Revista "MUNDO e MISSÃO"
Testemunhos da Vida Missionária
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Médico de 43 milhões de doentes Micheal Lapsley Pastor neozelandês que vive na África do Sul, o autor foi um dos mais atuantes inimigos do apartheid, o sistema de segregação racial que imperou no país durante quase todo o século 20. Por seu trabalho, pagou um preço muito alto. Hoje dirige uma entidade de defesa dos direitos humanos, na Cidade do Cabo Um tempo bom para começar a recordar é 1990, dez anos atrás, quando recebi uma carta-bomba que me foi enviada pelo governo de De Klerk, o último presidente branco da África do Sul. Foi justamente três meses depois que Nelson Mandela havia sido libertado e eu penso que foi o último grande ato de cinismo desse regime porque ele, que se considerava cristão, escolheu para matar um pastor exatamente o método de colocar uma bomba dentro das páginas de duas revistas religiosas. Foi quando abri uma dessas revistas que a bomba explodiu. Perdi as mãos, um olho, meus tímpanos foram danificados e tive vários outros problemas que carrego até hoje. Por motivos que os médicos não entendem, não morri. Aliás, nem perdi os sentidos. Por isso lembro de tudo. Lembro, claro, da dor e, muito mais, da presença de Deus ao meu lado, naquele momento. Depois - Nos três meses que seguiram à explosão,
eu me senti tão indefeso quanto um recém-nascido. Não
conseguia fazer nada sozinho e cheguei a pensar que ter morrido teria
sido um ganho para mim. Isso porque tinha dúvidas de que a vida
fosse realmente vida, quando uma pessoa se encontra em condições
como aquelas. Faltavam-me modelos nos quais pudesse me inspirar, não
conhecia nenhuma outra pessoa sem mãos. Por isso não sabia
como a vida podia ser de novo vida para mim. Em todo caso, esses pensamentos
me acompanharam por um período relativamente curto. O Por isso, quando em 1990 recebi aquela carta-bomba, foi como se cada pessoa que eu tinha encontrado nos 14 anos anteriores estivesse sendo questionada em sua fé em Deus. Devo dizer que recebi inúmeras mensagens de oração, amor, encorajamento e força. Sempre digo que, quando eu morrer, não precisarei de homenagens póstumas. Vocês sabem que é no enterro que se costuma dizer todas as coisas boas que uma pessoa fez. Aliás, eu recomendo isso. Só que acredito que nós não iremos ouvi-las no dia do enterro. Então prefiro que me digam estas coisas agora, enquanto estou ainda vivo. Foram todas aquelas orações, o amor que me demonstraram, esta força que vem do povo pelo mundo afora, gente de fé e também gente que diz não ter fé alguma, gente de boa vontade, que para mim representaram a força que me levantou e o veículo que Deus usou para que eu pudesse renascer. Foi vida que veio da morte, bem que veio do mal. Hoje posso dizer que perdi muito, perdi as mãos - e sempre sentirei falta delas - mas também ganhei muito, muito mais do que consegui nesta longa caminhada que tenho percorrido. Hoje sou um ser humano melhor do que era, por conta da experiência que fiz. Sei que isso foi possível por causa da oração, do amor e da força que as pessoas me transmitiram. Atividade - Depois de ficar seis meses internado no hospital, quando sai, apresentei-me ao bispo, dizendo: "Estou aqui". Ele me olhou meio constrangido e disse-me: "Bom, você agora tem limitações bastante fortes. O que pode fazer"? Aí eu respondi: "Bem, padre, eu posso dirigir carro". Ele levou um susto, mas logo acrescentei: "Posso ser mais pastor sem mãos do que quando tinha duas". Foi assim que voltei à África do Sul, primeiro, em visita em 1991 e, depois, para ficar definitivamente em 1992. O que me impressionou foi o estrago que o apartheid provocou dentro de todos nós. Estragou nosso lado humano, o que fizemos, o que os outros nos fizeram, o que deixamos de fazer, o que podíamos ter feito, estragou tudo. Cada um de nós, individualmente e como nação, temos uma história para contar sobre os anos do apartheid. Tenho claro para mim que, nos próximos cem anos, nós, como nação, teremos que lutar para construir um tipo diferente de sociedade que consiga dar água, eletricidade, educação e saúde a todo o nosso povo. Essa é uma tarefa que ultrapassa as gerações. Mas há também outra tarefa tão grande quanto esta, que se refere à maneira com a qual lidamos com o apartheid e que mexeu profundamente com cada um de nós. É preciso reconstruir o que foi destruído. Em 1993 tornei-me capelão de um centro que cuida dos traumas das vítimas de violência e tortura. Trabalhei cinco anos por lá. Às vezes, perguntavam quantas pessoas tinha no centro e eu respondia que eram 43 milhões. Dizia isso porque acho que todo o nosso país está doente. Sim, somos uma nação de sobreviventes e, por causa daquilo que nos fizeram, por causa daquilo que fizemos e sofremos, precisamos de um tempo ainda muito longo para podermos contar nossas histórias e aprendermos a lidar de novo com o passado, o presente e o futuro de nossas vidas. Perdão - Perguntam-me freqüentemente se eu perdôo a quem mandou a bomba. Tenho pensado muito nisso e acho que ainda estamos longe de nos reconciliar. Para que haja perdão, é necessário que alguém chegue e diga: "Fui eu, me desculpe". Até hoje ninguém ainda fez isso comigo. Bem, mas imaginemos que hoje à noite chegue alguém à porta da minha casa e me diga: "Eu sou aquele que mandou a bomba, você me perdoa?". Eu teria uma pergunta inicial a lhe fazer: " Você ainda fabrica cartas-bomba?". Imaginemos que ele diga: "Não, hoje trabalho no hospital local". Aí eu seria muito feliz de dizer para ele: "Sim, é claro, eu perdôo e prefiro mil vezes que durante os próximos cinqüenta anos você continue trabalhando no hospital do que fique apodrecendo dentro de uma cadeia". Mas eu poderia também dizer para ele, enquanto tomamos o nosso chá: "Olha, meu amigo, hoje não tenho mãos, tenho um olho só. Você não pode me dar de volta o olho e nem as mãos. Mas você pode me ajudar a pagar alguém que tome conta de mim". Parece-me que não seria uma forma de punição ou vingança, mas apenas uma maneira de tornar o perdão e a reconciliação concretos, dentro daquilo que é possível. |
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