Revista "MUNDO e MISSÃO"
Testemunhos da Vida Missionária
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Pedro Miskalo Quem é o Pe. Carlinhos?
Sua primeira experiência... – Foi aprender francês, a língua oficial do país. Isso foi na cidade de Brobo. Depois, assumi a missão enquanto também aprendia uma das línguas tradicionais, porque o país é rico de etnias, com 72 línguas locais, sem contar os grupos não reconhecidos oficialmente. Os principais dialetos são o baoulé, o amoré, o agni e o dyolá, que é o dialeto muçulmano e comercial. A maioria do povo fala a língua do seu grupo étnico. Quem mora na cidade, ou passou pela escola, fala também a língua oficial. Recentemente, por exemplo, em uma missa, usei três línguas: francês, baoulé e amoré. O senhor assumiu uma missão. Que missão? – Durante 16 anos trabalhei na paróquia de Prikro, no centro-leste do país, com outros padres do Pime. Depois fui à Itália, por dois anos, para um curso de pós-graduação em missiologia. Voltei. Em Bouaké, trabalhei na animação dos estudantes, apesar da crise que atinge o país. Que crise? – Vou resumir. A Costa do Marfim é de colonização francesa. Negociou com a França a “independência” em 1960. Mas, nesses 36 anos, os colonizadores nunca abriram mão do país. Em Abidjan, capital econômica, vivem cerca de 25 mil franceses, além de 4 mil militares da força de intervenção “Licorne”. A capital político-administrativa é Yamoussoukro, mais para o centro do país. Os franceses continuam agindo em vários setores e atraem a antipatia do povo, que não os suporta mais. O país é rico, mas poderia ser muito mais desenvolvido. Antigamente era chamado de “Paris da África”. O primeiro presidente, Félix Houphouët-Boigny, governou ditatorialmente até a morte, em 1993. O sucessor, Henri Konan Bedié, manteve a ditadura e o país enfrentou o primeiro golpe militar em 1999. O general Robert Guei assumiu o poder e convocou um referendo, que aprovou a nova Constituição em 2000. Segundo ela, os candidatos a presidente devem ter ascendentes marfinenses. Houve eleições. Guei não aceitou a derrota e se auto-proclamou vencedor. Um levante popular e o exército derrubaram-no. Ele fugiu. Laurent Gbagbo, o vencedor, assumiu a presidência e governa até hoje com idéias nacionalistas.
É um bom governo? – O presidente sofre muita pressão. Em 2002, ele sufocou uma tentativa de golpe de Estado. Mas os golpistas refugiaram-se no norte, de onde pressionam... Assim, hoje o país está dividido: - o sul, com o governo; o norte, com os rebeldes. A situação é grave e o povo sofre. O que querem os rebeldes? – A gente não entende o que eles querem. Claro está, no entanto, que os franceses estão na sua retaguarda, porque não concordam com o governo nacionalista de Gbagbo. Eles têm enormes interesses econômicos na área e querem um presidente pró-França. O governo já cedeu muito, mas os rebeldes não diminuem a pressão. O povo se revolta contra os rebeldes e, conseqüentemente, contra os franceses. Então é uma crise política? – É estrutural. É política, econômica e também social. O país todo está em crise. No norte, não há trabalho e as crianças não têm escola há três anos. A saúde é precária e a situação social é realmente grave. O clima não é de guerra e nem de paz. Nesse contexto, o que faz a Igreja? – Está na linha de frente em termos de ajuda. Ao sofrer ataques, a população do norte refugiou-se no sul e foi acolhida pelas paróquias, que ajudaram a encontrar parentes, a construir moradias, a sobreviver, enfim. As Caritas (internacional e marfinense) providenciaram alimentação, remédios... até nas zonas rebeladas. Muitos padres sofreram humilhações terríveis, mas continuam presentes como testemunho, salvando muita gente, ajudando a quem precisa. Por outro lado, as outras Igrejas cristãs, não-católicas, ofereceram pouquíssima ajuda. É interessante ver como muitas pessoas querem ser católicas, porque viram a diferença. Estivemos no fogo e o povo percebeu isso.
– As religiões tradicionais, animistas, predominam (37,6%); em seguida, vem o cristianismo (31,8%, metade dos quais é católica) e o islamismo (30,1%). Com os muçulmanos é possível dialogar, mas não converter, pois o clã familiar é propriedade do islã. Família muçulmana será sempre muçulmana, a não ser que se mude de região. Se for para uma área cristã, é possível que se converta também. O primeiro contato com os animistas se dá através do testemunho. Fale sobre o PIME no país – O Instituto chegou através de um projeto com clero local e dioceses da Itália, há trinta anos, para trabalhar na evangelização e na promoção humana. Atualmente, porém, está se reposicionando na missão marfinense. Há três anos, dom Maurice Kouassi Konan, então bispo de Odienné, no norte do país, ofereceu-nos uma nova missão, a missão Minignan, em área de conflito. Eu e o Pe. Cesare Baldi (associado ao PIME) deveríamos abri-la. O atual bispo diocesano, dom Jean Salomon Lezoutié, pediu-nos que esperássemos, pois “eu não quero pôr vocês no fogo, agora. A região é explosiva. Por um tempo fiquem em Abidjan”, afirmou. Estamos ainda esperando. Então, como alternativa, ele nos propôs (e aceitamos) a missão de Kani, um ambiente menos perigoso da mesma diocese, onde fiquei na paróquia de Séguela. A paróquia havia sido completamente destruída em 2000: - os rebeldes queimaram a igreja, quebraram tudo na casa paroquial. Os cristãos desapareceram. Diziam: “A Igreja morreu. Jesus Cristo morreu”. É lá que estou morando, começando tudo do zero, reunindo os dispersos, organizando a catequese, reconstruindo a casa paroquial e a igreja. Os jovens são a força da comunidade. Eles convidam os outros, dizendo: - “Vamos ressuscitar Jesus Cristo!”. No início, eram 8 jovens. Hoje, são mais de 80. Pouco a pouco a comunidade cresce, inclusive nas aldeias (capelas) da paróquia. Como é sua comunidade? – Extraordinariamente solidária. Jamais me deixou sozinho, inclusive nos momentos difíceis. Principalmente os jovens. Um deles está na Itália, para um ano de espiritualidade, enquanto aprende o italiano para cursar teologia. Outros dois se preparam para a filosofia. Qual a primeira dificuldade para a evangelização de primeiro anúncio? – Os nativos dizem: - “Jesus Cristo é branco. É do outro lado do mar, não é nosso”. Então, a evangelização passa pelo testemunho do padre e também dos leigos. Em vista disso, eles se curvam: “Aí tem coisa diferente – dizem –, porque se o padre, que é branco, veio do outro lado do mar, fala nossa língua e vive conosco, é um de nós”. Mas, de vez em quando, enfrentamos problemas. Por três vezes quase paguei com a vida por causa da cor. Consegui explicar que era brasileiro, missionário, e assim me livrei. É que muitos não gostam dos brancos, e com razão, porque o colonizador francês explorou tudo e todos. Este é um problema bem real. Os leitores terão sua mensagem? – Sim! Que eles rezem. Rezem para que os países africanos em guerra encontrem a paz, uma paz duradoura, que valorize a pessoa, que dê escola e saúde para as crianças, que faça o continente se desenvolver. |
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