Revista "MUNDO e MISSÃO"
Testemunhos da Vida Missionária
Quando devia percorrer sozinho, de moto ou a pé, longos trechos para visitar sua gente das etnias lahu e akha. “Hoje – explica – não apenas esse povo pode ir à cidade. Mas a própria cidade vai até ele, em busca de seus produtos típicos. Enfim, existem muitos contatos. Inevitavelmente, a cidade traz o materialismo e o consumismo. A população local agora pensa essencialmente em se enriquecer. Trabalha na cidade ou para lá envia seus filhos. O fenômeno é relativamente recente. Quando não havia as estradas, as tribos viviam nas aldeias. Aqui se casavam e todos se ocupavam com a mesma atividade agrícola. Era um trabalho difícil que, às vezes, dava frutos insignificantes por causa das adversidades atmosféricas, carência de adubo, irrigação quase inexistente em terreno impenetrável ou invasão de insetos e roedores. É óbvio que a cidade oferece maiores oportunidades. Se lá alguém encontra trabalho, todo mês tem um salário assegurado, por menor que seja”.
O MISSIONÁRIO Nascido em Monza, Itália, em uma família de cinco filhos, Pe. Giovanni ficou órfão de pai quando tinha cinco anos e meio. Relembra que a vocação nasceu-lhe no coração sem que nenhum adulto interferisse. Um dia, procurou um jovem missionário do PIME que prestava serviço pastoral em sua paróquia e perguntou-lhe: “Para eu ser como você, o que devo fazer?”. Pouco tempo depois, em setembro de 1940, entrou no seminário. Diz que a certeza moral de ser movido pelo Espírito Santo, e de mais ninguém, foi de grande ajuda nos momentos mais difíceis de sua vida missionária. Sacerdote desde 1953, Zimbaldi foi destinado a Kengtung, na antiga Birmânia, onde chegou em 1958. Naquela missão permaneceu durante oito anos, trabalhando entre os lahu, até que o governo birmanês suspendeu a renovação dos vistos anuais de todos os estrangeiros e ele, como tantos outros missionários, precisou abandonar o país. Por conhecer a cultura e a língua lahu, os superiores do PIME propuseram-lhe, em 1972, que fizesse parte do primeiro grupinho destinado à nova missão na Tailândia. O bispo de Chiang Mai, que o acolheria em sua diocese, pedira um Pe. para a pastoral da etnia lahu. Giovanni aceitou o convite. Um ano depois, chegou à Tailândia e se estabeleceu em Fang, pequena cidade “a três horas de carro de Chiang Mai, por uma estrada sinuosa”. Fang é a localidade mais próxima do seu campo de ação: uma aldeia com 85 lahu e outros nativos, que logo lhe pediram o batismo. Pouco tempo após se estabelecer em uma deteriorada casa de madeira, adquirida pela diocese quinze anos antes e depois abandonada, Pe. Giovanni sentiu que devia responder ao apelo dos lahu para que fizesse algo pela educação dos jovens. Então comprou, por preço baixo, uma casa vizinha, que ninguém queria, pois fora palco de um homicídio. Ampliou sua residência e acolheu aí uns quinze rapazes e moças que, em seguida, passaram a freqüentar as escolas próximas. O pequeno núcleo transformou-se em hospedaria para duzentos estudantes. A igreja deixou de ser uma simples barraca, para transformar-se em bela e arejada construção em alvenaria, com presbitério ornamentado com esculturas lígneas policromadas, que reproduzem cenas bíblicas. APOSTOLADO Pe. Zimbaldi diz: “A preocupação atual é instruir melhor as pessoas. A gente pede que um catequista visite as aldeias com maior freqüência e fique lá por três ou quatro dias para dar instruções específicas, preparar as pessoas ao batismo, à crisma ou ao casamento”. E continua: “Aqui é preciso distinguir entre catequista e responsável religioso, que em inglês se chama prayer leader. Todas as aldeias têm o responsável religioso, que dirige a oração dominical, lê a Bíblia e, conforme sua capacidade, explica-a. Se há um doente na comunidade, ele vai visitá-lo, vai rezar por ele. Quando morre alguém, ele preside o funeral. A preparação do prayer leader, porém, é relativa. Sabe ler na sua própria língua e pouco mais que isso. Os catequistas, ao invés, recebem formação especial. Freqüentaram um curso de catequese de um ou dois anos (tanto em Kengtung, como aqui na Tailândia). Os prayer leader não são remunerados pela diocese. É a aldeia que reconhece o seu trabalho e os recompensa. Cada família paga três medidas de arroz (cerca de 20 litros) por ano, ou três dias de trabalho gratuito. Eu, da minha parte, dou-lhes pequena ajuda duas vezes por ano. Aqui em casa temos dois catequistas em tempo integral, regularmente assalariados, enquanto outros – retribuídos conforme o serviço prestado – vivem em áreas mais isoladas, nas aldeias. Convoco todas essas pessoas, de dois em dois meses, para dois dias de formação. Estabeleço meditações e instruções a respeito dos sacramentos, do Credo e da Bíblia. Confesso. Celebro a Missa. Uma vez por ano, em dezembro, eles fazem três dias de retiro”. À ESPERA DO SUCESSOR A área da missão de Fang já faz anos que está dividida: - uma parte pertence à missão de Mae Suay. No território que lhe resta, Zimbaldi acompanha cerca de quarenta localidades: - são aldeias de conversão recente. Em algumas, iniciam-se também projetos de desenvolvimento ligados ao comércio justo e solidário (movimento alternativo ao mercado para a difusão e venda no Primeiro Mundo de produtos do Terceiro Mundo). A iniciativa ganhou o nome de “Mãos Que Ajudam” (Helping Hands). Após décadas de trabalho, Pe. Giovanni faz a conta das vantagens e desvantagens: “Quantas pessoas conheceram o Senhor! Dos jovens que acompanhamos nos estudos surgiram mecânicos, eletricistas, motoristas, mas também muitos catequistas e dois sacerdotes. Alguns são os líderes nas aldeias, ou ocupam funções e cargos importantes. Em julho do ano passado, completei 75 anos de idade e apresentei minha demissão, como prescreve o Código do Direito Canônico. Eu pensava que poderia usufruir um pouco de descanso. Ora, depois de trinta anos por aqui é hora de mudar alguma coisa. O Pe. Sandro Bordignon, que estava comigo já fazia um ano, preparava-se para me suceder. Porém, em junho de 2004, morreu em acidente rodoviário e continuei no meu cargo. Estou esperando o sucessor. Os superiores pediram-me paciência e continuam a adiar a vinda dele. Talvez ele venha lá pelo fim do ano”. Uma viagem pela Tailândia Pedro Miskalo Situada no sudeste da Ásia, a Tailândia (que significa “País dos homens livres”) possui 513.115 km2 (é menor do que o estado da Bahia) com mais de 65 milhões de habitantes. O país se divide em regiões distintas: - o norte é montanhoso; o nordeste é um planalto verdejante, onde floresceu uma civilização na Idade do Bronze há 5.000 anos; a região central é uma grande e fértil planície; o sul é uma extensa península de expressiva beleza natural. A Tailândia faz fronteira com Camboja, Laos, Mianmar e Malásia. A oeste e leste da península, as costas recebem as águas do Índico e do Pacífico, respectivamente. O clima é tropical, com temperatura média entre 20 e 37.º C. No país vigora uma monarquia parlamentarista. O país é independente há mais de seis séculos, antigamente com o nome de Sião. Dois rios irrigam a planície central, onde se cultiva o arroz, produto de exportação só superado pelas fibras têxteis. Nas montanhas do norte vivem os lahu e os akha, além dos grupos Pa Dong, das “mulheres-girafas”, conhecidas por usar, como colar, argolas de metal que lhes esticam o pescoço. • ETNIA LAHU:
Os Lahu e os Akha são originários da China. Habitam em algumas áreas montanhosas do Laos e de Mianmar, além da Tailândia. Os lahu (“caçadores de tigres”, em seu próprio idioma) são bons agricultores e excelentes caçadores. Suas vestimentas têm características próprias. As mulheres usam uma túnica negra, comprida, que vai até os pés, descalços. As bordas da gola, das mangas e das extremidades da túnica são enfeitadas com tiras coloridas de tecido e a parte do busto é adornada com “casinhas de abelhas” em vermelho e branco. Usam também calças negras e polainas. Um longo manto cobre-lhes a cabeça. As jovens enfeitam-se com pulseiras e brincos vistosos. Os homens vestem camisa e calças largas e um turbante ou gorro preto, com bordados vermelhos. As casas, construídas de bambu e madeira, têm dois andares:
- o de baixo é estábulo, o outro é residência. Os lahu recebem as visitas com o melhor de sua culinária. Suas manifestações folclóricas mais notáveis são a música e a dança, sempre coletiva. Nos dias festivos, a dança vai até o amanhecer. O lusheng, um instrumento de sopro, e o alaúde de três cordas são os instrumentos musicais preferidos. É através de músicas que os jovens expressam reciprocamente o seu amor. Quando, no bosque, um rapaz toca o lusheng para uma moça, se ela estiver interessada nele, responde tocando outro. Para casar-se, porém, a jovem trata primeiro de ver como trabalha seu pretendente. Se for bom trabalhador, será aceito. Há vários tipos de festa e casamento entre os lahu. Em geral, o jovem recém-casado vive e trabalha na casa do sogro por, pelo menos, 3 anos. BANGCOC: A capital da Tailândia (7.500.000 hab.) é uma selva urbana, um entrechoque de tradições milenares com tendências pós-modernas na arquitetura, na moda, nas relações comerciais. Mas as linhas luminosas (cor de ouro) e pontudas de seus palácios e templos budistas (85,3% dos tailandeses são budistas) dão-lhe um caráter mágico de lendária cidade oriental que resiste ao tempo. O aroma das flores e do incenso e o murmurar das preces de seus monges são os primeiros indícios da preservação do verdadeiro espírito tailandês. Os templos da Aurora, do Buda de Esmeralda, do Buda Dourado, o Palácio Real, atraem e fazem o turista ocidental sonhar. |
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