Revista "MUNDO e MISSÃO"

Testemunhos da Vida Missionária

Um mártir de hoje

por Costanzo Donegana

le passou 13 anos nas prisões comunistas do Vietnã, continuando uma tradição de família: entre 1698 e 1885, seus antepassados paternos sofreram muitas perseguições. Seu bisavô contava-lhe que, na idade de 15 anos, fazia 30 quilômetros a pé para levar arroz e sal ao pai, encarcerado pela fé católica. Ele é o cardeal Francisco Xavier Nguyen Van Thuan, falecido no dia 16 de setembro deste ano.

Nascido em 1928, em 1967 foi nomeado bispo de Nha Trang e, no início de 1975, coadjutor de Saigon. Poucos meses depois, os comunistas conquistaram Saigon, acusaram-no de participar de um "complô entre o Vaticano e os imperialistas" e prenderam-no no dia 15 de agosto de 1975, festa da Assunção de Maria. Tinha só a roupa de corpo e o terço no bolso. Mas, dois meses depois, já começou a escrever mensagens da prisão à sua família e à comunidade cristã, sobre pedacinhos de papel que uma criança lhe trazia às escondidas.

Durante os primeiros anos, passou de uma prisão para a outra, até que foi relegado a um isolamento total por nove anos com dois guardas só para ele. Viveu essa dura realidade, "preenchendo-a de amor", como ele mesmo se expressou. Não tinha Bíblia consigo, então escreveu mais de 300 frases do Evangelho que lembrava de cor. Cada dia, às três horas da tarde (a hora da morte de Jesus na cruz) rezava a Missa. O altar era a mão, na qual colocava algumas migalhas de pão, três gotas de vinho e uma de água.


Cardeal Francisco Xavier Nguyen Van Thuan

Cantava a Missa em latim, francês e vietnamita. No início da prisão, as autoridades haviam-lhe permitido de escrever uma carta à família, para que pudesse pedir as coisas mais necessárias. Entre outras, pediu um remédio para digerir. Os familiares entenderam o que ele realmente queria e lhe enviaram uma garrafinha de vinho de missa com a etiqueta "Remédio contra o mal de estômago". Guardava as migalhas de pão consagrado em pacotes de cigarros.

Ele testemunhou: "Quando estava na prisão, o sistema nervoso estava um pouco desgastado e, às vezes, não conseguia rezar. Então, por fim, peguei um tema só: viver o testamento de Jesus. E viver o testamento de Jesus é um assunto imenso para mim, que nunca se esgota. Então pensei: vivo o testamento de Jesus, sendo como Jesus a cada momento, cada minuto da vida para ser santo".

Traduziu isso sobretudo no amor ao próximo, na pessoa de seus carcereiros. Tratava-os com bondade, sorria-lhes, falava de suas viagens, explicava como vivem as pessoas no exterior, falava de economia, de liberdade, de tecnologia. Isso estimulou a curiosidade deles até o ponto de quererem aprender línguas estrangeiras. Foram eles que o ajudaram a confeccionar uma pequena cruz de madeira e uma corrente de ferro para carregá-la no pescoço. Daquela cruz ele nunca mais se separou e foi sua cruz de cardeal.

Foi libertado em 21 de novembro de 1988, festa da apresentação de Maria ao templo. Ele havia pedido a Nossa Senhora de sair da prisão num dia de uma festa dela. Em 1994, foi chamado a Roma por João Paulo II que o nomeou vice-presidente do Pontifício Conselho Justiça e Paz, do qual, em 1998, foi eleito presidente. Em 2001, foi nomeado cardeal.

Ao iniciar o retiro espiritual ao papa e à Cúria Romana no ano de 2000, ele afirmou: "Eu, Francisco, servo de Jesus Cristo, o menor entre os sucessores dos Apóstolos, não acredito que conheça muitas coisas em comparação aos senhores, exceto Jesus Cristo crucificado".

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