Revista "MUNDO e MISSÃO"

Testemunhos da Vida Missionária

Pedro Miskalo

Quem é o Pe. Carlinhos?

ou paraibano de uma família com 14 irmãos. Depois de servir ao exército, trabalhei em comunidades de base e em favelas em São Paulo, que me despertaram a vontade de ser padre. Estudei no seminário de Assis, depois em Londrina e, finalmente, em Florianópolis. Depois de ordenado, trabalhei um ano em São Paulo, junto ao padre Maurílio Maritano. Em 1984, fui enviado à Costa do Marfim, na costa Ocidental da África, onde me encontro até hoje.

Sua primeira experiência...

– Foi aprender francês, a língua oficial do país. Isso foi na cidade de Brobo. Depois, assumi a missão enquanto também aprendia uma das línguas tradicionais, porque o país é rico de etnias, com 72 línguas locais, sem contar os grupos não reconhecidos oficialmente. Os principais dialetos são o baoulé, o amoré, o agni e o dyolá, que é o dialeto muçulmano e comercial. A maioria do povo fala a língua do seu grupo étnico. Quem mora na cidade, ou passou pela escola, fala também a língua oficial. Recentemente, por exemplo, em uma missa, usei três línguas: francês, baoulé e amoré.

O senhor assumiu uma missão. Que missão?

– Durante 16 anos trabalhei na paróquia de Prikro, no centro-leste do país, com outros padres do Pime. Depois fui à Itália, por dois anos, para um curso de pós-graduação em missiologia. Voltei. Em Bouaké, trabalhei na animação dos estudantes, apesar da crise que atinge o país.

Que crise?

– Vou resumir. A Costa do Marfim é de colonização francesa. Negociou com a França a “independência” em 1960. Mas, nesses 36 anos, os colonizadores nunca abriram mão do país. Em Abidjan, capital econômica, vivem cerca de 25 mil franceses, além de 4 mil militares da força de intervenção “Licorne”. A capital político-administrativa é Yamoussoukro, mais para o centro do país. Os franceses continuam agindo em vários setores e atraem a antipatia do povo, que não os suporta mais. O país é rico, mas poderia ser muito mais desenvolvido.

Antigamente era chamado de “Paris da África”. O primeiro presidente, Félix Houphouët-Boigny, governou ditatorialmente até a morte, em 1993. O sucessor, Henri Konan Bedié, manteve a ditadura e o país enfrentou o primeiro golpe militar em 1999. O general Robert Guei assumiu o poder e convocou um referendo, que aprovou a nova Constituição em 2000. Segundo ela, os candidatos a presidente devem ter ascendentes marfinenses. Houve eleições. Guei não aceitou a derrota e se auto-proclamou vencedor. Um levante popular e o exército derrubaram-no. Ele fugiu. Laurent Gbagbo, o vencedor, assumiu a presidência e governa até hoje com idéias nacionalistas.

É um bom governo?

– O presidente sofre muita pressão. Em 2002, ele sufocou uma tentativa de golpe de Estado. Mas os golpistas refugiaram-se no norte, de onde pressionam... Assim, hoje o país está dividido: - o sul, com o governo; o norte, com os rebeldes. A situação é grave e o povo sofre.

O que querem os rebeldes?

– A gente não entende o que eles querem. Claro está, no entanto, que os franceses estão na sua retaguarda, porque não concordam com o governo nacionalista de Gbagbo. Eles têm enormes interesses econômicos na área e querem um presidente pró-França. O governo já cedeu muito, mas os rebeldes não diminuem a pressão. O povo se revolta contra os rebeldes e, conseqüentemente, contra os franceses.

Então é uma crise política?

– É estrutural. É política, econômica e também social. O país todo está em crise. No norte, não há trabalho e as crianças não têm escola há três anos. A saúde é precária e a situação social é realmente grave. O clima não é de guerra e nem de paz.

Nesse contexto, o que faz a Igreja?

– Está na linha de frente em termos de ajuda. Ao sofrer ataques, a população do norte refugiou-se no sul e foi acolhida pelas paróquias, que ajudaram a encontrar parentes, a construir moradias, a sobreviver, enfim. As Caritas (internacional e marfinense) providenciaram alimentação, remédios... até nas zonas rebeladas. Muitos padres sofreram humilhações terríveis, mas continuam presentes como testemunho, salvando muita gente, ajudando a quem precisa. Por outro lado, as outras Igrejas cristãs, não-católicas, ofereceram pouquíssima ajuda. É interessante ver como muitas pessoas querem ser católicas, porque viram a diferença. Estivemos no fogo e o povo percebeu isso.

Como se dá o contato entre as religiões?

– As religiões tradicionais, animistas, predominam (37,6%); em seguida, vem o cristianismo (31,8%, metade dos quais é católica) e o islamismo (30,1%). Com os muçulmanos é possível dialogar, mas não converter, pois o clã familiar é propriedade do islã. Família muçulmana será sempre muçulmana, a não ser que se mude de região. Se for para uma área cristã, é possível que se converta também. O primeiro contato com os animistas se dá através do testemunho.

Fale sobre o PIME no país

– O Instituto chegou através de um projeto com clero local e dioceses da Itália, há trinta anos, para trabalhar na evangelização e na promoção humana. Atualmente, porém, está se reposicionando na missão marfinense. Há três anos, dom Maurice Kouassi Konan, então bispo de Odienné, no norte do país, ofereceu-nos uma nova missão, a missão Minignan, em área de conflito. Eu e o Pe. Cesare Baldi (associado ao PIME) deveríamos abri-la.

O atual bispo diocesano, dom Jean Salomon Lezoutié, pediu-nos que esperássemos, pois “eu não quero pôr vocês no fogo, agora. A região é explosiva. Por um tempo fiquem em Abidjan”, afirmou. Estamos ainda esperando. Então, como alternativa, ele nos propôs (e aceitamos) a missão de Kani, um ambiente menos perigoso da mesma diocese, onde fiquei na paróquia de Séguela.

A paróquia havia sido completamente destruída em 2000:

- os rebeldes queimaram a igreja, quebraram tudo na casa paroquial. Os cristãos desapareceram.

Diziam: “A Igreja morreu. Jesus Cristo morreu”. É lá que estou morando, começando tudo do zero, reunindo os dispersos, organizando a catequese, reconstruindo a casa paroquial e a igreja. Os jovens são a força da comunidade.

Eles convidam os outros, dizendo: - “Vamos ressuscitar Jesus Cristo!”.

No início, eram 8 jovens. Hoje, são mais de 80. Pouco a pouco a comunidade cresce, inclusive nas aldeias (capelas) da paróquia.

Como é sua comunidade?

– Extraordinariamente solidária. Jamais me deixou sozinho, inclusive nos momentos difíceis. Principalmente os jovens. Um deles está na Itália, para um ano de espiritualidade, enquanto aprende o italiano para cursar teologia. Outros dois se preparam para a filosofia.

Qual a primeira dificuldade para a evangelização de primeiro anúncio?

– Os nativos dizem: - “Jesus Cristo é branco. É do outro lado do mar, não é nosso”.

Então, a evangelização passa pelo testemunho do padre e também dos leigos.

Em vista disso, eles se curvam: “Aí tem coisa diferente – dizem –, porque se o padre, que é branco, veio do outro lado do mar, fala nossa língua e vive conosco, é um de nós”.

Mas, de vez em quando, enfrentamos problemas. Por três vezes quase paguei com a vida por causa da cor. Consegui explicar que era brasileiro, missionário, e assim me livrei. É que muitos não gostam dos brancos, e com razão, porque o colonizador francês explorou tudo e todos. Este é um problema bem real.

Os leitores terão sua mensagem?

– Sim! Que eles rezem. Rezem para que os países africanos em guerra encontrem a paz, uma paz duradoura, que valorize a pessoa, que dê escola e saúde para as crianças, que faça o continente se desenvolver.

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