Revista "MUNDO e MISSÃO"

Testemunhos da Vida Missionária

Tudo serve para a missão

Ermanno Battisti

Pe. Ermanno Battisti

Pe. Ermanno Battisti conta como, por um acaso, surgiu sua vocação missionária e acabou na Guiné Bissau, para formar e desenvolver nos guineenses a vocação de artista

 

 

 

Escultura de Pe. Ermanno Battisti

Nasci em San Giovanni, uma pequena cidade no extremo norte da Itália. Era uma manhã do inverno do 1937, com um frio tão intenso que, no dia seguinte, quando fui levado à pia batismal, foi preciso derreter o gelo da água. O meu nome de batismo é Ermanno, que na língua local da região onde nasci, queria dizer “guerreiro”, mas acho que os meus pais não acertaram comigo. Em todo caso, o nome ficou.

Com dois anos, fui levado à igreja paroquial. Lá havia uma linda Senhora com um menino nos braços, de pé sobre um altar lateral, com a qual minha mãe iniciou – assim eu achava – uma conversa. Mais tarde, soube que, em lugar de um diálogo, foi um monólogo de minha mãe que me confessou que se resumia numa oferta a Nossa Senhora: “Se quiser, Nossa Senhora, pode tomar este meu filho, ele é seu; eu lhe dou um presente”. Pelo que me consta, a oferta foi aceita.

Apareciam irmãos lá em casa e eu nem sabia direito de onde vinham todos eles, mas o ambiente era extraordinariamente maravilhoso. Todas as noites, nossos pais nos ensinavam a rezar e, a mim em particular, minha mãe ensinou uma curta oração para eu rezar, quando passasse diante dos grandes crucifixos que – como é uso nas montanhas – estavam plantados nas encruzilhadas. Hoje, dificilmente encontram-se nas estradas esses grandes crucifixos, mas a oração não a esqueci.

Uma das pessoas que mais me impressionaram durante a minha adolescência foi o meu vigário. Homem de fé, sem mancha, austero, porém humano.

Um erro providencial

A primeira comunhão me marcou em profundidade e, vez ou outra, contemplo a amarelada fotografia do nosso grupo. Entre os meus companheiros, todos com roupas novas, lá estava eu com roupa que não correspondia às minhas medidas, porque emprestada. A minha família era pobre e não podia se permitir um luxo extra... mas o meu pensamento estava bem longe.

Nos anos da minha adolescência, gostava de esculpir estatuetas de madeira para o presépio: coisas muito infantis, mas aprendi uma arte que, depois, se revelou muito importante na minha vida.

Um dia, que foi determinante na minha existência, encontrei um missionário, nosso parente, que, antes de voltar para as Filipinas, veio nos visitar. Não entendia bem a conversa de meus pais com ele, mas pensei... pensei... e Deus indicou o meu caminho.

Detalhe do púlpito da igreja do Cristo Redentor, de Ermanno Battisti

Nos anos seguintes, continuei a minha busca e reflexão sobre o meu futuro, ajudado pelos padres salesianos no colégio que eu freqüentava, mas a minha vocação já estava praticamente decidida: queria ser missionário num instituto exclusivamente missionário.

Porém, errei de instituto. Naquele tempo, estava lendo um livro sobre o instituto dos missionários xaverianos que, como o Pime, também era das “missões estrangeiras”, e no mesmo período, um amigo sacerdote do Pime tinha me passado o endereço do seu instituto. Daí nasceu uma confusão na minha cabeça: crente de chegar a um instituto, acabei caindo num outro.

Assim, num quente dia de setembro de 1954, com 17 anos, embarquei num trem para Milão, arrastando uma pesada mala com minhas coisas. Chegando ao Pime, imaginem a minha surpresa quando perguntei se estava em Parma no instituto xaveriano e me responderam que estava em Milão, na casa mãe do Pime. Depois da minha surpresa e talvez porque a mala estava pesada demais e não tinha muita vontade de enfrentar mais uma viagem de trem, fiquei por aí e assim começou a minha aventura no Pime. Hoje, sou o reitor dessa mesma casa, onde começou toda essa confusão.

Faria tudo de novo

Cursei os nove anos de seminário; em 1956, fui ordenado padre e, depois de alguns anos de trabalho numa revista missionária do Pime para adolescentes, fui destinado para a missão da Guiné Bissau, África, em 1970. Gostei muito, porque a África era um pouco o meu sonho e de tantos outros colegas missionários. A Guiné era um país pobre que vivia perigosamente a guerra de independência, mas eu fui e lá fiquei 27 anos que passaram depressa.

O Centro Artístico Juvenil

O Centro Artístico Juvenil, fundado por pe. Ermanno, também
artista, merece um destaque particular, porque marca o início do caminho de uma arte tradicional para uma mais elaborada, sem trair os valores culturais das tribos da Guiné Bissau.

A atividade principal é a escultura em madeira, matéria-prima abundante naquele país, ensinada aos jovens que realizam imagens tradicionais da própria cultura.

Reconhecido pelo governo como a mais genuína e original manifestação da identidade e cultura do povo, o Centro representa o país em outros centros culturais do mundo. A escola, além da formação artística, visa também a uma formação global do aluno, ajudando-o a superar as divisões lingüísticas, étnicas e religiosas, através da convivência.

O primeiro trabalho foi no seminário diocesano de Bissau, onde, ainda hoje, se formam sacerdotes para a Guiné Bissau; uma igreja paroquial dedicada a Cristo Redentor, cheia de estátuas do Centro Artístico Juvenil, e todas as outras obras sociais que todo missionário realiza para minimizar a pobreza. Fico muito alegre ao saber que esses centros sociais são dirigidos por médicos que foram meus alunos.

Lembram da minha brincadeira de esculpir estátuas? Bom, isso foi muito importante para mim, porque depois de ter-me aperfeiçoado durante os anos no seminário teológico em Milão, fundei, na Guiné, um Centro Artístico Juvenil para dar trabalho a tantos jovens que vinham a Bissau para estudar, mas não tinham dinheiro para se manter na cidade. Aquelas brincadeiras de esculpir as estatuetas foram muito úteis.

Quando falo das “minhas” obras, fico sempre com escrúpulo porque, de fato, nelas, pouco existe de meu... Em todos esses anos de vida missionária, num país tão diferente do meu, preocupei-me muito com as pessoas, as crianças, os jovens, os doentes, sem preconceitos contra ninguém, nem os mais simples nem as autoridades do governo. Eu era apenas um caminhante que Deus tinha posto entre outros caminhantes desta terra. Outra preocupação, fundamental para todos os missionários, era também o anúncio explícito do Senhor Jesus e do seu Evangelho, o único que podia transformar os homens que o aceitam. E assim, no fim dessa reflexão, não me pergunto por que Deus me escolheu. Somente agradeço e, se pudesse, recomeçaria tudo e faria, de novo e sempre, o mesmo caminho.

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