Revista "MUNDO e MISSÃO"
Testemunhos da Vida Missionária
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Daniel Comboni
Daniel Comboni nasceu em Limone sul Garda, Itália, em 15 de março de 1831 e foi educado em Verona, no instituto de pe. Nicolau Mazza, grande animador missionário. Foi ali que o jovem Daniel entrou em contato com o drama da escravatura dos africanos, ao tornar-se amigo de um ex-escravo sudanês, comprado num mercado de escravos no Egito, levado para Verona e educado por pe. Mazza. Foi ali que nasceu sua vocação missionária. Ordenado sacerdote em 1854, aos 26 anos, seguiu com outros cinco missionários mazzianos, para o sul do Sudão.
Comboni foi o primeiro bispo da África central. Lutador indômito contra o tráfico dos escravos, lamentou tanto a política de exploração colonial como a ambigüidade de comportamento de alguns políticos e eclesiásticos da época, em relação à missão. Morreu em Cartum (Sudão), a 10 de outubro de 1881, com apenas 50 anos, pelas febres e tribulações de todo o gênero. Sua morte deu-se em circunstâncias trágicas: carestia e pestes, guerra fundamentalista islâmica, oposição por parte de alguns ambientes religiosos europeus, hostilidade de políticos e incompreensões de antigos amigos, sobrecarregaram fortemente os últimos anos da sua vida. Parecia o início de um obscuro e longo "sábado da Paixão". Ele, no entanto, momentos antes de morrer, fez seus amigos renovarem o juramento de fidelidade à própria vocação africana até à morte. Alguns dos seus missionários e irmãs morreram logo a seguir, em plena juventude, outros foram feitos escravos pelos fundamentalistas islâmicos do Sudão (1882 - 1899) e morreriam durante essa terrível prisão. Os últimos anos da sua vida foram de inexplicável sofrimento: "crucificado com Cristo pela África", dirá freqüentemente. "Sinto no coração o peso da cruz...", escreve oito dias antes de morrer. "A cruz tem a força de transformar a África em terra de bênçãos e de saúde". Nunca se cansou de dizer que "a África pode encontrar somente na Igreja, Corpo de Cristo, a sua verdadeira dignidade e liberdade". Ele via para os africanos um único caminho possível para conseguirem a sua plena dignidade: a fé em Cristo. "Todos os africanos choraram o seu bispo que chamavam de pai, pastor e amigo", escreveu um missionário canadense, Arturo Bouchard, que estava ao lado de Comboni no momento de sua morte. SALVAR A ÁFRICA COM A ÁFRICA Naquela época, a África via suas terras serem percorridas por exploradores, mercadores e agentes comerciais. O renascimento missionário do século 19 entrelaça-se com tais percursos. No início, a missão converteu-se num falimento com a morte de quase uma centena de missionários, entre os quais quase todos os primeiros companheiros de Comboni. Aquela missão foi "um verdadeiro necrológio e um martírio contínuo", escreveu alguém. As diversas tentativas missionárias faliram, uma atrás da outra. Muitos acreditavam que a "hora da evangelização da África" ainda não tinha chegado. Mas não era isso que pensava Comboni. É nesse contexto que se insere um acontecimento extraordinário na vida desse grande missionário. No dia 15 de setembro de 1864, conforme suas próprias palavras, enquanto rezava junto ao túmulo de São Pedro, no Vaticano, desceu sobre ele, "como um raio, a graça divina". Nasceu, assim, o seu "plano para a regeneração da África mediante ela mesma". Apresentou esse plano três dias depois, ao cardeal-prefeito da Propaganda Fide, Barnabó, e a Pio IX. A missão, para Comboni, era uma questão de toda a Igreja, e o critério da missão era a eclesialidade universal. Pio IX disse-lhe então: "Trabalha como um bom soldado de Cristo!" Comboni obedeceu-lhe até a morte. Para ele, a missão foi uma obediência e uma paixão pela Igreja. Por isso, fez numerosas viagens a quase todos os países da Europa. Ao longo de sua vida, escreveu habitualmente em mais de 150 jornais e revistas européias em favor da missão africana. O seu único interesse era que Cristo fosse conhecido e a África, nele regenerada. Comboni promoveu um movimento missionário que envolveu bispos, sacerdotes, religiosos e leigos com uma grande e única paixão: tornar Cristo presente no mundo africano. Com esse propósito, fundou diversas obras e institutos missionários. Insistiu na vocação missionária como parte constitutiva do batismo de cada cristão. Abriu os caminhos missionários aos sacerdotes diocesanos e aos leigos, consagrados ou casados. Os primeiros frutos vieram: em 1867, 15 jovens africanos (homens e mulheres), muitos deles escravos ou escravos resgatados, tornaram-se cristãos e por ele foram formados professores e primeiros missionários do grupo. RAÍZES DA SUA VOCAÇÃO MISSIONÁRIA De pe. Mazza, Comboni aprendeu "a ter os olhos fixos em Jesus Cristo". Este olhar e o "sim" a Cristo tornaram-se, para ele, a contínua memória de sua vida e vocação, levando-o constantemente a dar sentido a tudo aquilo que fazia. Como escreveu num momento crucial, levavam-no "a julgar as coisas e o mundo africano, não com a sabedoria que vem do mundo, através da filantropia ou dos interesses dos exploradores, políticos e economistas", mas através do mistério de Jesus Cristo na cruz. Nomeado bispo da África central, voltou entre mil dificuldades e disse a seus poucos fiéis: "Deixei o meu coração entre vós e hoje finalmente o recupero, regressando para o meio de vós. O dia e a noite, o sol e a chuva encontrar-me-ão sempre atento às vossas necessidades espirituais. O rico e o pobre, o são e o enfermo, o jovem e o velho, o patrão e o servo terão sempre igual acesso ao meu coração. O vosso bem será o meu e as vossas penas serão também as minhas. Quero partilhar a sorte com cada um de vós, e o mais feliz dos meus dias será aquele em que eu puder dar a vida por vós." De fato, a única coisa que lhe importava, como escreve de Cartum, um mês antes de morrer, "é que se converta a África. Esta foi a única e verdadeira paixão da minha vida inteira e será até a morte, e não me envergonho [em dizê-lo]".Comboni tinha a clara consciência de que um missionário deveria ser o abraço tangível de Cristo aos povos da África. |
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