Revista "MUNDO e MISSÃO"
Testemunhos da Vida Missionária
Dom Song, nascido em Xangai, chegou a ser bispo no Brasil. Como aconteceu e qual foi a caminhada para chegar até a Amazônia?
Para essa decisão, meus pais renunciaram a todos os bens materiais que não eram poucos. Em Hong Kong, meu pai continuou trabalhando com os jesuítas, traduzindo livros. E eu continuei aluno deles. Meu sonho de também ser, um dia, jesuíta mudou o rumo, porque fiquei doente e tive que parar os estudos. No ano seguinte, mudei para uma escola salesiana e Dom Bosco me fisgou. Estive num seminário menor salesiano por 4 anos. Mas meu pai, que enxergava longe, dizia: "Hong Kong deixará de ser colônia inglesa. Temos que mudar para um país católico". E escolheu o Brasil. Naquele ano, 1959, eu queria ficar em Hong Kong. "Meu ideal é ser missionário na China e um dia voltar para Xangai", disse ao meu pai. Deus me ajudou a resolver o dilema, enviando um mensageiro.
Naquela ocasião, eu pedi uma audiência a dom Fedrigotti, vice-geral da Congregação Salesiana e: "Senhor padre, meus pais estão indo para o Brasil e eu quero ficar na China. O que eu faço?" "Eh, meu filho, siga a família. Vá ao Brasil!" Segui e vim para São Paulo. No noviciado, fiz um pedido aos superiores da Itália: "Quero ser missionário no Amazonas". O pedido foi arquivado por 40 anos. O Espírito Santo cochilou e eu fiquei bispo. Um ano e dois meses atrás, vim para a maior diocese do mundo, em extensão, quase 300 mil km2: São Gabriel da Cachoeira, Rio Negro, Amazonas. O senhor é salesiano. Quais foram os motivos de sua vocação e de sua escolha? - É muito boa essa pergunta. Pela lógica, eu deveria ser jesuíta. Meu pai sempre colaborou com os jesuítas. E eu sempre fui aluno dos jesuítas. Entrei na Congregação Salesiana, porque esta é a vocação de Deus. A escola salesiana de Hong Kong, que completou 50 anos de fundação no ano passado, certamente foi um dos motivos. Vi, naquela casa, um modo simpático de ser cristão. Senti, naquela casa, o clima atraente de paz e harmonia. Vivi, naquela casa, um espírito encantador de família. Além disso, meu nome, Sui Wan, em chinês, significa 'nuvem feliz'. Sou muito alegre. Gosto de música. Song, em inglês, quer dizer 'canção'. Toco instrumentos musicais. Faço mágicas. Gosto de contar histórias. Adoro brincadeiras. Sempre pratiquei esporte. Quando conheci Dom Bosco, logo me identifiquei com ele. Disse a Deus: "Quero ser um dom Bosco com cara de chinês para as crianças, os jovens e o povo". E Deus atendeu o meu pedido. Como salesiano, fiz uma coisa um pouco estranha: no ano passado, participei, como bispo novo, da visita "ad limina" ao papa. No último dia, houve o almoço com ele. Como o secretário nos preveniu que o papa estava cansado e doente e nos pediu para animá-lo, não tive dúvida. Improvisei três mágicas para o papa, toquei, numa gaitinha de 4 furos, o hino pontifício. Sabe que o papa gostou, riu bastante, aplaudiu e sempre pedia bis. Este foi um dos dias mais felizes de minha vida: fiz o papa rir! Como bispo num lugar missionário do Norte do Brasil, mas chinês, está encontrando dificuldades de inserção ou a experiência é positiva? Também para a Igreja local? - Não canso de agradecer a Deus por me ter dado muitas graças. De fato, carrego comigo muita riqueza e muitos valores do Oriente, mas, desde pequeno, fui formado pela religião com outros valores do Ocidente. Xangai, Hong Kong, São Paulo e São Gabriel foram quatro pontos cardeais que me proporcionaram uma integração muito harmoniosa. A "sabedoria" da Ásia e a "ciência" da América provocaram em mim um perfeito casamento. Antes de vir para cá, como sacerdote, eu me oferecia como voluntário. E trabalhei, desde 1988, sempre nas férias escolares, nesta diocese, em diversas missões. Por isso, o famoso "choque cultural" não foi tão grande. No dia 26 de maio do ano passado, quando tomei posse, brincando, dizia ao povo: "Como podem ver, entre nós não há muita diferença. Olhem para meus olhos e os seus, não somos parentes?". É claro que não é fácil trabalhar com 23 etnias, com 23 línguas diversas na nossa Diocese de São Gabriel. Por isso, sempre recordo os dois episódios da Bíblia: Torre de Babel e Pentecostes. Com o orgulho, entrou a confusão de línguas, com o amor começou a compreensão, harmonia, paz. Em muitos lugares eu não sou compreendido e não compreendo o que o povo fala. Então, uso minhas brincadeiras, mágicas e músicas que têm linguagem universal para fazer o povo feliz. Tenho convicção de que o provérbio chinês tem muita razão: "Antes de abrir uma loja, aprenda a sorrir". Tenho a impressão de que, às vezes, nós, que pregamos a ressurreição de Jesus e a esperança do Amor, carregamos um rosto sério. Como posso "vender" a felicidade de Deus, se eu não sei sorrir? Está na hora de fazer uma grande "mudança de hábito", não acha? Poderia descrever, em grandes linhas, os seus planos e trabalho no Amazonas? - Aprendi uma coisa como salesiano: o diretor novo, no começo, não deve falar muito nem mudar muito. Ele deve observar, ouvir e sentir. Estou no começo do trabalho, não tracei grandes linhas, nem elaborei grandes planos. Pretendo trabalhar com os meus ouvidos, olhos e o coração. Por isso, fazem parte essencial dos meus trabalhos as visitas pastorais a todas as comunidades paroquiais. Realmente, as distâncias quilométricas me assustam. Entre as comunidades não há estradas de rodagem. Tudo pelo rio. Nessas viagens, me lembro sempre dos filmes de aventura a que assisti, tipo Indiana Jones. Cachoeiras, barcos, cobras, florestas já fazem parte do meu dia-a-dia. Além disso, faço visitas domiciliares. Sempre aos domingos, vou visitar as famílias. Casa por casa, rua por rua, vou vasculhando. Converso com o povo, ouço seus anseios, brinco com os velhinhos, abençôo os doentes e as famílias. Alguns números de mágicas fazem parte também do programa dessas visitas. Não me julgo o salvador da pátria, por isso pretendo dar continuidade aos trabalhos iniciados pelos meus predecessores. Naturalmente, inculturação, formação de lideranças, vocação, catequese de adultos e famílias são as nossas preocupações básicas. E o combate ao alcoolismo é uma das prioridades urgentes. |
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