Revista "MUNDO e MISSÃO"
Testemunhos da Vida Missionária
|
Crescimento econômico e repressão Continua a entrevista com pe. Valnei Pedro Reghelin, brasileiro, missionário em Macau. Agora nos fala sobre o que está acontecendo no interior da China por Alberto Garuti Acha que o governo central está interferindo na administração de Hong Kong e Macau, apesar do tratado com Portugal e Inglaterra, pelo qual, durante 50 anos, se reconhecia uma certa autonomia às duas cidades? - Em Hong Kong pode-se ver que o governo central está começando a controlar as decisões tomadas pelo governo da cidade. Refiro-me à questão dos imigrantes que vêm da China e querem ficar em Hong Kong. Quem, por exemplo, mora no interior da China e tem pais em Hong Kong, teria o direito de emigrar para lá. O governo da cidade deu a várias pessoas que se enquadram nessa categoria o direito de cidadania, mas o governo central não aceitou e interferiu nessas decisões. Também foi bastante cortada a liberdade dos jornalistas. Quanto à Igreja, houve interferências, por exemplo, na organização do currículo das escolas católicas. Veja também o que fizeram com o bispo de Hong Kong. Ele é chinês, do interior da China mesmo, mas lhe foi tirada a permissão de entrar no continente, por ser uma pessoa que fala abertamente, que não tem medo de dizer o que pensa. Será que o atual sistema político chinês, que de marxista só tem o nome, vai conseguir durar muito tempo? - Penso que uma mudança muito grande irá acontecer, mas não a curto prazo. Não é de um dia para o outro que irá cair a muralha da China. É verdade que o capitalismo está entrando, influenciando muito o modo de pensar e minando por baixo tudo o que restou do marxismo nesse país. Contudo, será necessário tempo. Se houver mudanças importantes, só serão feitas pela próxima geração de governantes. Portanto, penso em 15 a 20 anos, pois os que estão no comando agora não vão deixar que aconteça mudança alguma. Há alguns sinais de que esse poder já está começando a se desagregar? - O próprio capitalismo, que entrou em cheio na economia chinesa, está ameaçando a continuação do sistema político vigente. Nas grandes cidades, estão aparecendo os shopping centers só para as classes ricas, que ainda são minoria. Estão aparecendo carros de todos os tipos, mas não são para os operários. Eles só podem comprar uma bicicleta, quando conseguem. Há milhares de bicicletas fora das fábricas. Como é o problema da moradia nessas grandes cidades?
- Quem vê o centro de Pequim ou de Xangai, vê edifícios moderníssimos, até de 50 andares, vê estradas muito largas e viadutos: tem a impressão de estar numa cidade bem desenvolvida. Mas, bem perto dali, existem cortiços. Essas construções estão sendo demolidas para construir novos prédios. Em Pequim, por exemplo, já estão construindo a Vila Olímpica para os jogos de 2008. Essas casas novas e esses prédios não estão ao alcance da gente pobre que está sendo afastada cada vez mais para longe da cidade. Em sua maioria, esses apartamentos novos são para estrangeiros, executivos das multinacionais que se instalaram lá. Então, o povo entra em contato com pessoas que podem desfrutar de tantos bens e se pergunta: "E por que eu não posso?". Você disse que a grande massa não tem acesso à maioria dos meios e bens de consumo. Afinal, o operário ganha para poder viver ou ganha salário de fome? - Ganha para poder sobreviver. Satisfeitas as necessidades básicas, não sobra nada. Um operário não pode nem pensar que seu filho, um dia, entre na faculdade. A maioria dos empregos é só para a sobrevivência. Não existe, então, a possibilidade que, em certo momento, a raiva do povo possa explodir? - Existe, apesar da tendência inata do chinês a respeitar as autoridades. O governo sabe e tem medo de que isso possa acontecer. Por isso, eles estão de olho em todo grupo ou movimento que tenha possibilidade de reunir certo número de pessoas, como as religiões. Têm medo daqueles que têm poder de reunir as pessoas e fazer com que elas possam ter um pensamento crítico e abrir os olhos para a realidade. Recebemos notícias do interior da China, afirmando que todo protesto de trabalhadores nas fábricas é logo debelado e que os organizadores são presos e quase sempre desaparecem. Em seguida, controlam que a notícia desses protestos não seja divulgada na mídia. Até que ponto é possível evitar a saída de notícias, hoje, na era da internet? - É possível, porque há quem controla os sites, e se alguém acessa com freqüência certo tipo de sites, eles caem em cima. Então, qual é realmente a possibilidade de existência das religiões na China? - Oficialmente, o governo diz que há liberdade religiosa e, internacionalmente, não pode ser criticado. A liberdade religiosa está sacramentada na Constituição. As religiões são permitidas, desde que aprovadas pelo governo. No caso da Igreja católica, e só para os da Igreja patriótica: só missa, catecismo e outras reuniões, mas somente dentro da igreja, onde há sempre olheiros do governo que vêem e ouvem tudo. Agora estão começando a permitir ações de ajuda para as pessoas necessitadas fora das igrejas, porque esse é um meio para receber ajuda do exterior. Essa política do governo criou um grande problema para a Igreja católica na China: a divisão entre Igreja patriótica e Igreja clandestina. E esse problema, com o passar do tempo, está se tornando cada vez maior. As duas já não se entendem e se um dia houver liberdade total para as religiões na China, vai ser difícil costurar a união de ambas. Qual o motivo dessa divisão tão forte? - O motivo principal é que muitos cristãos da Igreja clandestina, especialmente os mais idosos, foram colocados nas prisões, condenados aos trabalhos forçados ou torturados, porque disseram que queriam permanecer fiéis à Igreja católica e ao papa. Os da patriótica aceitaram as orientações do governo por vários motivos, especialmente por medo e para evitar perseguições. É verdade que quando você vai a uma missa numa igreja patriótica, tem a impressão de que não há diferença nenhuma entre as duas. A única diferença é que os bispos da patriótica são escolhidos e nomeados pelo governo. Li numa estatística que o cristianismo está crescendo muito mais agora que durante o tempo em que os missionários estavam presentes. - É verdade. Antes de Mao Tse Tung, os católicos não passavam de três milhões, agora podemos dizer que só os da Igreja clandestina são cerca de 10 milhões e com os da patriótica chega-se a 15. Pelas informações, a clandestina continua crescendo muito mais que a outra. Mas o protestantismo está crescendo mais ainda. Pelo fato de serem divididos em muitas confissões ou seitas, de não estarem ligados a uma entidade estrangeira (o Vaticano, como no caso dos católicos), são vistos pelo governo como menos perigosos e têm um pouco mais de liberdade. O que ficou depois da queda da ideologia? - Os chineses sempre tiveram uma forte necessidade do espiritual, do religioso. Essa necessidade foi anulada pelo comunismo, não restou mais nada. Ficou um vazio. Muitos, hoje, conseguem encher esse vazio através do cristianismo. Estamos num momento muito especial para a Igreja e, agora, mais que as obras, é muito importante o testemunho de vida que dão os cristãos. |
Visite
as outras páginas
[P.I.M.E.] [MUNDO e MISSÃO]
[MISSÃO JOVEM] [P.I.M.E.
- Missio] [Noticias] [Seminários]
[Animação] [Biblioteca]
[Links]