Revista "MUNDO e MISSÃO"

Testemunhos da Vida Missionária

Paola, jovem missionária leiga no Camboja, trabalha com as crianças aidéticas.
Viver com elas enche Paola de alegria
e lhe permite descobrir, todo dia, a ternura
e o amor de Deus por qualquer criatura...
um “cocktail” que faz verdadeiro milagre

Paola Maiocchi

écadas de guerras, internacionais e civis, e o genocídio desencadeado pelo Khmer Vermelho de Pol Pot, na década de 70, marcaram profundamente o Camboja. A elas se alia a corrupção que atinge todos os níveis, desde os mais altos, até o estudante que precisa pagar ao professor para ser promovido.

Além disso, a política é mal administrada, a economia não progride, a recuperação parece distante. São feridas que exigem tempo para serem cicatrizadas. Mas o povo simples deseja crer em um futuro melhor, enquanto os estudantes universitários começam a “abrir os olhos” sobre a realidade. Infelizmente, outra “praga” arma seu bote e faz vítimas, milhares de vítimas... é a aids!

Camboja é um dos países do sudeste asiático mais atingidos pela epidemia, que começou a se difundir, sem que as pessoas se dessem conta, por desconhecerem o poder destruidor de seu vírus. Depois das primeiras mortes, pensava-se imediatamente no “pior”, tanto em número de doentes, de óbitos e da disseminação. E as previsões se confirmaram!

Entre os pioneiros no combate à síndrome, aqui no Camboja, destacaram-se os missionários de Maryknoll, que iniciaram um projeto para doentes adultos, sobretudo pensando nas pessoas discriminadas em função da “maldição” (é preciso tempo para conscientizar as pessoas sobre a real transmissão do vírus HIV, superando preconceitos vinculados a deméritos ou maldições) dos seres contaminados, gente sem-teto ou lugar onde ficar e ser acolhida, considerados homens e mulheres, e não “condenados pela praga”.

Com o tempo, depois de altos e baixos, essa gente começava inexoravelmente a morrer, porém sempre acompanhada, até os últimos instantes, e quem já se encontrava na fase terminal, poderia contar até com a presença de um asilo próprio. No leito de morte, diziam estar prontos para a próxima e definitiva passagem; demonstravam, todavia, grande preocupação, e portanto angústia, ao pensar nos próprios filhos, alguns também contaminados pelo HIV. Em vista disso, decidimos criar um programa também para as crianças, um lugar onde pudessem receber um pouco de amor, remédios, acompanhamento e morte digna...

Em seguida, graças sobretudo à garra de alguns missionários, resolveu-se empreender o caminho da terapia anti-viral, a única possibilidade atual, no mundo, para controlar a infecção no interior do corpo, mas ainda não suficiente para debelar totalmente o vírus. Eis-me aqui, no Camboja, já há mais de dois anos... São muitas as crianças que acompanhamos, mas é incrível como o amor que temos por cada uma delas é algo único, verdadeiramente especial. É de se admirar quem queira decorar o nome de cada uma.


A missionária Paola Maiocchi junto a mulheres cambojanas

A tarefa não é uma questão de memória: elas entram diretamente no coração, sem passar pela compreensão. A maior parte desses pequenos nos chega ao hospital quando já está muito doente; de fato, descobre sua soropositividade apenas pouco antes de ser chamado pelo Pai. Freqüentemente, eles são mesmo como a imagem que passa na televisão, faces cavadas, corpinho inerte. Graças, porém, a um cocktail todo especial acontece um milagre, cada vez sempre mais belo: é como um verdadeiro e próprio retorno à vida! Você está curioso(a) para conhecer os ingredientes de nosso cocktail? OK!

Eis a receita: acolhida e espírito de família; boa e abundante alimentação; repouso, higiene; remédios e amor. Como ocorre freqüentemente, as palavras, até as mais claras, não dão tanto resultado como quando se convive com a pessoa que sofre. Estas crianças voltam à vida. E, tendo experimentado o próprio fim, quando já estavam morrendo, e apesar de assistirem à morte dos pais, vitimados pela mesma doença, estes anjinhos exalam vida por todos os poros. Elas se envolvem em muitas atividades, mas a principal motivação é a escola.

Não poderei esquecer a felicidade de Huoen, de 12 anos, que não poderia mais freqüentar as aulas, por causa da saúde claudicante e da pobreza da sua família, diante da notícia que, neste ano, poderá voltar para a escola! Assim acontece também com Panny, de 11 anos, que, no ano passado, nesta mesma época do ano, ouviu de alguns médicos céticos: “por que continuam a trazê-lo ao hospital? Não vêem que ele está morrendo?”... Agora Panny já está matriculado na primeira série! É forte por si mesmo!

Ele lembra sempre: “Estavam todos sem esperança, menos eu! Eu repetia: Estou ainda vivo, não? Ora, então eu espero. Por que não?” Seima, por sua vez, tem um destacado “senso religioso” e fala do grande desejo de se tornar sacerdote. Ainda não sabe ler nem escrever, mas quer, a todo custo, participar da catequese. Ele me diz: “Serei fiel ao catecismo... talvez só quando estiver mal, com febre e tosse pedirei permissão à mestra!”. Seima tem 14 anos e pesa 20 quilos, mas tem um caráter de ferro e é um garoto determinado, mas tem também uma doença pulmonar, por causa da aids e da tuberculose, que não lhe permitirá uma vida longa. Já falamos sobre a morte com as crianças.

E nos imaginamos no paraíso, o lugar onde poderemos fazer tudo o que é belo e onde Jesus estará à porta, pronto a nos acolher e, chamando-nos pelo nome, ficará sempre conosco. Um dia, prometi às crianças que, se eu morrer primeiro, irei protegê-los sempre e eles me prometeram a mesma coisa. A Lakany, de 15 anos, há um ano quase morrendo em meus braços, e que agora parece uma pequena mulher com força plena, um dia confessei: “Não entendo como posso te amar tanto assim!” Ela me olhou com olhos vivos e respondeu: “Simples! É porque Deus quis que nos encontrássemos e ficássemos como mãe e filha”. Ora, ora!

Como é simples uma criança reconhecer o amor de Deus! Tão simples que elas são as primeiras a admirar-se diante da incredulidade de nós, os adultos. Simples e evidente: o Senhor as criou quase como os anjos, isso eu posso testemunhar... com todos os anjos que encontrei na minha vida. Alguns estão “fazendo o seu trabalho” lá no céu, como Nuon, Et Chek, Srey Pich, Vireak, Mop Capline, Srey Kao, Pich Sino, Srey Neat, Ly Hour e tantas outras crianças que não sobreviveram, e que agora são nossos anjos da guarda. E os outros anjos, caro leitor, aqueles que ainda estão conosco,... eles são seguramente os preferidos de Jesus, que se colocou no meio deles e disse: “se não te tornares como um deles,...”.

Missionárias da Imaculada

Khmer Vermelho

O Camboja esteve, durante os anos 1970, sob o controle da organização de esquerda Khmer Vermelho, que deslocou milhões de pessoas para o campo e perseguiu a população mais instruída, a elite econômica e a oposição ao regime. Calcula-se que entre 800 mil e 2,5 milhões de cambojanos tenham morrido de fome ou nos campos de extermínio durante o governo do Khmer Vermelho. Seu dirigente máximo, Pol Pot, morreu em 1998, e o que restou da organização rendeu-se no ano seguinte.

Fonte: Almanaque Abril

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