Revista "MUNDO e MISSÃO"

Testemunhos da Vida Missionária

O guru JESUS

Luis Pinos

No dia 20 de junho faleceu pe. Luis Pinos, 80 anos, missionário do Pime, que passou mais de 50 anos em Bangladesh. Foi um grande evangelizador.

Certo dia, durante uma das minhas viagens a pé, tinha parado debaixo de uma árvore para descansar. Lá perto havia uma aldeia indígena Santal e várias pessoas saíram para me ver e me trazer uma jarra de água, para que eu bebesse. Iniciaram comigo uma conversa. Notei logo, em pé diante de todos, uma criança bonita de 5-6 anos, me olhando encantada. Perguntei-lhe: "Como te chamas?". Respondeu: "Me chamo Jesus". Fiquei pasmado: Jesus! Não é possível! "Por que este nome?", pergunto.

Jesus

O pai da criança respondeu: "Não sei. Este nome soa bem. Por isso o dei a meu filho". Continuei perguntando: "Mas o que você sabe de Jesus?". Naquele momento, pela boca dele, a Ásia não-cristã falou. Na Ásia vivem 57% da humanidade e dessa imensa multidão 97% não são cristãos, mas isso não quer dizer que nunca ouviram o nome de Jesus ou que de Jesus não saibam nada. De fato, aquele homem disse: "Ouvi dizer que Jesus é uma pessoa santa que veio do céu, pregava o amor e sarava os doentes e foi morto". Então falei a todos: "Vejam, eu sou um discípulo de Jesus. Se estão contentes, vou voltar e vou lhes contar muitas outras coisas, que talvez vocês irão gostar".

Ficaram contentes e depois de 2-3 meses voltei; mas qual não foi minha tristeza vendo que não havia mais a aldeia... só as cabanas abandonadas. As pessoas tinham ido embora seguindo sua vida nômade, levando consigo a criança que se chamava Jesus. Fiz muitas pesquisas sobre aquelas pessoas, mas nunca mais consegui saber algo delas.

No início de meu trabalho missionário, tive a sorte de ser acompanhado por um antigo catequista local. Ou melhor, era eu quem o acompanhava: era ele quem decidia aceitar o não o convite dos não cristãos de visitar suas aldeias e era ele também quem falava e pregava. Era analfabeto, mas tinha aprendido oralmente a Sagrada Escritura e o catecismo, tão bem que conseguia transmití-los aos outros de maneira extraordinária. Quando chegávamos a uma aldeia nova, ele gastava horas a fio falando de coisas do dia a dia. No início, perguntei-lhe porque não falava logo de Jesus. Apontando para mim o dedo, respondeu: "Não faça erros deste tipo! É inútil que nós falemos que Jesus é o Salvador e que a verdade do Evangelho deve ser aceita para se salvar, se o Senhor não o diz primeiro no coração deles. É verdade que eu entretenho as pessoas, mas enquanto eles riem pelas minhas brincadeiras, eu, no meu coração, choro e rezo: 'Senhor, abra o coração destas pessoas para você!'. Falo só quando alguém mostra ter sido tocado pelo Senhor". Sempre havia alguém que, a um certo momento, levantava a mão e dizia: "Fale-nos de Jesus!".

Depois da sua morte, continuei a fazer como ele agia: cem vezes houve quem me dissesse: "Fale-nos de Jesus!". E cem vezes falei de Jesus e eles aceitaram o Jesus do Evangelho, que lhes apresentei e se fizeram batizar no seu nome.

No dia 15 de cada mês tenho um encontro informativo e sem compromissos. Um dia notei um grupinho de homens nunca vistos antes. Naquele dia estava apresentando o comportamento de Jesus para com os pecadores e eles estavam muito atentos. Quando citei as palavras: "Não vim para os justos, e sim para os pecadores", o líder deles não pôde evitar uma expressão de grande satisfação e acrescentou: "Visitei os maiores santuários hindus da Índia, falei com muitos gurus (mestres hindus) e escutei pregadores muçulmanos, mas quando ouvi Jesus dizer: 'Vim para os pecadores', logo pensei: 'Este é o guru que responde às minhas exigências, porque sou um grande pecador". Convidei-o a voltar. Voltou e com ele se converteram algumas aldeias.

A Religião eterna

Dois hindus foram me procurar e, inesperadamente, me disseram: "À nossa fé nós damos o nome de Religião eterna, mas o coração nos diz que ela será realmente eterna só quando se tornar religião de Jesus". Outros cinco hindus de Bangladesh, em fuga para a Índia durante a sangrenta guerra de 1971, se abrigaram na minha casa. Falando de si mesmos, um deles disse: "Há muitos anos tenho no coração a vontade de me tornar discípulo de Jesus. Errei em esperar, porém, se a paz voltar...". No dia seguinte, durante um rastreamento, caíram nas mãos dos militares do Paquistão e foram mortos.

Na minha vida missionária tive a alegria de ver muitos hindus acolhendo Jesus e se tornando cristãos. Mas encontrei uma dificuldade: que meio encontrar para fazer aparecer o cristianismo como a continuação e o complemento da Religião eterna? Na prática, eu faço todo o possível para que a conversão não seja apresentada como uma rejeição do passado e da Religião eterna: ela consiste em aceitar de serem discípulos do guru final, Jesus. "Aceitando Jesus - digo aos hindus - vocês não renunciam a sua raça, a sua cultura, a sua maneira de viver. Vocês podem continuar a se considerar parte do mundo hindu, no qual viveram por muitas gerações".

O dualismo hindu-cristão é o que mais dilacera o convertido. Um dia, um velho me disse: "Sinto muito ter que abandonar a Religião eterna". Respondi: "Você não abandona a Religião eterna. Chama-se eterna porque você honra Deus eterno e a religião de Deus Eterno não pode acabar. Você continuará sempre a honrar Deus com a religião de seus pais, seguindo, porém, o caminho que lhe indica o guru Jesus".

Outro problema que atormenta os que se aproximam do cristianismo é bem expresso na pergunta que me dirigiu um homem: "Mas então, nossos pais se perderam?". "Não - é minha resposta - também entre seus pais havia as sementes do Verbo de Deus e a Palavra de Deus, embora de maneira parcial, chegou até eles. Alem, disso, eles eram fiéis, faziam suas práticas hinduístas para honrar a Deus e Deus os aceita e acolhe por esta sua devoção". Esta minha maneira de falar, aos poucos, é absorvida e restitui a serenidade.

Mas, no final das contas, o que vale é manifesto na admiração de um velho muçulmano ao receber uma sacola de remédios no dispensário da missão: "A tua é de verdade a religião do amor!".

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