|
A intransigência de Júlio
José Manoel Rodrigues
O ativista dos direitos das crianças amplia sua ação
junto à infância desassistida e critica a sociedade que se
arma contra o menor infrator, carente e doente de Aids
Nem sempre, trabalhar perto de crianças pressupõe uma cara
pintada, alegria o tempo todo ou uma personalidade irreverente. A companhia
que ganha sua simpatia pode ser rebelde, mais do que elas mesmas, ter
uma flexão incisiva na fala e, para surpresa de muitos, ser de
meia idade.
Nos últimos tempos, mais adultos vêm repetindo que desistiram
de entender as crianças. Elas, ao que tudo indica, também
não fazem questão de explicar por que o feio lhes parece
bonito. É um impasse do qual - ainda bem - não saiu nenhuma
guerra até hoje.
Existe outro impasse, no entanto, que tem aprofundado o abismo entre adultos
e crianças. É o da incompreensão de que fala o padre
Júlio Lancelotti, o "intransigente querido" do perfil
acima. O jeito irascível, que seus críticos lhe atribuem,
esconde um pai protetor de pequenos abandonados pela família e
pela sociedade.
Na Febem, na rua e no lar que abriga crianças com Aids (a Casa
Vida), a amizade o aproxima dos que sentem e causam medo. O meio de ajudá-los
é transmitir o oposto: a coragem. "Eles estão mais
amedrontados do que nós", diz o padre Júlio, sacerdote
diocesano há 14 anos.
Suas crianças vivem em São Paulo, numa paisagem que não
é familiar a um rebanho. Aqui, as condições obrigam
a um pastoreio na "selva". Se a imagem como padre confunde,
a da selva confunde mais, e induz a que se meça o potencial de
violência entre as crianças. Tornaram-se tão más
assim? - perguntamos a ele. "Não, a violência é
o que a sociedade colheu do que plantou", responde Júlio.
"Ela desprezou os jovens, não soube cuidar deles, não
soube estabelecer políticas públicas adequadas!"
O compromisso de vida de Júlio coloca-o em conflito permanente
com a maneira de a sociedade tratar os jovens. No clímax desse
conflito, em maio, a resposta das autoridades a uma rebelião na
Febem, fez explodir nele a revolta: "A invasão pela Tropa
de Choque mostrou que os adultos são incompetentes para lidar com
crianças e adolescentes".
O fato marcou a "comemoração" dos 25 anos que
a entidade completou em 1999. Ao longo desse período, a Febem,
situada no bairro do Tatuapé, não conseguiu dar melhores
condições de recuperação a menores infratores.
"Em plena vigência do Estatuto da Criança e do Adolescente,
o uso da Tropa de Choque desrespeitou direitos elementares", afirma
padre Júlio.
Na entidade, ele atende os menores privados de liberdade e atua nas medidas
sócio-educativas em meio aberto.
Primeira geração
Não tão longe dali, os desafios não parecem distanciá-lo
tanto dos objetivos. No bairro da Mooca, funciona a Casa Vida, que o padre
Júlio fundou há 8 anos, para acolher crianças com
o vírus da Aids. "Estamos conseguindo dar maior sobrevida,
abrigo e melhor qualidade de vida à primeira geração
de crianças portadoras do HIV", avalia ele.
O mundo que recebeu a instalação da casa com certa indiferença
hoje trata melhor essas crianças. "A solidariedade aumentou
e um número maior de pessoas tem se envolvido com o trabalho, apesar
da desinformação e de uma discriminação dissimulada,
que ainda existe", comenta Júlio. Uma das coordenadoras do
projeto, Rosana Soares Ribeiro, lembra que o começo foi difícil:
"Havia resistência até das escolas em aceitar a matrícula
das crianças". Na luta contra o preconceito, o grupo de trabalho
formado pelo padre Júlio conseguiu se aproximar da comunidade.
"O pior que poderia acontecer seria o isolamento das crianças.
Queríamos inseri-las no mundo real, levando uma vida normal por
maiores que fossem as dificuldades", explica Rosana.
Mantida por doações de pessoas simples e de entidades, como
o Instituto Ayrton Senna, a Casa Vida atende crianças de 0 a 5
anos na unidade 1, enquanto a Casa Vida II mantém um total de 14
crianças, de 6 a 14 anos. A maioria passou antes pela Febem, deixada
por familiares que não conseguiram assumir cuidados e tratamento.
A evolução da doença é acompanhada por médicos
dos hospitais Emílio Ribas e Clínicas. Na Santa Casa, são
atendidos os casos que não têm ligação com
a Aids.
Rosana presta serviço à Casa Vida II, onde assiste de perto
o grupo de pré-adolescentes. "É uma idade difícil,
porque já aguardam a consulta no meio dos adultos. Mas são
situações de que não dá para fugir. Uma das
crianças, M. R., de 10 anos, está em estado terminal e os
amiguinhos perguntam se vão ficar como ela. É preciso dedicação
para incentivá-los e não deixar que se abatam", conta
Rosana.
O esforço dá resultado, a começar pela alegria que
existe na casa. "As crianças levam uma vida normal, vão
à escola, saem para cortar o cabelo, para passear com o pe. Júlio,
como em uma família comum", afirma Rosana. O saldo positivo
até poderia estimular pe. Júlio a pensar na maioridade da
primeira geração portadora do HIV e sonhar com essas crianças
crescidas, engajadas em suas profissões, testemunhando para a sociedade
a base solidária em que se criaram.
Coerente com o jeito bem conhecido por seus críticos e simpatizantes,
ele confessa porem o motivo por querer adiar os sonhos: "Criança
não é futuro, criança é presente".
Gesto de amor resiste à morte
O carinho das crianças em boas condições de saúde
para com aquelas em estado terminal condiz com o ambiente favorável.
Rosana conta que parte delas a iniciativa de "mimar" as colegas.
Uma das que é alvo de zelo maior é M. R. No lugar do ciúme,
vem a solidariedade: "Os amiguinhos dela incentivam os 'privilégios':
desde a liberdade de fazer manha e tomar sopa dada na boca, até
optar por comer isso ou aquilo. Sabem que ela tem a mesma doença
que eles".
O comportamento não muda nem com o medo e a tristeza que vêm
após as perdas. O amor transmitido quando estão juntos resiste
à experiência da morte, ainda que passe por ela dolorosamente.
Alguns demonstram sua mudança interior, ao confortarem outro amigo
na mesma situação, mas o gesto não deixa de ser amor
e sinal de esperança. Infância e luto não coexistem
na casa. Os novos amigos, o balanço e a saúde estão
onde é tempo de ser criança.
Nos traumas, sofrimento que insiste quando já passou o seu tempo,
vasculham só os adultos. E nesse caso, só por causa da pergunta
inoportuna do repórter, que estimula Rosana a falar de D. N, o
menino que morreu aos 11 anos.
"Ele era muito querido pelos outros que o ajudavam a montar "legos"
do que queria, quando já não tinha coordenação
motora", conta ela. Rosana diz que aprenderam muito na convivência.
"Ao mesmo tempo que era meigo, era valente, sabia o que queria: numa
das vezes em que estava muito ruim e, sabendo que ia embora, olhou bem
para o padre Júlio e disse: "Eu não vou morrer"
Naturalmente, nós os apoiamos, procuramos sempre a vida, para que
o final seja em dignidade, com o melhor medicamento, o melhor carinho,
a melhor brincadeira, a melhor limpeza. Tudo isso é vida".
QUEM QUISER AJUDAR a Casa Vida, essas grande obra de caridade e solidariedade
pode fazê-lo através das contas:
BANCO DO BRASIL - www.bancobrasil.com.br
Agência Belenzinho: 0719-6, Conta Corrente: 4661-2.
ITAÚ - www.itau.com.br/frames/index1.htm
Agência Silva Jardim:0211, Conta Corrente: 10.425-2.
CAIXA ECONÔMICA FEDERAL - www.caixa.gov.br/index.asp
Agência Belenzinho: 0241, Conta Corrente: 20048-0.
Para garantia do depósito, faça-o em nome do Centro
Social N. Sra. do Bom Parto - Casa Vida
Endereço para contato: Casa Vida: Rua Sapucaí n.º 281
-
São Paulo - SP - CEP 03170-050
|