Revista "MUNDO e MISSÃO"

Testemunhos da Vida Missionária

 

por Emanuela Citterio

endurado numa parede do quarto há um chapéu de alpino (soldado montanhês), porque – orgulha-se ele, sorrindo: “uma vez alpino, ... sempre alpino”. Mas o que chama logo a atenção do visitante são os recipientes com as tintas, dispostas em ordem cromática, um ao lado do outro na mesa de trabalho. Um cavalete, com a última obra quase acabada, está montado perto da janela aberta. Deve ser agradável pintar observando, de vez em quando, o vôo das gaivotas.

A vida de padre Fulvio Giuliano, missionário pintor, transcorre neste quarto, na casa do Pime em Gênova Nervi, frente ao mar. “Pertenço a uma família de pintores – fala de si –. Meu avô, farmacêutico de Palermo, tinha grande sensibilidade artística. Era músico e pintor, e transmitiu a mim, a meu irmão gêmeo e ao irmão mais velho essa sensibilidade”. Em cinqüenta anos, padre Fulvio pintou mais de mil ícones. Muitos estão aqui no Brasil, sua pátria adotiva, onde viveu durante 23 anos.

Os outros já estão espalhados pelo mundo todo, da Guiné Bissau à China, nas igrejas no meio da floresta e nas catedrais das grandes cidades. “Desde que voltei para a Itália, em 1985, trabalho sob comissão – brinca padre Fulvio, acariciando a longa barba grisalha –. Meus co-irmãos encomendam e eu despacho”. O fato é que o trabalho de padre Fulvio é uma lide ininterrupta. “Minha jornada está dividida em duas partes: quatro horas de oração e cinco de trabalho”.

Mas, para entender como a arte entrou na vida de um missionário como o padre Fulvio, é preciso voltar no tempo. E ir até quando, ainda garoto, Fulvio e seu irmão gêmeo Franco roubam uma bisnaga de tinta do irmão maior, para pintar os primeiros quadrinhos a óleo em um pedaço de compensado. O encontro determinante com a arte sacra, para Fulvio, porém, aconteceu no eremitério São Salvador, de Erba. “Eu tinha quinze anos e fiquei fascinado pelo estupendo afresco medieval da capela do eremitério.

Fiquei fascinado pelo Cristo crucificado, que se destacava no céu escuro. Um corpo não morto, mas vivíssimo, levemente curvado e que, no entanto, conservava sua majestade. Passaram-se mais de cinqüenta anos, mas aquela imagem eu ainda conservo dentro de mim. Marcou-me para sempre”.

O chamado

“Sargento Giuliano! Chegou uma carta do Brasil para você!”. Uma aventura missionária também pode começar assim. E mais embaixo: “Caro Fulvio, já o consideramos membro do pequeno exército dos missionários de Macapá. Venha logo!”. O remetente era Dom Aristides Piróvano, do Pime, bispo de Macapá. Fulvio respondeu que sim e veio ao Brasil, como missionário leigo e mestre de obras. Trabalhou sete anos ao lado de Marcelo Cândia (industrial de Milão que investiu seus bens em obras sociais no Amapá e no Pará).

Fulvio descobriu que poderia usar um outro dom a serviço do Evangelho. “Em Macapá, duas igrejas geminadas com planta semi-circular foram a prova para a minha experiência de construtor”, relata. “Mas, sobretudo, estimularam-me a iniciar os primeiros grandes murais para ocupar as enormes paredes brancas e, assim, começar a transmitir a vida de Jesus aos pobres, através de imagens”. Além de bancar o arquiteto, Fulvio também se dedicava à catequese dos jovens.

“Todo sábado, ao meio-dia, eu reunia, em um grande galpão, cerca de 200 jovens. Utilizava uma enorme lousa e gizes coloridos para lhes contar a história da salvação, o amor de Jesus, sua vida e seus milagres. Lentamente, desenhos super-coloridos e algumas frases do Evangelho cobriam toda a lousa. Os jovens, muitos deles sentados em longos bancos de madeira, com um pedaço de compensado sobre os joelhos, transformavam-se em pequenos artistas e, ao mesmo tempo, aprendiam a amar Jesus e a Igreja, e a tratar-se como irmãos”.

Em 1969, Fulvio disse um outro “sim!”, agora para o sacerdócio. Havia se transferido a Belo Horizonte, para os estudos de teologia e, durante todo o tempo livre, trabalhava em uma paróquia muito pobre da periferia, cuja maior parte era formada por extensa favela.

A um grupo de catequistas, ensinou a “desenhar o Evangelho”: eles escreviam nas lousas para seus aluninhos que, por sua vez, passavam para seu próprio caderno. Deste trabalho comunitário, organizado e sistemático, nasceu um verdadeiro catecismo ilustrado. Ele foi impresso em milhares de cópias e utilizado em muitas paróquias brasileiras. Foi traduzido para o italiano e reeditado pelo menos seis vezes.

A reviravolta “oriental”

Durante umas férias na Itália, nos anos 80, padre Fulvio freqüentou um curso de iconografia bizantina, na escola Russia Cristiana.

É um outro brilho: daquele momento em diante, decidiu dedicar-se apenas à arte icônica. “O ícone é um mistério, permite representar a imagem profunda e eterna do Cristo na sua humanidade e divindade”, afirma hoje, há 24 anos daquela escolha. Em 1985, devido a problemas de doença, padre Fulvio precisou deixar o Brasil e agora mora na Itália. “Aqui, minha atividade de iconógrafo não é diminuída – afirma –. Ao contrário, o Senhor me abriu novos horizontes.

De fato, comecei a trabalhar também para as igrejas nos diversos países onde se encontra o Pime”. Padre Fulvio mostra a foto de um ícone com o semblante chinês e inscrições em mandarim, doada a uma comunidade cristã da área de Cantão. “O belo é belo em qualquer lugar, como o verdadeiro e o bom – diz com convicção –. E, além disso, o ícone tem valor universal”.

Padre Fulvio se entusiasma com as palavras que o Papa dirigiu aos artistas no início de seu pontificado, em 1980:

“A Igreja precisa da arte. Ela é necessária para a transmissão de sua mensagem. A Igreja precisa da Imagem. O Evangelho é narrado em imagens e parábolas; deve e pode tornar-se visível através da imagem”.

“A Igreja não deve interromper o caminho da evangelização através da imagem – comenta padre Fulvio –. Há uma profunda intuição que acompanha o anúncio da Igreja desde os primeiros séculos: a palavra demonstra, a imagem mostra. Palavra e imagem, no mundo todo, são as duas janelas do espírito”.

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