Revista "MUNDO e MISSÃO"
Testemunhos da Vida Missionária
Quando eu era criança, ouvira a avó falar de Jesus: ela dizia que ele era Deus. Mas não me interessava nenhuma religião. Na China, desde o Ensino Fundamental até a Universidade é obrigatória a educação ao ateísmo. Minha mente estava cheia de teorias atéias e eu pensava que crer em Deus era coisa fútil, um tanto estúpida. MILITANTE DO PARTIDO COMUNISTA CHINÊS No quarto ano da universidade filiei-me ao Partido. Na China, você se inscreve no PC um pouco por convicção, mas sobretudo porque se aproxima dos “amigos” que podem ajudá-lo a obter um trabalho, a sustentá-lo, se você estiver na pior. A vida na célula comunista não era nem boa, nem má. Mas perturbava-me que as pessoas tudo realizavam, até as coisas boas, apenas para fazer carreira. Era uma falsidade só: todos mentiam, sabiam que mentiam, mas continuavam a mentir. Eu fazia a mesma coisa. Fiquei doente e tinha sérios pesadelos. Uma noite, sonhei que encontrara um pacote. Eu o abri e dentro havia uma Bíblia, luminosa e esplendente. Acordei e me lembrei que só a minha avó tinha me falado da Bíblia. Ela dizia que Jesus é onipotente. Concluí: se ele é onipotente, que me livre da doença! Assim aconteceu. Ora, um comunista não pode ter religião. Por isso, comecei a freqüentar secretamente uma igreja protestante. O MEDO E OS MILAGRES Terminei os estudos e recebi o diploma. Graças ao PC, encontrei um bom trabalho em uma cidade grande. Antes de começar a trabalhar, consegui uma licença para visitar os meus, em outra região. No fim das férias, um amigo – que descobri ser católico – deu-me dez cassetes com os sermões de um sacerdote chinês. Ouvi a gravação. Comecei a pensar em Deus. Ao mesmo tempo, era assaltado pelas teorias sobre o ateísmo, estudadas na universidade. Fiquei angustiado porque, aceitando a fé católica, eu poderia perder o emprego. Pela primeira vez na vida, dirigi-me a Nossa Senhora: “Santa Maria – eu disse –, se você existe e se a fé católica é verdadeira, dê um sinal: amanhã, durante a viagem, faça acontecer uma coisa importante, talvez um acidente, do qual eu sobreviva, e assim acreditarei”. Agora penso que fora muito estúpido desafiar a Deus. Mas, na época, aquilo foi a única oração que me ocorreu. No dia seguinte, o ônibus saiu da estrada e tombou. Todos saíram pelas janelas em meio a escombros. Fiquei abalado, mas não dei atenção ao sinal. Prosseguimos, após horas de espera. Quando chegamos à estação ferroviária – devíamos também pegar o trem – era muito tarde e os bilhetes perderam a validade. Poderíamos validar o bilhete para três dias depois. Eu estava no fim de uma longa fila, então perdi a esperança. Não podia esperar, senão perderia o emprego. Apelei de novo para a Virgem: “Se você me ajudar de novo, juro que a seguirei!”. De repente, um homem ofereceu-me uma passagem. Comprei-a na hora e viajei. Era um sinal ínfimo, mas foi o primeiro passo da minha conversão. Comecei a trabalhar. Passei a freqüentar secretamente uma igreja católica. Lentamente, fui entendendo a fé e, por fim, pedi o batismo. TORNEI-ME CATÓLICO E ENCONTREI A PAZ Descobri uma comunidade de gente simples e boa, onde ninguém mentia. Verdadeiros amigos. Agora, eu não precisava mais mentir. Começava a ver a luz e a entender o sentido da vida. Para receber o batismo, precisei superar um grave obstáculo: minha filiação ao PC. O comunista é ateu; o cristão, não. Impossível ser católico e comunista ao mesmo tempo. Eu temia que, deixando o Partido, sofreria terríveis conseqüências: a perda do emprego, perseguições... Na China, o PC decide tudo. Ficar fora significa perder a tranqüilidade, sentir-se como estrangeiro. Há uma regra no PC chinês: todo membro deve contribuir mensalmente com uma quantia. Se não o fizer, por seis meses consecutivos, deve ser punido e até expulso do Partido. Já que eu não tinha coragem de sair publicamente, resolvi deixar de contribuir. Mas não deu certo: às escondidas, o responsável pela célula havia quitado minha dívida. Só me restava a saída oficial e, então, escrevi uma carta solicitando a saída do Partido. Por várias vezes, decidi entregá-la, mas, na hora H, retrocedia. A certo ponto, criei coragem. Entreguei a carta diretamente ao responsável pelo Partido. Ele ficou sem palavras: era a primeira vez que alguém abandonava o Partido. Finalmente pude receber o batismo. E comecei a desfrutar de uma profunda paz. A VIDA EM UM SEMINÁRIO CLANDESTINO
Continuei a freqüentar a missa, todo domingo, em uma comunidade clandestina, não reconhecida pelo governo. Um dia, uma irmã me perguntou: por que você não se torna padre? Respondi que não. A tradição chinesa diz que o filho primogênito, como é meu caso, deve sustentar os pais na sua velhice. Entrando no seminário, meus primeiros inimigos seriam os meus pais. Seis meses depois, enquanto rezava no quarto, sozinho, ouvi uma voz: “segue-me”. No íntimo, compreendi que Jesus me chamava. Fiquei apavorado: ser padre – e da Igreja clandestina – significava abandonar tudo, deixar a família, meter-me em situação de risco e de perigos, abraçar a cruz, o sofrimento, a prisão. Eu disse não. Mas, acabou-se minha paz, porque fiquei inquieto e triste. Eu não queria seguir a Jesus, porque continuava com um bom emprego, uma vida sossegada. Mas não consegui resistir àquele chamado. Consegui outro emprego em uma cidade distante. Assim, deixaria o emprego sem dar muito na vista e entraria no seminário. Trabalhei duro durante quase dois anos, poupando para deixar dinheiro aos meus pais e, finalmente, segui o chamado de Jesus. Passei cinco anos em um seminário da Igreja clandestina. A gente se levantava às cinco. Depois de meia hora de meditação, participávamos da Missa e das laudes. Depois do café, fazíamos a limpeza e então começava a jornada de estudo.
Dormíamos às 22 horas. Morávamos em uma casa no campo, cedida por um fiel. Quando nos víamos descobertos, fugíamos para outro lugar. Em cinco anos, mudamos três vezes de endereço. Além da limpeza, os seminaristas preparavam as refeições para todos. A vida material era muito dura mesmo: pouca comida, pouca verdura, quase nenhuma carne; falta de espaço... Mas, no coração, uma paz e uma alegria totalmente novas, diferentes de tudo o que sentira até então. Entre nós havia amor fraterno, superando qualquer dificuldade. A Missa da ordenação foi às quatro da madrugada, quando todos dormem na China, inclusive os policiais. Se a vida dos católicos é difícil, a fé nos fortalece. E isto também graças ao testemunho dos sacerdotes encarcerados. No lugar onde nasci, quando a China iniciou as grandes reformas econômicas, em 1983, havia três famílias católicas. Agora, vinte anos depois, os católicos são mais de 4 mil. De fato, o sangue dos mártires é semente de novos cristãos. A minha força é mesmo Jesus. Ele disse: “Não fostes vós que me escolhestes, mas fui eu que vos escolhi” (Jo 15). Sobre esta estrada encontro a cruz, mas também a alegria e a paz. Com a ajuda dele, vou em frente, superando todas as dificuldades. |
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