Revista "MUNDO e MISSÃO"

Testemunhos da Vida Missionária

Contra
A "LÓGICA" do LUCRO

Antony Rogers

Para irmão Rogers dos Irmãos das Escolas Cristãs, o perigo da Malásia, que progride e enriquece, é esquecer-se dos últimos. Estes formam o ambiente onde mais trabalha a Igreja porque evangelizar é transformar o mundo.

Giorgio Licini

Antony Rogers é o diretor nacional do National Office for Human Development – Nohd, o departamento que organiza a caridade e a solidariedade da Igreja católica maláia. Em 1987, Antony foi preso e ficou dois anos nas cadeias do governo, acusado de criticá-lo, porque pedia maior transparência, democracia e justiça. A acusação foi que um comentário do irmão Rogers, ao explicar o Pai Nosso, teria atacado a corrupção e as desigualdades sociais. Desde 1989, ele é diretor do Nohd.

Irmão Antony, qual é o maior problema hoje na Malásia, considerada um dos “tigres da Ásia”?

É a emergência moral. O país se desenvolveu e enriqueceu, mas somente materialmente. Espiritualmente, empobreceu. O nosso desafio é construir uma comunidade que se interesse pelas pessoas, especialmente pelos últimos. O profeta Miquéias, nos mostra o caminho: “Isto é o que o Senhor pede: amar, agir com justiça e caminhar em humildade diante de Deus”.

Devemos responder aos desafios do individualismo, do materialismo, do secularismo. O governo quer uma sociedade completamente desenvolvida e moderna até 2002, mas que pessoas teremos naquele momento?

Palácio antigo no meio de aranha-céus

Qual é a resposta da Igreja a este desafio e qual o seu programa?

Começamos em 1955, em Ipoh no Kuala Lumpur. Naquele tempo, se desenvolveram projetos de solidariedade com a população das Novas Aldeias, criadas pelo governo para se opor à revolução comunista na China.

As ações iniciaram e se desenvolveram no contesto do Concilio e da Igreja católica post-conciliar na Malásia.

A nossa atenção estava voltada para os pobres e a promoção da justiça. Agora procuramos promover uma resposta concreta e crítica ao projeto “Visão 2002” do governo.

Qual é a “contra-visão” de vocês?

É o desenvolvimento integral do indivíduo e das pessoas, para que possam exercer livremente sua responsabilidade e dignidade de seres humanos.

Em todas as nossas intervenções, procuramos produzir uma dinâmica comunitária. Por exemplo, se realizamos algo com os imigrantes de um determinado país, queremos primeiramente que eles mesmos se reúnam, avaliem os problemas existentes e se dêem as mãos. Depois, nos os ajudamos a realizar os pedidos e as reivindicações deles, até diante das administrações governamentais.

Vocês têm canais particulares de contato com outros setores de ajuda social?

Catedral de Saint John em Kuala Lumpur

Em primeiro lugar, damos muita importância ao contesto inter-religioso no qual nos encontramos.

Tentamos, isto é, de falar, de escutar e ser entendidos por todos e não somente pelos cristãos.

Damos muita importância também à preservação e revitalização do ambiente, cuidando das diferentes sensibilidades do homem e da mulher.

Do ponto de vista pastoral, o que inspira vocês?

É a new way of being Church, ou seja, a nova maneira de ser Igreja, elaborada pelos católicos na Malásia, após o Concilio Ecumênico, a partir especialmente de 1983.

Não podemos, de fato, falar de uma nova evangelização sem o compromisso de transformar o mundo e construir o Reino de Deus no mundo da globalização. Da Igreja-organização é necessário passar à Igreja-comunidade. É na comunidade que acontece a mudança de vida.

Mas as comunidades de base ou as pequenas comunidades cristãs encontram dificuldades de se firmarem no contesto urbano...

Porque acredita-se que as comunidades pequenas devem ser territoriais, enquanto podem ter muitas outras formas. Até a Conferência Episcopal pode constituir-se em pequena comunidade assim como os advogados católicos, os homens de negócios, qualquer um que tenha afinidade de qualquer tipo que permita o começo de uma dinâmica comum de fé, de vida e conversão.

Quais programas de intervenção vocês realizam?

O Nohb é o centro de coordenação e de animação de todos os organismos e grupos membros da Igreja que desenvolvem atividades sociais na Malásia. As iniciativas se agrupam em cinco itens principais: trabalhadores urbanos e rurais com especial atenção aos sem-moradia, imigrantes, grupos indígenas, crianças, tóxico-dependentes e aidéticos.

Quais atividades merecem uma nota particular?

Temos muitos favelados na cidade, devido também às demolições que o governo faz por conta de planos de desenvolvimento ou novas construções. Para essa gente, o governo tem projetos de casas populares, mas, como sempre acontece, esquece os seus compromissos com eles. Os sem-moradia, portanto, devem se organizar, se informar a respeito dos procedimentos legais e ser incentivados a se unirem pelo bem comum.

E para os imigrantes?

Estudantes muçulmanas

Os novos imigrantes são quase dois milhões; em sua maioria, ilegais. Os filipinos, por exemplo, são uns 600 mil, mas somente 80 mil têm documentos em ordem. Um imigrante clandestino custa menos ao seu patrão que um imigrante regular. No caso dos imigrantes, como nos outros setores, as nossas atividades são diferenciadas: formação espiritual, assistência legal, atividades sociais, culturais, visitas a essas comunidades, coordenação com os consulados e embaixadas.

E sobre os usuários das drogas e dos aidéticos?

As duas realidades estão estritamente ligadas entre si porque aqui, na Malásia, 77% dos aidéticos são também usuários de drogas. Em 1999, foram registrados quase 33 mil casos, mas parece que se registra somente um caso a cada cinco. Isso, na realidade, faria subir o número para mais ou menos 150 mil. Sabemos que a raiz do problema não é somente médica, mas também social e espiritual.

Precisamos, portanto, concentrar a atenção nos “comportamentos” e não somente nos grupos sociais. Pouco se faz contra a droga e somente 10 mil pessoas encontram, nos centros sociais, reeducação contra a tóxico-dependência. Foi constatado que, uma vez fora desses centros, mais de 20% voltam novamente para a droga. Nós temos centros de primeira acolhida e também de reabilitação, nas três dioceses da Malásia.

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