Revista "MUNDO e MISSÃO"

Testemunhos da Vida Missionária

Pe. Luís Canal é um dos tantos missionários fidei donum que trabalham no Brasil. A expressão latina significa “dom da fé” e refere-se a uma encíclica de Pio XII (21 de abril de 1957) que convidava os padres diocesanos a lançarem-se na aventura missionária na África e na América Latina. Luís é italiano, da diocese de Belluno-Feltre, e vive no Brasil desde 1973. Neste relato, ele revela a trajetória de vida e a espiritualidade que norteou seu caminho por quase trinta anos de presença missionária em nosso país

Minha vida missionária pode ser resumida em três etapas.

A etapa da eficiência

A primeira pode ser chamada a fase da eficiência e do fazer. Viemos ao Brasil nos anos 70, no seio dos movimentos de libertação dos pobres. Havia, de um lado, os opressores e, do outro, os oprimidos. O suporte era a Teologia da Libertação que, a partir do êxodo e do Jesus histórico, nos impulsionava para a mudança social. Privilegiava-se o engajamento militante. Promovia-se a conscientização e a transformação. O padre, como eu o encarava, era mais um agente social do que um mensageiro da fé. Lembro-me de que uma vez, voltado para a Itália de férias, alguém me disse: “Então, para você, 1º de Maio é mais importante do que a Páscoa”. Não queria ajudas da Itália e menosprezava qualquer colaboração financeira. A oração era identificada com a ação, uma ação decidida por mim e não vista a partir de Quem que me enviava. Os sacramentos eram suportados; a Liturgia, com freqüência, instrumentalizada.


Pe. Luís Canal à esquerda com Pe. Vito Groppelli

Tenho a impressão de que o problema era mesmo de fé...

Etapa do discernimento

A segunda etapa corresponde, mais ou menos, ao final dos anos 80. A queda do muro de Berlim, a fragilidade da proposta sandinista e a arrogância do projeto neo-liberal globalizante com a exclusão de grandes massas de pobres tornaram mais frágieis as nossas cer-tezas. O projeto alternativo murchou. Tínhamos a impressão de que os po-bres não eram capazes de nos enten-der.

Começamos a nos interrogar sobre a qualidade das coisas que fazíamos e a escutar mais estas massas sobrantes que não têm valor nenhum como agentes de mudança. A ideologia, ferida na sua auto-suficiência, começou a ceder o passo para o discernimento da fé. A pessoa humana começou a ser considerada antes de qualquer tipo de organização. Refletimos sobre o sentido da “eficiência-eficácia”. A fecundidade começou a ser percebida não como fruto de nossa eficiência, mas como obra do Espírito de Deus nas pessoas.

Começamos a descobrir outras páginas do Evangelho, aquelas que, por um tempo, tinham sido esquecidas. O encontro de Jesus com as pessoas (Zaqueu, Samaritana, as crianças) e seu contato pessoal motivaram nossas perspectivas. Em alguns casos, foi importante perceber como os pobres do Evangelho conseguiram levar Jesus a dar um novo rumo à sua missão (a cananéia, Bartimeu...). Sobretudo o capítulo primeiro da Primeira Epístola aos Coríntios foi muito refletido e rezado: Deus se revela na fraqueza.

Nesse período, estava em Alagoas, experimentando a impotência frente à violenta organização de um sistema dominador e explorador sem limites, onde os pobres escutavam o meu discurso de justiça, mas logo aplicavam a filosofia da sobrevivência.

Comecei a perceber, nas pessoas “que não contam”, frutos que eu não contabilizava na economia dos resultados (por exemplo, gestos de solidariedade, de entrega, de confiança). Agradeci ao Pai, com Jesus: “Eu te louvo, ó Pai, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as reve-lastes aos pequeninos” (Lc 10,21).

A etapa do “ser”

A terceira etapa da minha vida missionária pode ser resumida na expressão: “O ser vale mais do que o fazer”. Deus confundiu os sábios. Tivemos que alargar os horizontes. Nossos projetos e uma suposta clareza ideológica desembocaram numa consciência mais profunda sobre o que significa evangelizar. Os pobres continuaram resistindo, mesmo massacrados. Nas pequenas iniciativas de resistência está incluído um projeto alternativo que, antes, não conseguíamos enxergar. Uma nova criação está contida no gemido dos oprimidos.

Isso exigiu um caminho de conversão: começar a passar de “mestres” a “discípulos” dos pobres. É o mesmo Jesus que indica o caminho. Voluntariamente, renuncia aos seus atributos divinos para assumir a existência de servo e carrega sobre si a nossa miséria humana para nos reconduzir ao Pai. É importante renunciar a qualquer notariedade para nos tornarmos irmãos dos pobres e recomeçar de Belém. Não basta “fazer para os pobres”. É preciso ser como os pobres e viver com eles para representar o “Pobre” que nos faz ricos com sua pobreza (2 Cor 8,9). Não mais uma pobreza sociológica, estratégica, mas uma pobreza sacramental.

Jesus já nos tinha falado que precisamos de “odres novos para o vinho novo” (Mc 2,22), ou seja, não basta reformarmos as nossas ações. É preciso renovar nosso ser para apontar para a nova criação. Em termos ministeriais, não basta um ministério funcional, por eficiente e generoso que seja. É preciso um ministério de configuração a Jesus Cristo, na sua forma existencial. Jesus mostra que não há oposição entre o pequeno (micro) e o que transforma as estruturas (macro). Aliás, quem despreza o micro, acaba perdendo também o macro.

Novas imagens para a espiritualidade

“Ser discípulo sempre e em tudo, para poder ser mestre de alguma coisa”. O menino engraxate na Rodoviária de Campina Grande ofereceu-se para limpar os meus sapatos. Como eu não levantei os olhos do jornal, disse-me: “Puxa! o senhor nem olha para mim, heim!?”. Nunca pude esquecer esta ferroada evangélica. A atenção às pessoas pode me salvar de ser uma máquina. Amar as pessoas é diferente que se apegar a projetos. Aprendi que é mais anti-evangélica a frieza em defesa da própria integridade do que o risco da entrega por amor! As CEBs têm sido o espaço privilegiado em que vivemos esta experiência. Dona Éster me disse um dia: “Agora que o senhor nos explicou os quatro evangelhos, vamos ter que escrever o nosso com a nossa vida nesta comunidade.”

Um romeiro missionário popular me disse: “Nós, pobres, somos de poucas letras, mas a gente escreve também com os pés. Só que para ler esta escrita, precisa conhecer os chãos da vida e das estradas duras. É preciso curtir o couro dos pés. Pezinho de pele fina demais não deixa quase nada escrito nos caminhos da vida”. Não poderia celebrar o banquete da Palavra e do Pão sem antes sair pelos caminhos e encruzilhadas dos pobres excluídos. Senti a necessidade de ser mais honesto com o Evangelho. Os pobres ensinaram-me como se deve ler e viver o Evangelho, sem reducionis-mos e ideologias.

O profeta Elias precisou passar através de furacões, terremotos, incêndios e perseguições, precisou de uma gruta solitária e de uma brisa leve para encontrar-se com a face de Deus. Experimentei tudo isso de perto: a ternura de Deus que acaricia as feridas dos pobres... e as minhas, longe do barulho. Para isso, foi preciso um ano sabático, de deserto. Um mês de parada, repetido várias vezes ao longo de trinta anos de ministério missionário. A oração de Moisés (Ex 32,34) tornou-se a minha: “Senhor, este povo é teu! Então, porquanto seja de cabeça dura, toma Tu a frente desta caminhada, se quiser que eu colabore...”

Senti que é necessário ser pobre e humilde sempre, sem buscar reconhecimentos. Somente assim somos sinceramente servidores de um povo.

 

UMA SANTA PARA O BRASIL

Enfim, após 502 anos de história e depois de um processo burocrático analisado pela Igreja durante longos 36 anos, tudo indica que teremos uma santa no Brasil: Madre Paulina, em breve, estará ganhando altares em igrejas do mundo inteiro.

No dia 26 de fevereiro de 2002, João Paulo II anunciou as datas em que vários candidatos à santidade serão oficialmente reconhecidos. E Paulina do Coração Agonizante, Santa Madre Paulina, que já tinha sido beatificada numa cerimônia oficiada pelo próprio papa, em Florianópolis, em 18 de outubro de 1991, está entre eles.

QUEM É MADRE PAULINA?

A primeira santa do Brasil de fato não é brasileira. Amabile Lucia Visintainer nasceu em Vigolo Vattaro, na Itália, em 16 de dezembro de 1865. Em 1875, quando a jovem Amabile tinha 10 anos, seus pais emigraram para o Brasil. Junto com outros imigrantes, chegaram à Santa Catarina e foram batizando as terras daqui com os nomes das terras que haviam deixado para trás. E assim nasciam povoados chamados Nova Trento, Vigolo...

E foi em Vigolo, uma minúscula aldeia catarinense, que a jovem Amabile, junto com uma amiga, Virginia Rosa Nicolodi, deu início à obra que depois ficaria conhecida como Congregação das Irmãzinhas da Imaculada Conceição.

QUE MILACRES ELA JÁ FEZ?

Entre as muitas graças recebidas por intercessão de Madre Paulina, uma das mais importantes para o processo de beatificação foi a cura de Eluiza Rosa de Souza, uma mulher que tinha um sério problema de hemorragia uterina. Outro caso importante para a causa da santificação foi a cura da menina Bruna, que ficou livre de um tumor “do tamanho de uma laranja”, em 1992, segundo consta do processo, quando era ainda recém-nascida.

Fonte: Árvore da Vida

 

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