Revista "MUNDO e MISSÃO"

Testemunhos da Vida Missionária

Ir. Carlos Carreto:
O homem que veio do deserto

Extraordinário animador de jovens da Ação Católica, deixa tudo para retirar-se no deserto com os “pequenos Irmãos” de Charles de Foucauld. Ao retornar, cria a ermida de Spello e se transforma na consciência crítica de uma geração.

Gianni Gennari

Carlos Carretto: um nome, uma história. Morreu há dezesseis anos, mas sua lembrança não morre.Comoveu multidões e, no entanto, viveu longos anos em total solidão. Foi profusamente admirado por milhares, no entanto ficou como que eliminado por longo tempo, também pela Igreja, à qual doou toda a sua vida. Foi um homem de ação como poucos, no entanto também um mestre da contemplação. Vivia ambas as posições de maneira tão radical, como se fossem irreconciliáveis, um misto de realidades que pareciam, e ainda parecem, opostas: leigo e também religioso; místico solitário e agitador de multidões; retraído e, ao mesmo tempo, expansivo; oculto e agitado. Sempre.

Nos confins da Sardenha

Nasce em 1910, em Alexandria, de família camponesa prestes a se transferir a Turim. Freqüenta os Salesianos e a Ação Católica. Forma-se em História e Filosofia, mas prefere ser professor primário. Incomoda-se com o fascismo que triunfa e, em 1940, é enviado à Sardenha, como diretor pedagógico. Mas logo o retiram de lá, como agitador antifascista, perigoso. Após ficar em prisão domiciliar, é transferido ao Piemonte, onde, com alguns amigos, começa a preparar os tempos novos.


"O visível nos faz esquecer o invisível"
(Carlos Carreto)

Em 1945, após o fim da guerra, Pio XII o chama a Roma, para orientar os professores católicos. É um furacão. Um ano depois, é presidente geral dos jovens da Ação Católica e se revela um líder formidável. É sua, em 1948, a famosa reunião dos Boinas Verdes: 300 mil jovens na praça de São Pedro, às ordens do Papa. Tempos difíceis, de eleições na Itália e de contrastes mundiais causados pela guerra fria que dividia o mundo... Um sucesso fulgurante.

Poderia ficar satisfeito, mas não fica: exige coerência com as promessas e valores anunciados. Também dentro de sua Igreja aparecem as dificuldades: chamam-no de sonhador, ingênuo, otimista exagerado... Fala como vive, detesta os meio-termos e então se choca com as escolhas políticas palacianas, antes de tudo, mas também com certos conchavos eclesiásticos. Ei-lo denunciando aquelas coisas que lhe pareciam incoerentes e retrógradas. No aspecto político, opõe-se à famosa “operação Sturzo” (Sturzo fundou o partido italiano Democracia Cristã), e o rumor cresce, suscitando discordâncias e criando as condições para seu afastamento da Ação Católica.

Nesse meio tempo reflete e escreve livros. No livro “Família, Pequena Igreja” propõe aos esposos cristãos um duplo genuflexório, no quarto de dormir, para rezarem juntos. Foi um escândalo: onde já se viu cama e genuflexório! É a gota d’água que faz transbordar o copo, porque caçam-no, com uma porção de seus jovens, que depois fariam grandes carreiras na sociedade, entre os quais Mario Rossi e Umberto Eco. Ele não se desencoraja e continua a pregar e a investigar. No intervalo, encontra Giorgio La Pira e outros renomados expoentes e, por nove anos, duros e sofridos, sem nenhum encargo, pensa em um novo futuro.

Na Argélia com os “Pequenos Irmãos”

Em 1954, Carlo parte para a Argélia e fica com os “pequenos Irmãos” de Charles de Foucauld. Foram dez anos de eremita em uma tenda no deserto do Saara. Da multidão para a solidão total, que ele narra em tantos livros, como no Cartas do Deserto. Mas ele não fica lá, enclausurado no silêncio e na obscuridade. Reza e escreve, e as suas páginas cativam: uma fé total, clamada sem medo, mas sem jamais ofender quem não a tem, completa e simples, intelectual e culta, mas também entusiasta e quase infantil, articulada e essencial, de um apaixonado louco por Deus e pelos homens...

O amor transborda nos livros. Em 1964, também aconselhado por ilustres amigos que haviam feito carreira, não apenas na sociedade, mas também na Igreja – provavelmente entre eles estava Giovanni Battista Montini, futuro Papa Paulo VI – volta à Itália e funda uma comunidade em Spello, próximo de Assis: medita e escreve, descreve São Francisco e os seus. Acompanha com entusiasmo as esplêndidas chamas do Concílio, o sopro do Espírito que move a Igreja e o mundo. Sua ermida em Spello se parece com a casa de todos os que procuram a Deus e ao homem. Mas lá também está o sonhador que exige limpeza e coerência.

Em 1974, na época do referendo sobre o divórcio, uma de suas cartas provoca escândalo na “Stampa” de Turim, por manifestar o seu “não!” à anulação da lei que institucionaliza o divórcio. Crê, firmemente, na indissolubilidade do sacramento, mas não a retém mais tributável pela lei civil. Compreende-a como escolha a uma fidelidade à doutrina e também de respeito e de tolerância. É uma confusão: novamente sobre um braseiro, apontado como escândalo e profanador. Pede publicamente perdão pelo escândalo, mas não se retrata.

Permanece na sua ermida, com muitos irmãos e viajantes fatigados, que o procuram e sempre o encontram sereno, feliz, transbordante de entusiasmo e de sonhos. Para ele, os sonhos de Deus, sem exceção, devem ser também os dos homens. Devem valer também para a Igreja, que é seu amor central, e, por isso ele assim se manifesta: “quanto mais és contestada, Igreja, mais eu te amo! Fez-me sofrer, porém quanto te devo! Causou-me tanto escândalo, no entanto fez-me entender a santidade!

Nada vi no mundo de mais obscurantista e mais comprometido, mas nada encontrei de mais puro, de mais generoso, de mais belo...” Assim foi até os últimos anos, a acolher todos, a amar sem limites, com os defeitos comuns a todos, mas com toda a força que vem de Deus, nos ambientes de Francisco de Assis. Sempre isolado: amado, admirado, criticado, rejeitado, um incômodo até o fim. Morre em 4 de outubro de 1988, no dia da festa e da morte de Francisco de Assis, a quem dedicou vários de seus livros.

Não repousa em paz, por certo: lá de cima ainda apronta uma por dia. Agora está na companhia do Pai, do Filho e do Espírito Santo, na companhia que, em vida, indicou e apresentou a tantos, mestre de oração, de liberdade, de suave intransigência, sem exceções, especialmente a si mesmo. E suas obras continuam a encantar, antecipando em décadas, os problemas que ainda hoje nos angustiam, e oferecendo uma única estrada: o caminho do Evangelho.

Messaggero di Sant’Antonio

Precisamos
aprender a amar

Em geral, somos sufocados pelo egoísmo e a tristeza que existe em nós é devida a esta incapacidade de nos doarmos sem reserva.

A dificuldade de amar é devida à nossa fraqueza, uma verdadeira inversão de valores e uma desordem radical, como se o reino estivesse dentro de nós. Somos criaturas e nos consideramos criadores. Somos irmãos e queremos ser patrões.

Somos feitos para a liberdade e nos tornamos escravos de nós mesmos. Com efeito, não é nada fácil amar com uma cabeça como a nossa, com um coração como o nosso, com uma sensualidade como a nossa. De fato, não amamos e, não amando, sentimo-nos perdidos. Não procuremos alcançar a Deus com a inteligência: jamais o conseguiríamos. Alcancemo-lo com o amor: isso é possível.

(Pai, em vossas mãos eu me abandono. Ed. Paulinas, 1975)

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