Revista "MUNDO e MISSÃO"

Testemunhos da Vida Missionária


Os altos índices demográficos na Índia contribuem para a manutenção da pobreza

Oito jovens, de ambos os sexos, após uma adequada preparação com o Pime em Milão, quiseram dedicar suas férias de verão à Índia, ajudando as irmãs da caridade de Madre Tereza.
Transcrevemos a carta de Simone Mori, uma das participantes, que conta os seus medos iniciais, suas angústias diante do tamanho do sofrimento humano e o que aprendeu nessa doação aos pobres

Parto para Calcutá. Não sei bem o que me espera e as poucas informações que tenho são fruto de leituras de livros de turismo e da biografia de Madre Tereza de Calcutá. Somos oito e nos encontramos no Pime de Milão, para nos prepararmos para a aventura.

No começo, foi um verdadeiro pesadelo. O calor massacrante, a umidade insuportável, a poluição, os urubus que voam a um centímetro de sua cabeça, os cachorros vadios e sempre famintos, o esgoto a céu aberto, a sujeira e o lixo amontoado em todos os cantos, a monção que, a cada dez minutos, descarregava a sua fúria impetuosa. Porém, o que mais importa são as centenas de milhares de pessoas que vivem nas calçadas, que da estrada fizeram as suas casas e do lixo sua principal fonte de sustento.

Não consigo acreditar no que vejo. Tudo é caos, desordem, pobreza, uma pobreza que não tem limite e que reproduz uma contínua pobreza. Sinto uma recusa interior por tudo o que me rodeia, sinto-me completamente impotente e a única coisa que consigo dizer é: por quê? E aí me pergunto o que vim fazer aqui. É possível que toda a minha determinação e segurança, ao partir de casa, desapareceram num só instante? Não foram cinco anos de preparação e de espera para este momento? Digo a mim mesma que errei tudo e pensei em voltar para casa o mais depressa possível, aliás, imediatamente.

Em seguida, conheço as irmãs de Madre Tereza, as missionárias da caridade. Os indianos as estimam muito e têm por elas um profundo sentimento de gratidão. Aí me convenço que não se pode ficar indiferente, porque a fé, a felicidade, a força e a doçura que delas emanam, desarmam qualquer um.

Aconselhada pelo irmão Pascal e pelas irmãs, começo meu trabalho em Daja Dan, uma das casas de acolhida para crianças menores abandonadas e deficientes físicas. As tarefas são as de sempre e simples: dar-lhes banho, comida, vesti-las e ajudá-las a fazer exercícios de recuperação física. As irmãs são ótimas professoras e me ensinam como ajudar as crianças defeituosas. Para as crianças, eu me torno aunty, ou seja, tia.

Passam-se alguns dias e descubro, no fim da primeira semana, que o medo e a incerteza inicial tinham desaparecido. Decidi me dedicar também na parte da tarde. Além disso, as irmãs, o irmão Pascal prestam este serviço todos os dias, anos a fio, razão pela qual eu também posso fazer. A saúde agüenta bem, já estou quase acostumada (aos urubus, ao cheiro e ao calor, ainda não sei se vou me acostumar).

Por três ou quatro tardes, vou a Nirmal Hriday em Kalighat. É “a casa do moribundo”, a primeira fundada por Madre Tereza. As pessoas que agonizam nas calçadas e são recusadas pelos hospitais, porque não têm como pagar, são recolhidas pelas irmãs e pelos voluntários que as trazem aqui para ter um mínimo de assistência. Muitas delas morrem depois de pouco tempo de permanência, por outras causas, como câncer, pneumonia, tuberculose, infecções e desnutrição. Outras conseguem se salvar e são liberadas. E é grande a alegria ao vê-las sair com as próprias pernas.

Lições de humildade

Aqui aprendo a fazer pequenos curativos com a supervisão dos médicos e a dizer algumas palavras em bengalês. A grande lição de humildade que recebo, nas duas casas e também nas ruas da cidade, leva-me a me questionar o tempo todo.

As barreiras, que mais ou menos eu tinha erguido entre mim e eles, estão caindo devagar. Sinto que estou descobrindo a beleza de suas vidas e que tenho tanto para aprender. Percebo, pouco a pouco, que eu estou recebendo muito mais deles, e fico admirada pela liberdade que eles têm de amar os outros. A generosidade deles em dar-se me deixa assombrada. Nada possuem, mas conseguem dividir o que têm com os outros. Os seus olhos falam por si mesmos, seus rostos transmitem felicidade, serenidade, paz.

Assim entendo o que Madre Tereza repetia continuamente: “Não grandes coisas, mas pequenos gestos feitos com amor, com muito amor”. Nestes lugares, percebo que se vive esta grande verdade: amar indistintamente, livremente, simplesmente, no mesmo modo como Cristo nos amou e nos ama!

Muito a levar para casa

Chegou a hora de voltar para casa. A mala não está muito pesada. Lá estão algumas lembrancinhas para meus pais e os amigos. Mas o que está rico é o meu coração, que nunca poderá esquecer as mãos, os sorrisos, as vozes, os gestos, o modo deles de ser e de viver. Considero-me afortunada, porque levo muitas experiências positivas: entendi como deverá ser a minha vida no futuro, aquilo que um dia ensinarei aos meus filhos.

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