Revista "MUNDO e MISSÃO"
Testemunhos da Vida Missionária
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O preço da solidariedade Osvaldo C. Valente No ano 2000, 17 missionários foram mortos
no continente africano. Padres, irmãs e leigos que quiseram levar
a solidariedade aos pobres até às últimas conseqüências.
Quatro indivíduos esperaram-no na estrada que leva de Mutoyi a Bujumbura, no Burundi. Colocaram uma barreira na pista, para obrigá-lo a parar. Quando Antônio chegou, um dos quatro aproximou-se e atirou-lhe à queima-roupa. Os assassinos ainda tiraram o corpo do carro, roubaram as sandálias e o relógio e fugiram com o automóvel. Quando, alguns minutos mais tarde, outro carro chegou ao local, já era tarde demais: o corpo de Antônio estava sem vida. Era a manhã de 3 de outubro de 2000. Poderia ser apenas uma das tantas crônicas policiais, se Antônio não fosse um missionário que tinha adotado aquele lugar apenas para viver o ideal da solidariedade com os pobres. Tinha 43 anos e pertencia a uma associação religiosa da diocese de Milão, na Itália, chamada de "Amigos dos Pobres". Estava no Burundi há 20 anos, em Buterere, um povoado ao norte de Bujumbura, trabalhando num projeto de solidariedade chamado Buterere II. Já conhecia muito bem o país e particularmente aquela região. Sabia também dos riscos que corria, mas em momento algum pensou em desistir de sua opção de ficar ao lado dos pobres. CASA DE TODOS - Uma semana antes de morrer, escreveu: "Estou aqui há nove anos, neste bairro da periferia de Bujumbura, tentando sempre partilhar a vida dos pobres da cidade. Com outro irmão burundinês, vivo em uma pequena casa, no número 31 da vigésima avenida, a última do bairro. Temos muitos vizinhos, nos entendemos muito bem e nos ajudamos uns aos outros. Não é que façamos muito por eles, no sentido de satisfazer suas necessidades, mas compartilhamos suas dores e alegrias, os momentos de medo e de angústia e tudo isso nos une muito e faz cair as barreiras que existem entre brancos e negros, entre uma religião e outra. Sou apenas um morador de Buterere, que pega água no mesmo chafariz onde todo mundo pega e que foge junto com os outros, quando se escutam tiros durante a noite. Esta presença me permite chegar perto de qualquer um. Os jovens vêm a nossa casa e temos com eles um relacionamento pessoal onde a confiança é recíproca. Podemos ajudar no difícil caminhar cotidiano e abrir os olhos para os problemas mais graves, como a AIDS, os princípios morais, etc. A nossa casa chegam mulheres pobres, maltratadas por seus maridos embriagados, ou uma mãe que chora a perda de seu filho. Sabem que podem se abrir e ser compreendidas. Não é fácil ir visitar o ancião e o enfermo e levar-lhe um sorriso, mas, na medida do possível, procuramos fazê-lo, inclusive oferecendo uma ajuda concreta aos que não têm nada para comer". É o espírito dos Amigos dos Pobres que se propõem a estar perto, partilhar, colocar-se no mesmo lugar, caminhar junto. O ideal é imitar Jesus de Nazaré. Antônio acabou fazendo-o até na parte mais difícil, o derramamento do sangue. Às vezes, é esse o preço da solidariedade. |
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