Revista "MUNDO e MISSÃO"
Testemunhos da Vida Missionária
por Alberto Garuti
Os antepassados por parte de pai foram vítimas de numerosas perseguições, de 1698 a 1885. Era sobrinho de Ngo Dinh Diem, primeiro presidente da República do Vietnã do Sul e que, em 1963, foi demitido durante um golpe de Estado por alguns generais, porque não era muito favorável aos americanos. Esse tio foi sempre considerado como um padre espiritual por François. Dele aprendeu, de um lado, em que consistia de fato a ameaça comunista, e de outro lado, que o Vietnã não poderia sobreviver contando somente com o apoio de potências estrangeiras, como foi o caso da França, antes, e dos Estados Unidos, depois. A mãe, Elisabeth, toda noite lhe repetia as histórias bíblicas e lhe contava os testemunhos dos mártires. Quando ele foi preso, ela continuou rezando para que o filho continuasse sempre fiel à Igreja, perdoando seus perseguidores. Foi ordenado sacerdote em 1953, completou seus estudos teológicos em Roma e foi professor e reitor do seminário de Huê. Foi muito ativo e estimado: sob sua direção, o número de seminaristas triplicou, de 42 a 147, em oito anos. Em 1967, foi nomeado bispo de Nha Trang. Eram os anos mais duros da guerra: todos já imaginavam o desfecho. Ele entendeu que a Igreja deveria estar preparada para um período de dificuldades, talvez de perseguições, como de fato aconteceu. Para isso cuidou muito da formação dos leigos e se empenhou muito na pastoral vocacional. Em 1975, quando os comunistas se estavam aproximando de sua diocese, pediu e conseguiu do delegado apostólico a permissão para ordenar sacerdotes todos os seminaristas de teologia. Justamente quando estavam chegando o fim da guerra e a ocupação do Vietnã do Sul por parte dos comunistas do Norte, foi nomeado arcebispo coadjutor de Saigon, a futura Cidade de Ho Chi Minh.
Paulo VI o escolheu pela coragem e pela dedicação com que dirigiu o Corev, o departamento da conferência episcopal para ajuda e assistência aos refugiados. Ao mesmo tempo, os comunistas também perceberam o valor desse sobrinho do antigo presidente e decidiram que ele nunca deveria tomar posse como arcebispo da capital. Tão logo o regime comunista chegou a Saigon, disseram que sua nomeação tinha sido uma conspiração entre o Vaticano e os imperialistas. Em 15 de agosto de 1975, foi condenado à prisão em Cay Vong. Diríamos que foi justamente durante a prisão que o zelo a o amor por seus cristãos aumentou e purificou-se. Nunca se deixou dominar pelo desconforto e pelo desânimo. Dois meses depois, começou a escrever mensagens para a comunidade cristã que foram reunidas num livro. A história desse livro tem algo de cinematográfico. Um menino de sete anos, Quang, ia freqüentemente visitar o arcebispo na prisão e lhe levava pequenos pedaços de papel, como que folhinhas de um calendário. No verso deles, dom François escrevia suas mensagens. O mesmo menino as levava para casa, onde os irmãos as copiavam e as difundiam. Essas mensagens circularam clandestinamente entre os católicos vietnamitas, foram reunidas no livro “O caminho da esperança”, que foi traduzido e publicado também no exterior. Oito meses depois, começou o período mais duro na prisão. Ele teve que mudar para o campo de Phu Khanh, onde conheceu o isolamento total. Vivia fechado, sozinho, numa cela úmida, sem janelas, com somente uma lâmpada que era acesa ou apagada, conforme a vontade dos guardas. Experimentou também a humilhação de ter o acesso ao banheiro negado, se os guardas assim quisessem. Foram oito meses durante os quais foi levado, de propósito, pelos algozes, à beira da loucura. A prisão seguinte foi um campo de concentração no Vietnã do Norte. Nesse campo conseguiu até rezar missa escondido. Obteve permissão para que os parentes lhe enviassem um remédio para distúrbios de estômago. No frasco, eles colocaram vinho. Alguns pedaços de pão velho ele guardou e conservou escondidos. A missa era celebrada derramando na palma da mão três gotas de água e uma de vinho. No presídio, ele conseguiu até criar pequenas comunidades cristãs que se reuniam para rezar e celebrar a Eucaristia. De noite, quando era possível, organizava turnos de adoração diante do Santíssimo, migalha de pão consagrada durante a missa e conservada no papel de um maço de cigarros. Ajuntou todos os pedaços de papel para fazer uma minúscula Bíblia pessoal. Neles escrevia todas as frases bíblicas de que se lembrava (mais de trezentas), que usava nos momentos de oração. Sua atitude de respeito e de delicadeza para com todos chamou a atenção dos guardas, a ponto de lhe pedirem que lhes ensinasse as línguas estrangeiras. Mais tarde, pediu a um carcereiro que lhe deixasse cortar um pedaço de madeira para formar uma cruz. Conseguiu a permissão, apesar do risco que o guarda estava correndo.
Em 1994, o papa nomeou-o vice-presidente do Pontifício Conselho Justiça e Paz, e, quatro anos depois, seu presidente. Em 2000, foi convidado a pregar o retiro da quaresma ao papa e à cúria romana. No fim do retiro, João Paulo II comentou: “Ele nos contou vários fatos e acontecimentos de seu sofrido cativeiro, e fortaleceu nossa fé que deve se manter quando tudo parece desmoronar em volta de nós e mesmo dentro de nós: Cristo continua sendo nosso sustento e nossa força”. Em 2001, foi nomeado cardeal e, em 16 de setembro de 2002, faleceu em Roma. |
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