Revista "MUNDO e MISSÃO"

Testemunhos da Vida Missionária

Apaixonado

PELA VIDA

Cláudio Vezzaro


Claudio Vezzaro

Aos 16 anos, um jovem como tantos outros, apaixonado pela vida, sofre um acidente que poderia dar um encaminhamento trágico à sua vida. Mas, conhecendo a experiência de um missionário na Tailândia, tudo muda... para melhor.

Foi no dia 6 de novembro de 1976: por causa de um acidente automobilístico, fiquei entre a vida e a morte. Fiquei alguns meses em coma e, ao despertar, percebi que minhas pernas estavam paralisadas. Para mim, tudo estava acabado: corrida, futebol, caminhadas... a vida... eu era um ser inútil.

Nos primeiros tempos, o desespero e o desânimo tomaram conta de mim, mas pela minha fé, entendi que não podia me entregar ao desespero. Apesar da tristíssima situação em que me encontrava, a vida podia ter um sentido, embora não soubesse onde e como.

Consegui estudar e me formar em contabilidade. Durante os anos de estudos, freqüentei comunidades de paraplégicos, mas não estava completamente satisfeito. Estava procurando algo mais e não queria ser considerado um deficiente, incapaz de ter uma vida normal na sociedade. Fiquei muito tempo sem saber o que fazer, até que, em abril 1989, conheci padre Ângelo Campagnoli, missionário do Pime na Tailândia, e desse encontro nasceu em mim o desejo de conhecer outras realidades.

Em dezembro do 1990, visitei pe. Ângelo, na sua missão de Phrae, Tailândia. No começo, achei o país um verdadeiro paraíso terrestre, devido ao sorriso estampado no rosto das pessoas, felizes e sadias. Mas o trabalho de pe. Ângelo mostrou-me a realidade cultural daquele país. Para os tailandeses, o importante é mostrar-se contente, feliz, mostrar o que se tem de melhor, sorrir também quando se está triste e esconder tudo o que é negativo na vida, especialmente os doentes, os idosos e os deficientes físicos. De fato, eu via poucos deficientes físicos pelas ruas, porque estavam escondidos pelas famílias para não prejudicarem a sua imagem social. Além do mais, na cultura budista, o deficiente físico é uma vergonha, uma desgraça, alguém rejeitado pelos espíritos.


o autor, já sem as muletas, com sua família

E foi lá que comecei a me perguntar se eu, como deficiente físico, podia fazer algo pelos doentes daquele país de cultura e tradição tão diferentes e se aquela viagem turística não seria um sinal da Providencia para mim.

Voltei à Tailândia, em 1991, para visitar as missões do Pime e pensando, mais concre-tamente, no meu propósito de encontrar e fazer algo por eles. Nessa visita, encontrei uma moça, Deng, que trabalhava na escola católica de Phrae e, hoje, é minha esposa e mãe da nossa filha Sonia.

No começo, a diferença de língua e de cultura foi um obstáculo, mas os sentimentos e os ideais comuns ajudaram a mim e a Deng.

Em dezembro de 1992, entrei para a Associação dos Leigos do Pime (ALP); fiz um curso de formação e comecei também a participar de encontros de estudo para planificar o projeto que chamei de Saint Joseph Center, um centro para deficientes físicos que permitisse aos deficientes, em primeiro lugar, todas as possibilidades de recuperação física, além de uma formação escolar e profissional. Formei, então, um primeiro grupo de apoio entre os meus amigos e, nesse período, encontrei uma leiga do ALP, Mirca Munaretto, que, além de se mostrar muito entusiasmada pelo o projeto, se dispôs a dar cinco anos de sua vida para me ajudar na Tailândia.

O São Joseph Center já não era so-mente um sonho, mas uma realidade pronta a ser implantada na Tailândia.

No dia 26 de julho de 1995, retornei à Tailândia onde comecei o estudo da língua e iniciei a documentação necessária para obter os financiamentos de entidades internacionais; em dezembro, casei com Deng, cujo nome de batismo é Tuanjai Sutirach Margarida. Além de dedicada esposa, é também uma companheira de compromissos e realizações entre os deficientes físicos.


pe. Ângelo Campagnoli com suas crianças

Os financiamentos e as ajudas vinham dos muitos amigos e benfeitores, e o projeto foi assumido pela Conferência Episcopal Italiana.

Com essas ajudas e confiança em Deus, iniciamos a construção do Saint Joseph Center.

Descobrimos, porém, que os deficientes eram muito mais dos que pensávamos e assim começaram a aparecer os que as famílias escondiam.

A maior parte dos deficientes físicos são frutos de tentativas de aborto e da falta de informação das mães que, no tempo da gravidez, tomaram remédios nocivos ao feto.

Depois de ter comprado um terreno, começamos a construir as primeiras estruturas, isto é, os espaços de acolhida e casas para facilitar aos doentes a reabilitação, as enfermarias e os serviços gerais. Estava começando um lar para eles poderem redescobrir a mesma felicidade de viver que eu tinha. Além dessa parte dedicada principalmente à saúde e à recuperação necessária aos assistidos, o Centro foi se enriquecendo de outras estruturas, como a escola de alfabetização para maiores de 12 anos, reconhecida pelo Secretaria da Educação da província de Phrae, a escola profissional de eletrônica, com o intuito de reinserir os deficientes físicos na sociedade tailandesa, por meio de uma profissão qualificada e bem remunerada, para que pudessem assim ter uma autonomia social e familiar.

A escola de alfabetização do Centro já recebeu prêmios de eficiência do Ministério da Educação como a melhor escola para a educação de deficientes: isso foi muito significativo porque demonstra que as autoridades escolares e civis deram-se conta da importância que o Centro tem para os doentes. Aliás, o convite das autoridades educacionais era para ampliar esse tipo de trabalho em outros lugares, mas a falta de recursos humanos e econômicos requerem um pouco mais de tempo.


menina com trajes típicos

A Mirca implantou um fábrica de doces, para que os alunos diversificassem o aprendizado profissional; em seguida, veio a escola de alfaiataria.

Os deficientes, adultos e jovens, são hospedados nas unidades residenciais construídas especialmente para facilitar-lhes a recuperação e as atividades, enquanto a Mirca, com o auxílio de uma equipe de fisioterapeutas e assistentes sociais, inicia o serviço de recuperação em domicílio.

Neste ano de 2001, damos assistência, no Centro e nas casas, a 344 pessoas, mas poderíamos ampliar mais a nossa obra de recuperação, se tivéssemos mais ajuda econômica e de pessoas e pudéssemos descobrir ainda os numerosos doentes segregados pelas próprias famílias.

Aquele sonho que eu tinha, após ter saído do coma, agora é uma realidade concreta e ainda tenho outros para o futuro, que pretendo realizar com a ajuda dos amigos que quiserem colaborar. A vida é um dom e posso dizer, com profunda convicção, que o cêntuplo prometido no Evangelho, podemos recebê-lo já nessa terra, quando nos doamos a um grande ideal.

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