Revista "MUNDO e MISSÃO"

Testemunhos da Vida Missionária

por Egidio Farina

esumir trinta e um anos vividos na Índia, no vilarejo de Eluru, província de West Gadari, estado de Andra Pradesh, como missionário leigo do Pime, é um trabalho insano. Mas o irmão Enrico Meregalli, italiano, 57 anos, sem desperdiçar uma palavra, sintetiza: “Estou na Índia para testemunhar Cristo através do meu trabalho”.

Suas mãos falam mais que a boca. São as mãos de quem começou a trabalhar, desde menino, com ferro e depois com madeira e nunca mais parou. “Eu fazia bijuterias em minha terra natal. Mas minha vocação era outra. Depois da minha formação para irmão no seminário de Busto Arsizio (Itália), em 1974 parti para a Índia na condição de missionário leigo. Acho mesmo que fui o último missionário a entrar no país, antes das restrições impostas pelo governo. Com outro irmão, Francesco Sartori, vimo-nos rapidamente trabalhando na escola criada pelo irmão Carlo Bertoli, dedicada a São Francisco Xavier. Havia cinqüenta rapazes que aprendiam a usar as ferramentas de mecânicos e marceneiros”.

A longa barba, que começa a sofrer os sinais do tempo, emoldura o rosto redondo e ressalta a profundidade de seus olhos. “Começamos a fazer camas, bancadas, portas, a ocuparmo-nos com instalações elétricas, fotos de máquinas, carrocerias, entalhes e escultura. Hoje temos cento e vinte rapazes e somos reconhecidos como um Instituto Profissionalizante, um dos maiores da região. E somos a única escola de marchetaria (entalhes) em um raio de 300 quilômetros. Em trinta anos, vi passar por ela pelo menos dois mil alunos. Os nossos rapazes encontram trabalho rapidamente e podem manter sua família. Alguns também se tornam empreendedores e ajudam os estudantes que chegaram depois deles”. Seus olhos, que há tempos correram o risco de se fechar para sempre devido a uma doença, brilham.

“Rezei muito: - ‘seja feita a tua vontade, Pai’.

Mas seria triste não poder mais andar de moto entre uma e outra vila.

Vejam: - estou enxergando! A doença desapareceu”.

A oração define o ritmo da sua jornada indiana, junto com o ruído e o cansaço do trabalho:

- “Doar-se ao Senhor dá uma alegria imensa.


Sinto-a através dos jovens estudantes, dos pobres, dos doentes. Às vezes, a fila de pobres que nos procuram para ter um pouco de água chega a cem metros. E encontram refúgio sob o nosso teto na estação dos tufões. Resumindo, a escola é o refúgio de todos. Na Europa se esbanja muita água. Em vinte anos, abri aqui na Índia sessenta poços. Cada novo poço é uma festa, porque o povo do lugar não precisa mais andar quilômetros para ter água, que – às vezes – é procurada nos pastos onde vive o gado. Imaginem as doenças!

Ficam felizes com o poço e dizem: - ‘ah, se não fosse você!’.

Mas sou apenas um lápis na mão de Deus, como dizia madre Teresa. O arquiteto é Ele, é Deus. Rezem, digo ao povo, apesar de não conhecerem Aquele que me mandou”. O álbum de fotos recolhe uma centena de instantâneos, nada em confronto ao filme que passa diante dos olhos deste homem tão forte e doce. “Eu ficaria feliz se pudesse aumentar a escola de São Francisco Xavier para abrigar 140 rapazes. Temos procurado mas, por enquanto, não podemos satisfazer a todos. Eu também gostaria de comprar alguma máquina que possa ser útil à escola”. Este é mais um sonho de Enrico, que poderá se realizar através da generosidade das pessoas que, sensíveis como ele, desejam ser apenas um lápis na mão de Deus.

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