Revista "MUNDO e MISSÃO"
Testemunhos da Vida Missionária
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GREGOIRE, uma luz no túnel da loucura Roberto Casadei Leigo, africano, pai de seis filhos, "missionário" em tempo integral entre os doentes mentais, marginalizados e rejeitados de Bouaké, Costa do Marfim: é Gregoire Ahoungbonon. Esta é a história de um cristão exemplar Camiseta esporte, jeans lavado e passado, o ar sério de quem foi incumbido de uma missão importante, o jovem Jean nos acolhe, dizendo que Gregoire acabou de sair, mas voltará logo e nos receberá. Ninguém diria que esse moço passou seis anos na floresta amarrado a um tronco, exposto ao sol e à chuva, isolado de todo mundo porque a família não sabia como curar a doença mental que o acometera. Um dia, Gregoire passou por ali e convenceu os pais a entregar-lhe Jean. Dentro de um ano, estava curado. Faz seis anos que a Associação São Camilo, fundada por Gregoire, realiza esse trabalho, libertando doentes mentais que, às centenas, se encontram amarrados a árvores pelos parentes, e restituindo-lhes liberdade e saúde. Eis a entrevista que Gregoire nos concedeu. M.M.: Quais as finalidades da Associação São Camilo? Greg.: Tentamos ajudar os presos, os meninos de rua, os doentes internados em hospitais, mas, especialmente, estamos cuidando dos doentes mentais. Agora, estamos construindo até um hospital, porque nos hospitais africanos quem é internado deve pagar tudo e quem não tem dinheiro não pode ser atendido. M.M.: Ultimamente, vocês se especializaram no atendimento aos doentes mentais. Greg.: É verdade. Nós começamos atendendo aos doentes mentais, depois eles também acabam colaborando conosco. Por exemplo, estamos preparando comida para certos presos (mulheres, menores, anciãos e doentes, isto é, para os mais fracos entre os presos), pois a comida servida nas prisões é uma verdadeira calamidade. Quem prepara a comida para os presos são os doentes mentais. M.M.: Por que estão fazendo esse serviço? Greg.: Porque todos aqueles que vivem em necessidades representam para nós Jesus Cristo sofredor. Começamos a intervir em favor dos que se encontravam internados nos hospitais, depois passamos às prisões e, por fim, chegamos aos doentes mentais que se tornaram os nossos prediletos, pois são pessoas esquecidas por todo mundo. M.M.: Encontraram muitas dificuldades? Greg.: Muitas dificuldades, enormes até. Houve momentos que me achei à beira do suicídio. Mas sempre encontrei conforto na leitura da Palavra de Deus. Fiquei sabendo que Jó tinha tudo e tudo perdeu e que assim mesmo continuou a falar de Deus, dizendo: "É Deus quem deu, é Deus quem tirou". Vi na Bíblia que a Virgem Maria, a quem o anjo tinha dito: "Tu serás a mãe do Salvador", aceitou tudo o que depois lhe aconteceu. Ela, que tinha o projeto de formar uma família, viu que esse iria sofrer mudanças; mal tinha dado seu "sim", esteve a ponto de ser apedrejada porque José queria mandá-la embora em segredo; ela que era a mãe de Deus não encontrou um lugar onde seu filho pudesse nascer e, recém-nascido, teve que levá-lo para o Egito. Quando vi todas essas dificuldades por que essas pessoas passaram, me convenci de que a melhor maneira de enfrentar as dificuldades é referir-se à palavra de Deus: ele sempre virá em seu socorro. M.M.: Qual a relação entre ação e oração em sua obra? Greg.: A oração ocupa um lugar muito importante em minha vida. Toda manhã eu e minha família levamos para casa alguns doentes e começamos a rezar com eles. Depois da oração, vou à igreja receber a Eucaristia, antes de começar a trabalhar. Embora esse trabalho de ajudar os pobres já seja uma oração, acho que não é suficiente. Sempre peço às pessoas que nos ajudem, rezando por nós. M.M.: O senhor é pai de família, tem mulher e filhos. Como é possível conciliar a vida familiar com uma dedicação tão intensa às pessoas necessitadas? Greg.: É o que todo mundo me pergunta. É verdade: tenho seis filhos e uma mulher que atualmente vive longe de mim, no Benin. Ela está criando os últimos quatro filhos; eu vivo com os dois mais velhos. A melhor maneira de servir a Deus através dos pobres e dos doentes é chegar a esquecer-se de si mesmo. Deus quis me associar a ele nesta missão e preparou direitinho as coisas. Hoje, minha mulher entendeu que esse trabalho não é meu, meus filhos entenderam isso também e me deixaram total liberdade de realizá-lo. Hoje, eu consagro todo meu tempo aos doentes; minha mulher faz o possível para alimentar os filhos com seu pequeno comércio e eu faço o possível para levar-lhe o que posso para pagar pelo menos a escola deles, mas é preciso reconhecer que Deus preparou o terreno para mim: minha mulher e meus filhos entenderam e, sempre que podem, vêm me ajudar. M.M.: Como é que vocês conseguem cuidar de todas essas pessoas? Greg.: Um médico vem, visita os doentes e prescreve os remédios. Mas, os doentes, os mentais inclusive, necessitam de algo mais do que de remédios. Eles perderam a confiança: para eles a vida não tem mais sentido. Eles dizem a si mesmos: "Todos que têm uma doença mental são marginalizados, a doença nunca sara", e por isso perderam toda esperança. Para eles é indispensável achar de novo a confiança e redescobrir a própria dignidade. Eu ouço dizer freqüentemente: "Os doentes mentais são perigosos". Eu digo: "Nós somos mais perigosos que os doentes mentais, somos perigosos para eles". M.M.: Alguns médicos me confirmaram que muitos doentes de fato ficaram curados... Greg.: É verdade. Está vendo o Jean? Era um marginalizado, que esperava somente a libertação da morte. Hoje, ele está estudando. Muitos doentes formaram uma família, outros construíram uma casa e vivem como os demais. O que deve mudar é a nossa atitude em relação aos doentes. Antes, os que ficavam doentes perdiam a esperança porque viam que os outros mudavam suas atitudes em relação a eles. É verdade que o doente mental pode ter suas recaídas, mas isso acontece também com as demais doenças. Todos que têm um doente mental em sua família devem entender que, através do filho ou irmão doente, é Cristo que entrou em sua casa para visitá-los. Se não conseguirmos ter um olhar diferente para com os pobres, os doentes, os abandonados, os fracos deste mundo, seremos sempre perdedores. M.M.: De quantos doentes conseguiram cuidar em seu centro? Greg.: Em 1999, tivemos 1044 doentes: 416 foram reintegrados em suas famílias, os outros estão em nossos centros. Começamos essa atividade em 1994 e, desde então, reintegramos em suas famílias mais de 1500 doentes. Mas muitos desejam ficar conosco e cuidar de seus irmãos, mesmo depois de curados. São aqueles que trabalham em nossos centros, que preparam as refeições para doentes e presos, que trabalham na farmácia e na portaria do hospital. M.M.: Quem financia tudo isso num país pobre como a Costa do Marfim? Greg.: Vocês podem não acreditar, mas vivemos exclusivamente da providência de Deus. Se esses doentes são os privilegiados de Deus, os prediletos do Reino, Deus vai nos ajudar a tomar conta deles. Existem amigos e conhecidos que espontaneamente nos ajudam. Nenhuma organização nos garante uma contribuição fixa todo fim de mês ou fim de ano. Todo dia chega alguém que traz alguma coisa que, pelo menos, é suficiente para alimentar os nossos doentes. É a Providência que nos ajuda. |
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