Revista "MUNDO e MISSÃO"

Testemunhos da Vida Missionária

Seqüestrado pelos homens, mas também por Deus

Luciano Benedetti

Pe. Luciano Benedetti, do P.I.M.E., missionário nas Filipinas, foi seqüestrado por um grupo de guerrilheiros muçulmanos e permaneceu em poder deles, durante 68 dias

Na noite de 8 de setembro p.p. um grupo de 25-30 guerrilheiros muçulmanos, desligados dos movimentos islâmicos de libertação das Filipinas, assaltou a fazenda Santo Niño, uma cooperativa iniciada pelos missionários em 1990, roubou o que pode e levou como refém o padre Luciano Benedetti, do P.I.M.E., que estava dormindo ali, não muito longe de sua missão em Sibuco. O seqüestro durou 68 dias, com freqüentes deslocamentos no meio da selva, para fugir às buscas organizadas pelo exército. Durante todo esse tempo, o padre foi mantido sempre ao ar livre e recebeu alimentação insuficiente. O superior do P.I.M.E. nas Filipinas recebeu pedidos para o pagamento do resgate: uma quantia equivalente a 300 mil reais. Nada foi pago. O Instituto declarou logo que seguiria a linha adotada pela Igreja filipina nos precedentes casos de seqüestro de religiosos: nenhum pagamento aos seqüestradores. No dia 15 de novembro, o cativeiro acabou, graças também à intercessão da Frente Islâmica de Libertação Moro (Milf).
Padre Luciano encontra-se, atualmente, na Itália, junto a seus familiares, para um período de merecido descanso. Neste artigo, ele fala de sua experiência.

Carrego comigo a lembrança de ter olhado a morte de frente. Vivi na incerteza, na dúvida, na precariedade absoluta. Não sabia o que me esperava no dia seguinte. Não cheguei, contudo, a ter medo: vivendo há muito tempo em Mindanao, estava preparado para essa possibilidade.
Alguém me perguntou se cheguei a perdoar os meus seqüestradores. Minha reação foi imediata: "Perdoá-los? Para perdoar alguém, é preciso antes tê-lo odiado. Eu nunca cheguei a tanto. Em lugar de inimigos, tentei ver neles homens como eu, descobrir seus sentimentos, entender por que estavam fazendo aquilo. Nesse caso, não é preciso perdoar. Basta compreender." Tentei entender o que havia neles, entrar em sua mentalidade, fazer-lhes perguntas. Eles entenderam minha atitude "positiva" a seu respeito. Eram pessoas muito simples, diferentes de mim só na fé. Eram as armas que criavam distância entre nós: nisso há uma grande responsabilidade de quem vende armas para o Terceiro Mundo. Depois de dois meses de vida em comum, entre nós havia surgido uma sensibilidade particular, quase que uma amizade: eu conseguia perceber seus sentimentos, as preocupações com suas famílias. Hoje, eles continuam naquela triste situação de pobreza, ao passo que eu estou aqui, na tranqüilidade. Poderia denunciá-los, mas não tenho nenhuma intenção de fazê-lo.
Cheguei a pensar o que significou esse seqüestro em minha vida. Cheguei à conclusão de que me senti seqüestrado não somente pelos homens, mas por Deus também. Através dessa experiência, ele me arrancou da minha vida normal e me colocou numa situação de isolamento do mundo, das pessoas, da minha religião. Tive tanto tempo para repensar minha vida e meu relacionamento com Deus. Olhando para eles, muçulmanos, que rezavam três vezes ao dia com a metralhadora ao lado, eu me perguntava freqüentemente de que lado estava Deus: do meu lado, do lado deles ou dos dois lados? Essas perguntas pesavam na minha consciência. Eu tinha o conforto da oração, especialmente de noite, quando me sentia mais livre interiormente. Os missionários, quase sempre, tomados pelo fervor das atividades, deixam de lado o aspecto contemplativo. Essa experiência foi para mim um estímulo, uma chamada de Deus para dar mais espaço à oração e ao meu relacionamento pessoal com Deus. Deus para mim era um companheiro no cativeiro, um amigo com quem falava. Conseguia achar momentos, não longos, mas intensos, em que tinha a sensação de que entrava em contato com ele.
Alguém me perguntou se nunca me arrependi de minha opção pela vida missionária. A resposta é: nunca. Quando, pela primeira vez, senti um impulso forte para partir, tinha 25 anos e era desenhista num escritório de engenharia. Tinha certeza de que aquela não era a minha vida. Quando consegui partir, depois da ordenação sacerdotal, aos 33 anos, tinha conhecimento dos riscos que iria encontrar. A experiência do seqüestro ajudou-me a aprofundar meu relacionamento com os muçulmanos. Na ilha de Mindanao, eles constituem uma parte considerável da população e são bem mais numerosos do que no resto do país. Acho que meu estilo de missão não irá mudar no futuro. Há duas diferentes maneiras de fazer missão: a tradicional, que visa a entrar em contato com o povo, de qualquer tipo: cristãos, muçulmanos, tribais e a mais moderna que quer intervir na realidade socio-econômica, mesmo com o risco de criar conflitos. Sempre procurei dar importância aos dois aspectos e continuarei fazendo-o: é preciso compreender a cultura do lugar, avaliar as forças existentes e depois agir.
Acho importante realçar o diálogo nos países onde há uma presença cristã e uma presença muçulmana. É preciso vencer a desconfiança que existe entre ambas as partes. Os problemas nascem de uma recíproca ignorância. Nas Filipinas, já se iniciou o diálogo entre os bispos e os ulamas (chefes muçulmanos, ndr): é o único jeito para que as duas religiões possam conviver pacificamente. É um desafio para a Igreja do terceiro milênio."

Os muçulmanos nas Filipinas

As Filipinas são o segundo maior arquipélago do mundo, com 7107 ilhas. É o país da Ásia onde a porcentagem de católicos é a maior de todo o continente: 80%.
A ilha de Mindanao, no sul, foi povoada durante séculos por muçulmanos. Eles, que sempre foram maioria na ilha, tornaram-se minoria, a partir do começo deste século, por causa de uma imigração maciça de pessoas vindas do norte, de origem cristã, estimuladas antes pelos americanos, que foram os últimos colonizadores e, em seguida , pelo próprio governo de Manila. Esses cristãos sempre foram vistos, pelos muçulmanos, como exploradores e invasores de suas terras. As duas comunidades convivem, mas não colaboram. Toleram-se, sem ter nenhuma simpatia uma pela outra.
Essa situação deu início a movimentos de independência. Surgiram assim, em 1971, a Frente Moro de Libertação Nacional ((Mnlf) e a Frente Islâmica de Libertação Moro (Milf) que iniciaram uma luta de guerrilha contra o governo de Manila.
Em 1996, após longas conversações, a Mnlf concluiu um acordo com o governo que reconheceu a autonomia de administrativa de 14 províncias de Min-danao em troca da renúncia à violência e da deposição das armas.
A Milf também iniciou o diálogo para um acordo, que não chegou ainda a bom termo. Os seqüestradores de padre Benedetti não pertenciam a nenhum dos dois movimentos e a Milf, tendo intercedido com sucesso junto a eles pela libertação do padre, mostrou assim seu peso militar e político diante do governo e da opinião pública nacional e internacional.

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