparação dessa expedição, que havia planejado nos mínimos detalhes. Decidiu adotar uma tática que se chamou de “acercamento indireto”: tratava-se de estabelecer um contato, em primeiro lugar, com os grupos que não estavam exasperados pela presença dos brancos, para que fossem eles que mediassem com aqueles que estavam em pé de guerra pelos problemas provocados pela construção da rodovia.

O plano pareceu demorado demais para muitos militares e mineradoras nacionais e estrangeiras, que defendiam uma confrontação armada com os índios waimiri-atroari. Eles, preocupados com o “desenvolvimento” do Estado de Roraima, não queriam parar com os trabalhos da importante via de comunicação. No final, o plano do padre Calleri, que respeitava as exigências dos índios, foi descartado e ele teve que aceitar, sob ameaças, liderar uma expedição que não era mais sua. A ela se juntou Álvaro da Silva, homem ambíguo e sem escrúpulos, bom conhecedor da floresta e ligado à missão evangélica do Amazonas.

Os membros desta missão desenvolviam uma dupla atividade: evangelização e exploração minera por conta dos Estados Unidos; eles estavam muito interessados em que uma expedição dirigida por uma sacerdote católico fracassasse. Foi o que aconteceu na floresta no dia 1.º de novembro de 1968, quando a expedição foi massacrada. Dez pessoas morreram, só Álvaro da Silva se salvou. Os índios foram acusados da chacina.

Desde aquele tempo passaram mais de trinta anos e só recentemente, pe. Sil-vano Sabatini, que teve um papel importante na organização da expedição, pôde responder a muitas questões que tinham ficado sem resposta. Depois de uma pes-quisa aprofundada, chegou à conclusão de que a expedição foi eliminada por um grupo de índios waimiri-atroari e wai wai, instigados por alguns brancos, em especial por Álvaro da Silva e um cidadão americano – Claude Lewitt, membro da missão evangélica do Amazonas. Depois do delito, os dois, sob terríveis ameaças, impuseram aos índios o mais absoluto silêncio. A BR-174 foi concluída, esmagando todos os direitos dos índios: os waimiri-atroari, que em 1968 eram cerca de três mil, em 1982 estavam reduzidos a poucas centenas.

“Dimensión Misionera”, set/ 2001

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