|
Um patriarca da Igreja africana
Antônio Molina
O primeiro cristão de Burkina Fasso caminha para a beatificação
Tive a sorte de conhecer o patriarca Dii Simon-Alfredo Diban Ki-Zerbo,
entre 1973 e 75, quando dirigia, em Tionkuy, o Centro de Formação
de Catequistas, cada vez que me deslocava à veterana missão
de Toma, da qual ele foi um dos fundadores. Já com mais de 90 anos,
achava forças para subir cada dia a colina da paróquia para
participar da Eucaristia. Aos domingos, ficava após a missa na
esplanada da igreja, falando publicamente aos fiéis que saíam.
Com sua túnica e barba branca, parecia um profeta do Antigo Testamento.
Escravo
Seu primeiro biógrafo foi o filho, o conhecido historiador Joseph
Ki-Zerbo, autor, entre outras obras, de uma "História Geral
da África", traduzida em várias línguas.
Diban Ki-Zerbo, ainda jovem, foi raptado por bandidos e vendido como escravo
no atual Mali. Tentou escapar várias vezes; na última, passou
todo um dia escondido na água. Durante a noite, conseguiu sair,
chegando no dia seguinte a um mercado, onde encontrou um missionário
de Nossa Senhora da África, que se dirigia a Segu e o acompanhou.
Ao entrar na igreja da missão, viu a estátua de Nossa Senhora
e exclamou: "Padre, esta senhora branca me apareceu ontem à
noite!". Ficou na missão, aprendeu a trabalhar como pedreiro
e cozinheiro, enquanto freqüentava o longo catecumenato que, naquela
época, durava ao menos quatro anos. Em 1900, recebeu o batismo
e, pouco depois, se casou.
Diban Ki-Zerbo retornou a seu país como colaborador dos missionários
e intérprete, pois falava três línguas africanas e
estava se familiarizando com o francês. Na fundação
das missões de início do século XX, ele era um autêntico
"homem-orquestra": pedreiro, cozinheiro, catequista nas horas
livres e pai de família numerosa.
Em 1913, levou os missionários de Nossa Senhora da África
a sua terra natal, Toma. Ali; em 1916, organizou a defesa da missão,
durante as revoltas que ensangüentaram aquelas regiões do
Alto Volta (atual Burkina Fasso). Durante mais de 60 anos, foi catequista,
orientando o longo catecumenato dos adultos, em especial dos anciãos.
Nos momentos livres, visitava os enfermos e moribundos, preparando-os
para o encontro com o sacerdote. Ao se deslocar de um lugar para outro,
sempre ia rezando a Maria, com o terço na mão.
Na cadeira papal
No Ano Santo de 1975, seu filho, Joseph Ki-Zerbo, conseguiu que o pai,
já centenário, fizesse parte da peregrinação
nacional que foi a Roma e Lourdes. Dii Alfred participou da audiência
geral do papa na Basílica de São Pedro, mas no dia seguinte,
foi recebido por Paulo VI junto com o cardeal Zoungrana, arcebispo de
Uagadugu. O pontífice concedeu-lhe a medalha da Ordem Eqüestre
de São Silvestre e, ao ouvir o relato de sua vida, num daqueles
gestos típicos que rompiam o protocolo, levantou-se de sua cadeira
e fez sentar-se nela o nosso patriarca.
Ao regressar de Roma, ele dizia que seu encontro com o papa "tinha
robustecido e confirmado sua fé católica". Com freqüência,
repetia a seus colegas catequistas e aos fiéis em geral: "Convencei-vos
de que nós, católicos, estamos seguindo o caminho da salvação,
que conduz até Deus".
Alfredo Diban Ki-Zerbo faleceu em 10 de maio de 1980, com 105 anos, durante
a visita de João Paulo II a Burkina Fasso. Ao ser informado de
que o primeiro cristão do país estava agonizando, o papa
lhe enviou o cardeal Gantin com sua bênção apostólica
e lhe ofereceu um terço.
A lembrança que Dii Alfred deixou em todos foi a de sua simplicidade
e da profundeza solidez de sua fé, junto com sua ação
de homem de Deus a serviço de seus irmãos, em particular
os doentes e os idosos. Poderíamos resumir sua vida com as palavras
do Evangelho: "Passou fazendo o bem" e "fez bem todas as
coisas".
Em 1995, a pedido de todos os bispos do país, iniciou-se na diocese
de Nuna-Dedugu, cujo bispo, dom Zeferino Toé, é natural
de Toma, o processo diocesano de beatificação, que já
foi transferido para Roma, à Congregação para as
Causas dos Santos. Neste ano 2000, a Igreja de Burkina Fasso celebra seu
centenário; só falta que Deus conceda um milagre, por intercessão
do servo de Deus Simon-Alfred Diban Ki-Zerbo, para que o primeiro cristão
do país chegue à honra dos altares. Assim ele poderia se
tornar o padroeiro dos catequistas da África.
Evangelizar a lógica do mundo
Dom Anselme Sanon, bispo de Bobo Dioulasso - Burkina Fasso
Entre as características da Igreja de Burkina Fasso que mais impressionam
atualmente, há o aumento do número dos batizados em comparação
com o dos agentes de pastoral. Em segundo lugar, existe o problema do
pessoal apostólico e sua utilização inteligente.
De um lado, temos mais de 2000 catequistas que representam uma potência
considerável. Do outro lado, observamos um aumento das vocações,
seja masculinas como femininas; mas estes religiosos exercem realmente
seu papel na comunidade? A terceira característica - ou questionamento
- diz respeito à qualidade de vida cristã em relação
ao compromisso na sociedade: qual é a irradiação
de nossas comunidades na vida econômica, social e cultural?
Neste âmbito está se criando uma consciência nova.
Nós não somos simples consumidores daquilo que a sociedade
produz; podemos também formar a comunidade humana. Temos um bom
número de profissionais cristãos muito apreciados em sua
especialização, mas, no momento de tomar as decisões,
onde está o cristão? São as idéias que governam
o mundo. Queremos nos deixar dominar pela lógica da economia de
mercado, da produção e da concorrência desenfreadas?
Ou queremos um desenvolvimento com um rosto humano? Para isso é
necessário evangelizar a lógica do mundo.
Traduzido de Vivant Univers
|