Revista "MUNDO e MISSÃO"

Testemunhos da Vida Missionária

por Gil Correia

o dia 16 de fevereiro, completando os 75 anos, o bispo da Prelazia de São Félix do Araguaia (MT), dom Pedro Casaldáliga, apresentou sua renúncia à diocese. Nesta entrevista, ele fala de sua vida, seu trabalho e da opção pelos pobres. Trabalhando desde 1968 na região, foi ordenado bispo em 1971. Ao enfrentar a ditadura da época e os grandes latifundiários, sofreu vários atentados, mas ganhou o respeito internacional pela forma eloqüente na defesa da vida e dos direitos dos menos favorecidos. Homem simples, com sandálias havaianas nos pés e anel de tucum no dedo, simbolizando o poder episcopal, Pedro, como prefere ser chamado, é apaixonado pela América Latina e pelo rio Araguaia, com quem tem uma relação de cumplicidade nas poesias e nos textos que escreve diariamente. Mesmo debilitado pela idade, mantém-se otimista, alicerçado na fé e na esperança que cultiva através das ações que nortearam a sua opção de vida e das orações, às quais se entrega diariamente, na pequena capela no fundo da humilde residência que está sempre aberta para as pessoas e para a vida, que parece fluir generosamente através da fala mansa e dos gestos compassados do "profeta do Araguaia".

Depois de 35 anos na região, o senhor é feliz?

Eu tenho paz. Aquela paz do Evangelho. Uma paz diferente. Agora eu vivo com amargura da impotência frente a esse mundo injusto, frente à prepotência dos grandes, seja dos impérios, seja das oligarquias. Essa situação de fome, de violência e guerra preventiva que acabam de inventar. Estava lendo agora uma mensagem de um companheiro, que é diretor de Justiça e Paz da nossa congregação. E ele se pergunta se pode celebrar o Natal. É evidente que sim, mas celebrar com uma espécie de revolta evangélica, frente a tanta iniqüidade. Agora, estou feliz porque tenho esperança. Perguntou-me uma revista: "Você é alegre?". Respondi, recordando um verso de Cecília Meireles: "Não sou alegre nem sou triste: sou poeta!". Mas, eu concluía dizendo que a minha alegria se chama esperança. Às vezes, como dizia São Paulo, uma esperança contra toda a esperança, mas se é esperança, não falha.

Se tivesse que começar hoje tudo de novo, aqui mesmo em São Félix,
o senhor faria a mesma coisa?

A mesma coisa, não. Tentaria corrigir muita coisa. Evidentemente, mais do que nunca continuaria optando pelos pobres, pelos indígenas, pelos posseiros, pelos peões. Faria questão de que a nossa Igreja fosse humilde, simples, aberta, acolhedora. Tentaria corrigir certas faltas de confiança, certas impaciências, certas faltas de compreensão. Tentaria aproveitar mais essas forças que já tive e que agora não tenho. Mas, neste momento da minha vida, agradeço a Deus a oportunidade desses anos todos, que têm sido tempo de graça para mim.

Entre as várias situações vividas nesses anos todos, o que citaria como fato
pitoresco que o senhor recorda?

Fatos pitorescos aconteceram muitos, mas eu recordo em particular um, porque é uma grande lição. Na Serra Nova, à casa do posseiro Lulu, estando ele preso pela repressão, cheguei sem prévio aviso, depois de andar vários quilômetros, várias léguas a cavalo. Ao chegar à casa, estavam lá as crianças e a maiorzinha disse: "Se soubéssemos que teria vindo um bispo teríamos feito um outro almoço". Só tinha arroz branco e banana. A pequena Eva, de sete anos, disse: "Ué, bispo não é mais melhor do que nós!". Essa foi uma lição nova, para tomar nota eu e todos os bispos deste mundo. Não somos "mais melhores" do que ninguém.

Fazendo uma reflexão a respeito da atuação da Igreja, por que há tantas
diferenças dentro dela mesma?


Nossa Senhora Santuário dos Mártires - São Félix do Araguaia

Há muitas Igrejas. Quer dizer, cada uma, a seu modo, é a "Igreja". Fundamentalmente, o desafio da Igreja seria o seguinte: viver o Evangelho ou gritar o Evangelho com a vida, como dizia Carlos de Foucauld, o pai das irmãzinhas de Jesus, que agora, inclusive, estão celebrando os 50 anos de chegada ao povo tapirapé e à América Latina. Gritar, viver, testemunhar o Evangelho, inculturando-se nos diferentes povos, nas diferentes culturas, nas diferentes circunstâncias, nas diferentes épocas e sempre a partir da opção pelos pobres. Uma Igreja que não está assim para os pobres, não seria mais a Igreja de Jesus Cristo.

E se pára para perguntar: "E os ricos?". Os ricos têm que fazer como Zaqueu. Subir à figueira e, convidados por Jesus, devolver o que têm roubado e dar esmolas até ficarem num nível de certa igualdade fraterna. Porque a vontade do Pai só pode ser esta: que todos os seus filhos e filhas sejam mais ou menos iguais. Numa certa ocasião, perguntei a um posseiro na Ilha do Bananal, com nove filhos, comentando o Pai Nosso, na celebração: "O que você quer para os seus filhos?" Ele respondeu: "Olha padre, mais ou menos para todos". Esse "mais ou menos" é certamente o querer de Deus e deveria ser o critério da sociedade humana: suprimir esses desníveis escandalosos. Devemos partir para certa igualdade de oportunidades, de possibilidades de bens.

O senhor é reconhecido no mundo todo, tendo recebido centenas de homenagens e títulos. Se isso não o envaidece, qual é então o título que mais lhe agrada?


Casa de Dom Pedro Casaldáliga

Ser chamado de Pedro. Numa celebração que eu fiz há poucos dias, aproximou-se uma menina de uns sete, oito anos, eu estava perto do presépio e falou: " Posso chamá-lo de vô?". Me deixou muito comovido. O carinho do povo, a amizade dos militantes, cartas de gente desconhecida que chegam e que dizem que nosso pequeno testemunho estimula: tudo isso ajuda muito. Em última instância, é fundamental saber que conto com a misericórdia de Deus.

Quantas correspondências o senhor recebe por semana?

Recebo muitas cartas. Quando não respondo pessoalmente, respondo através de uma circular, acrescentando umas palavras. Porém, utilizo mais o correio eletrônico. Algumas vezes eu achava que iria receber cartas de mais e fui compreendendo que a correspondência é uma das pastorais que eu posso fazer. Uma palavra pessoal toca muito mais do que um sermão de uma hora e meia. E tem cartas comoventes, de pessoas às vezes desesperadas ou de estrangeiros, muito sensíveis. E de muitos jovens, que afirmam que o meu trabalho, meus escritos, a minha postura, despertaram neles a vocação, inclusive a vocação religiosa, sacerdotal ou militante.

Com 75 anos de vida e muita história para contar, qual é a mensagem
que o senhor deixa para os jovens?

Que continuem sendo jovens. Que façam da juventude esperança, força, doação, sonho. Que não caduquem antes da hora, corporalmente e espiritualmente. Em segundo lugar, que saibam abraçar as causas maiores, as causas da justiça, da libertação, da ecologia, da política e da paz. Em terceiro lugar, que se apaixonem por Jesus Cristo, sua palavra, sua vida, sua morte e sua ressurreição. Não esqueçam, dizia um famoso poeta francês convertido, Paul Claudel, que "a vida de uma pessoa acaba sendo aquilo que se sonhou na juventude". Quem não sonha alto na juventude, dificilmente vai ter uma vida generosa, uma vida que valha a pena. É a hora de definir a vida, definitivamente. Poderá ter tropeços, perder o caminho, perder-se de vez em quando, mas se sonhou alto, encontrará o caminho de novo.

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