Revista "MUNDO e MISSÃO"

Testemunhos da Vida Missionária

 

Pedro Miskalo

Maria Aparecida Beruski, a tia “Tita”, jovem professora de uma escola rural, prepara a merenda para seus 13 aluninhos. De repente, o botijão de gás se transforma em lança-chamas que, rodopiando, incendeia tudo na pequena sala de madeira. A professora joga, pela janela basculante, as cinco crianças menores. As demais não passam. É tudo muito rápido. Nos escombros, a um canto, os braços carbonizados de “Tita” abraçam os demais corpos, igualmente carbonizados. Joaquim Távora, no norte do Paraná, chora. É 4 de abril de 1986. O trágico acidente deu oportunidade a que Mundo e Missão conhecesse e entrevistasse, em Joaquim Távora, dom Jeremias Ferens, eparca da Igreja ortodoxa ucraniana na América do Sul e postulador da causa de canonização de Maria Aparecida Beruski como a primeira santa ortodoxa nascida no Brasil.

 

senhor é um eparca, ou seja, um provincial da Igreja ortodoxa em nosso país. Queremos conhecê-lo melhor..

Pertenço à quarta geração de descendentes de ucranianos nascidos no Brasil. Estudei, inicialmente, em um seminário da Igreja ucraniana católica. Toda a formação teológica se deu, porém, no seminário ortodoxo de Santa Sofia, em Nova Jersey, nos Estados Unidos.

Fui ordenado sacerdote em 1989, na catedral de São Valdomiro Magno, em Nova Iorque, e o então metropolita, Mstyslaw Skrypryk, enviou-me de volta ao Brasil e me empossou como pároco da catedral ortodoxa ucraniana em Curitiba. Exerci o sacerdócio também em Papanduba, SC., minha terra natal e onde se encontra a primeira igreja ortodoxa ucraniana, oficialmente registrada no Brasil.

Em setembro de 1993, durante o VI Concílio eparquial da Igreja Ortodoxa Ucraniana na América do Sul, fui sagrado bispo, em Curitiba, pelas mãos de dom Constantino, metropolita Primaz da Igreja ortodoxa ucraniana nos Estados Unidos e Diáspora, pelas mãos de dom Antonio – arcebispo de Nova Iorque e pelas mãos de dom Paisius – bispo emérito da Igreja ortodoxa ucraniana na América do Sul. Desde então, tornei-me eparca da Igreja ortodoxa ucraniana para a América do Sul. Além dos ucranianos brasileiros, há também muitos descendentes de ucranianos no Paraguai e na Argentina.

Como é sua atuação pastoral?

Assumi a eparquia com a preocupação de desenvolver um trabalho bem pastoral, um trabalho de arrebanhamento dos fiéis. Paróquias foram reavivadas. Reformamos igrejas. Construímos salões e casas paroquiais. Em apenas 15 anos de pastoreio, construímos 8 ou 9 igrejas novas. Houve, então, um crescimento razoavelmente bom nesse período.

É um trabalho para muitos fiéis?

Segundo estatísticas, descendentes de ucranianos são em torno de 400 mil.

Destes, os ortodoxos são minoria: - aproximadamente 5%.

Sua comunidade maior vive no estado do Paraná. A presença ortodoxa se dá em 18 comunidades organizadas, desde o Rio Grande do Sul até São Paulo, onde estamos em São Caetano do Sul e Osasco.

Fale-nos da Igreja ortodoxa em geral

A Igreja ortodoxa não tem um poder universal centralizado, como a Igreja católica romana. Cada povo tem uma Sé apostólica. Onde predomina a ortodoxia, os povos têm patriarcados próprios. Um dos mais antigos patriarcados ecumênicos é o de Istambul, ao qual prestamos obediência.

Antes de ser dividida pelo grande Cisma de 1054, a Igreja tinha cinco grandes Sé (sedes) ou patriarcados, muito unidos entre si:

- Roma, Constantinopla (Istambul), Antioquia (Damasco), Jerusalém e Alexandria (no Egito).

Com o cisma, rompeu-se a unidade anterior, mas a ortodoxia preserva, até hoje, tudo aquilo que a Igreja era até então: - uma, santa, indivisa. Hoje se diz: Igreja ortodoxa ucraniana, russa, grega ou búlgara... Ucranianos, russos, búlgaros ou gregos são grupos étnicos diferentes, mas nada os difere na fé, nos dogmas, na teologia ou na doutrina. Em tais elementos estamos em absoluta comunhão. Mas, cada qual é administrativamente autocéfala, isto é, independente..

Muito se fala de ortodoxos da diáspora. O que significa isto?

São os ortodoxos emigrados de seu país de origem A Igreja ucraniana, por exemplo, está no Brasil, comprovadamente, desde 1895. Ela e nós somos ucranianos da diáspora, com a grandeza da fé e de ritos bizantinos muito antigos, que seguimos à risca.

Dê uma palavra sobre o clero ortodoxo no Brasil

Há um só bispo para toda a América do Sul porque a colônia não é tão grande, embora tenhamos muitos brasileiros que vêm aderindo à ortodoxia. Temos 12 padres no Brasil, sagrados pelo bispo. No decorrer do ano, teremos mais duas ou três ordenações diaconais. Um senhor casado, formado em teologia, pode ser ordenado padre.

Se o candidato quiser optar pelo casamento, isso tem que acontecer antes da ordenação. Um padre solteiro não pode se casar. O bispo é sempre celibatário. O padre ortodoxo brasileiro não precisa necessariamente falar o ucraniano. Deve, porém, passar por um processo de inculturação, uma vez que a maioria de nossos paroquianos são ucranianos ou seus descendentes, que nem sempre falam bem o português.

Na alma dessa gente está o rito, os costumes e, principalmente, a liturgia ortodoxa. É difícil a um clérigo do rito latino adaptar-se na ortodoxia, que exige longa preparação, polimento, purificação para aprender bem a liturgia e, assim, amá-la. Por falta de elemento humano, os ucranianos não fazem parte do Conselho Nacional das Igrejas Cristãs
(Conic), embora não nos falte convites.

Como se coloca a figura de Maria e dos demais santos na ortodoxia?

A dogmática, a teologia, a interpretação ortodoxa a respeito dos santos, coloca Maria no mais alto pedestal de santidade. Daí, o louvor à mãe de Deus (Theotokos) acima dos querubins, serafins e demais anjos e arcanjos, mas não acima de Deus. Também há santos muito venerados por todos os ortodoxos, como São Nicolau ou São Jorge. Há também os de cada país. A Ucrânia produziu uma infinidade de santos e mártires, principalmente na época do comunismo.

Cirilo e Metódio são considerados ortodoxos?

Eles viveram e morreram antes da grande divisão de 1054. São, portanto, um tesouro comum. Na Igreja ortodoxa, são considerados apóstolos. Foram irmãos e grandes missionários gregos da Tessalônica. Para evangelizar os eslavos, que não tinham linguagem escrita, eles criaram o alfabeto conhecido como cirílico, do qual originaram-se a língua russa, a ucraniana... Ambos estiveram na Ucrânia cem anos antes que a região recebesse oficialmente o cristianismo pelas mãos do príncipe São Valdomiro Magno, em 988. Portanto, foram os precursores do cristianismo na Ucrânia. Ora, com tantos santos naqueles países, será que não podemos também ter santos brasileiros?

Estamos em Joaquim Távora exatamente há 26 anos do acontecimento que enlutou para sempre esta cidade. Por que a Igreja ortodoxa pretende elevar Maria Aparecida Beruski aos altares, como a primeira santa ortodoxa, que nasceu, viveu e morreu aqui?

Apesar de alguns sinais extraordinários, ocorridos pela intercessão de “Tita”, segundo relatos locais, na ortodoxia não há essa exigência, como ocorre na Igreja católica romana. Na Igreja ortodoxa, quem elege alguém como santo ou santa não é a hierarquia eclesiástica, mas é, primeiramente, o povo.

E a população local, que conheceu e conviveu com Maria Aparecida, atesta sua vida de santidade e seu gesto heróico para salvar os que ela pôde e amar os que permaneceram no seu regaço até o fim. Durante sua curta vida, ela sempre demonstrou profunda fé ortodoxa.

Os oito inocentes também são santos, certamente. Por outro lado, na ortodoxia, o processo de canonização não é tão complexo, pois não existe o passo precedente, que é o da beatificação. Além disso, na fé ortodoxa não há a necessidade de um prévio transcurso de tempo para uma canonização. Houve situações na história com canonização ocorrida após dois anos de falecimento, como nos casos de martírio ou de perseguição, por exemplo. É claro que, nos dias atuais, há muita análise e critério, porque não se pode proclamar alguém como santo sem o testemunho de santidade.

Quando o senhor abraçou a causa de Maria Aparecida?

O movimento de canonização de Maria Aparecida Beruski tem, praticamente, três anos. Em outubro de 2005, depois de analisar todas as evidências da tragédia e o clamor popular, levei o assunto a uma conferência dos bispos ortodoxos ucranianos da diáspora. Feita a proposta, foi exigido um dossiê completo, um histórico, inclusive relatando alguns fenômenos, sinais, milagres que aconteceram.

Agora, tudo será mais uma vez avaliado pela assembléia daqueles bispos para complementar o dossiê. Feito isto, ele será levado ao conhecimento do patriarca ecumênico, Bartolomeu I, que reside em Istambul, sede do patriarcado ecumênico. É a ele que obedecemos e somente ele poderá dar o aval e a bênção final para proclamar Maria Aparecida como santa.


Imagem na lápide de Tita

Túmulo de Tita com as 8 crianças

Mãe da Tita

O que o senhor diria aos brasileiros não-ortodoxos?

Quero saudar a todos os brasileiros, independente de credos, porque esta terra é abençoada. Ela acolheu e acolhe a tantos estrangeiros. E a religião é, ainda, um elo de unidade nacional. Temos muita coisa em comum com a Igreja católica, com os protestantes e mesmo com os evangélicos. Ninguém quer que todo mundo vire católico, todo mundo vire ortodoxo ou todo mundo vire protestante. Não deve haver proselitismos.

Mas é preciso levar, transmitir, aquilo que é nosso, para que o outro possa entender, conhecer melhor, e para que nós possamos conhecer melhor os outros, a fim de valorizarmos mais aquilo que nós mesmos somos. Também desejo todo o sucesso a Mundo e Missão, porque é muito importante levar a mensagem de diversos aspectos do cristianismo para o povo de Deus. Espero ter dado uma minúscula participação para que isso aconteça.

Os ortodoxos e o ecumenismo

Em maio deste ano, o presidente do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos, cardeal Walter Kasper, encontrou-se com sua Santidade Aléxis II, patriarca de Moscou e de todas as Rússias. Na ocasião, o representante do Vaticano entregou uma carta de Bento XVI ao moscovita.

Ao ser entrevistado a respeito da abertura ortodoxa em relação à Igreja de Roma, dom Kasper respondeu:

“Os ortodoxos buscam uma cooperação sobre os valores cristãos, sobre as raízes comuns da Europa, sobre o testemunho moral, sobre temas como a família, a bioética e os direitos humanos, que constituem uma prioridade absoluta. Sob este aspecto temos posições muito semelhantes. Foi o próprio patriarca Aléxis II que insistiu sobre este ponto, afirmando estar convencido da necessidade do diálogo ortodoxo-católico e repetindo que as posições das duas Igrejas coincidem em muitas questões colocadas pelo mundo contemporâneo. Enfim, expressou a esperança de que tal diálogo favoreça o ulterior desenvolvimento dos contatos entre as duas Igrejas.

Além disso, o novo arcebispo católico de Moscou, Paolo Pezzi, é muito estimado:

- todos têm confiança nele; por isso, pode-se esperar que as portas se abram, embora a estrada seja ainda longa”.

(L’Osservatore Romano, 07/06/2008)

"Convidamos você a visualizar trechos de danças típicas ucranianas, uma tradição preservada nos estados sulinos do Brasil. Nesta ocasião, um grupo folclórico ucraniano do Rio Grande do Sul presta homenagem a dom Jeremias Ferens, eparca da Igreja Ortodoxa ucraniana na América Latina, por ocasião do seu décimo quinto aniversário de sagração episcopal.

O evento ocorreu em Curitiba-PR no dia 21 de setembro deste ano"


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