Revista "MUNDO e MISSÃO"

Testemunhos da Vida Missionária

Com os filhos do LIXO NUCLEAR

Stefania Sulzbach

Na Rússia, um jovem missionário brasileiro trabalha num centro educativo com crianças órfãs e adolescentes, vítimas de irradiação nuclear. O desafio é testemunhar o Evangelho lidando com uns dos grandes problemas do país

No pensamento de São João Calabria, fundador da congregação dos Pobres Servos da Divina Providência, o missionário deve estar presente nos lugares "onde, humanamente, não há nada a se esperar", ir e partilhar a fé, o amor, com gratuidade, pois "o mundo todo é de Deus".

Luis Carlos Morawski decidiu fazer desses princípios, pilares para a sua própria vida. Ele é um jovem padre muito animado que, há três anos, trabalha como missionário na Rússia. Gaúcho de Erechim (RS), Luis Carlos faz parte da congregação de Dom Calábria que tem sua sede brasileira em Porto Alegre.

A última vez que regressou ao Brasil foi em janeiro deste ano para uma breve visita à mãe doente. Depois, voltou logo para a missão. A mãe de padre Luis Carlos faleceu no dia 18 de março, sem que o filho pudesse estar presente ao enterro.

De descendência polonesa, este missionário foi enviado ao leste europeu, logo depois de sua ordenação sacerdotal, junto com dois companheiros, um argentino, padre Gustavo Lissa e um italiano, padre Martino Zanni que dedicou vários anos de sua missão no Brasil.

Adaptação - Luis Carlos precisou de todo o espírito pioneiro de um missionário, e também de uma boa dose de otimismo e de bom humor para se adaptar à nova situação. "Seis meses de neve ao ano, com temperaturas bem abaixo de zero, não é mole para um brasileiro", comenta divertido.

Mas a coisa que o deixou mais chocado é o ambiente religioso e cultural pós-comunista e cristão-ortodoxo, extremamente diferente. Sair de um Brasil católico, onde as igrejas são muito freqüentadas e as comunidades cristãs são muito vivas, onde as pastorais animam a vida do povo e a religiosidade popular chama muito a atenção, e entrar num mundo onde tudo isso é totalmente estranho, não foi nada fácil. "Passamos diversos meses vendo não mais de 4, 5 pessoas na missa dominical". Ele acrescenta: "Depois nos organizamos um pouco melhor e chamamos alguns estrangeiros e um pessoal das embaixadas para ter um pouco de povo na igreja!".

A missão na Rússia se realiza num contexto onde a Igreja católica é quase considerada uma seita, uma minoria entre as minorias.

Vítimas nucleares - Padre Luis Carlos e os dois companheiros foram para a Rússia para dar vida a um centro de assistência a crianças necessitadas e promover a educação e formação profissional das mesmas.

O Centro Rodniciok é um complexo habitacional com aproximadamente 6.000 m² que se encontra a 25 km do anel de Moscou. "Antigamente, essa estrutura era usada para as férias de verão dos jovens comunistas. Hoje, após ser restaurada, corresponde ao novo desafio social e cultural da Rússia", explica.

O centro comunitário acolhe principalmente grupos de crianças provenientes das regiões prejudicadas pelas irradiações nucleares dos Montes Urais. "Estes grupos permanecem por um mês recebendo noções básicas de formação, educação e saúde", conta o missionário gaúcho.

Um segundo objetivo do centro é dar assistência direta a crianças abandonadas, que são acolhidas em pequenos grupos, com um estilo particular de vida, para que sejam reinseridas na sociedade.

Enfim, são realizados também cursos profissionalizantes para adolescentes, visando à entrada dos mesmos no mercado de trabalho.

"Rodniciok é a casa onde crianças órfãs ou abandonadas podem encontrar o aconchego, o calor familiar, essenciais para o seu crescimento como pessoa", diz o sacerdote.

Reabilitação e educação - As crianças provenientes de regiões expostas às radiações nucleares necessitam de cuidados especiais. Este trabalho envolve mais de 120 meninos e meninas todos os anos, em torno de 10 professores e seus assistentes. As crianças chegam em grupos de 25 a 30. Elas recebem boa comida, tratamento médico apropriado. Participam ainda de outras atividades, como jogos, estudos, cursos de informática, trabalhos domésticos, que promovem um crescimento saudável e um clima de desenvolvimento familiar essencial para a infância.

"Um dos mais interessantes aspectos é o entusiasmo dos professores que vêm dos orfanatos estaduais", explica padre Luis Carlos. "A integração entre funcionários do Centro e dos orfanatos ajuda a criar oportunidades de enriquecimento em muitos aspectos no âmbito mental e educacional".

Desta maneira, a reeducação dos professores acontece e os métodos de educação tornam-se um modelo de experiência que persiste durante e após a sua estada.

Família - Uma característica do Centro é formar grupos de crianças com uma professora e uma assistente para assim recriar uma atmosfera familiar.

As crianças freqüentam regularmente escolas estaduais, assim continuam integradas às mais normais atividades sociais, e o Centro transforma-se num verdadeiro lar para elas, um lugar onde é possível estabelecer relacionamentos e experiências normais de vida.

O futuro - A finalidade do Centro consiste na educação de jovens e crianças sem família e no conseqüente retorno das mesmas à sociedade. "Com certeza, este último aspecto é o mais difícil de nosso processo educativo", afirma padre Luis Carlos.

Em virtude dessa necessidade, o Centro proporciona pequenos cursos como, por exemplo, informática, corte e costura e cultura de vegetais. Outros cursos ainda devem ser implantados: eletricidade e trabalhos em madeira.

"Tentamos oferecer confiança a essas crianças e adolescentes. Nelas colocamos toda nossa esperança", diz o missionário. "São João Calábria diria que 'elas são os nossos mestres', porque serão os futuros mestres de nossa humanidade."

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