Revista "MUNDO e MISSÃO"
Testemunhos da Vida Missionária
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Augusto Ramos Eu a obedeci. Aos 15 anos, fui morar em São Paulo com meus irmãos. Já que não podia mesmo ir ao seminário, decidi estudar Administração de Empresas em nível médio para, em seguida, ingressar na universidade. Na megalópole, descobri-me imerso em um mundo sem confins, numa realidade diferente de tudo o que tinha vivido até então. O novo contexto, repleto de “atrações e distrações”, pouco-a-pouco fez-me “esquecer” do primeiro chamado e, assim, afastei-me do sonho eclesial. Enquanto cursava o último ano de Administração, comecei a fazer estágio na Caixa Econômica Federal. A experiência foi interessante e eu começava a tomar gosto pelo trabalho. O projeto era, sem dúvida, o de fazer carreira na área. Aos dezenove anos, já tinha um trabalho fixo que me realizava em todos os sentidos. Todavia, naquele mesmo período, começava já a sentir um vazio existencial. Tinha efetivamente a possibilidade de um futuro brilhante, mas faltava-me Alguém de quem me havia distanciado livremente. Experimentei a desilusão em relação ao que estava vivendo: - as noitadas passadas em cinemas, teatros, discotecas com amigos já não me satisfaziam como outrora. A REVIRAVOLTA Havia prestado o vestibular na USP quando uma doença de minha mãe praticamente forçou-me a deixar São Paulo. Meu retorno a Piraju significou, certamente, o retorno àquele Deus e Pai misericordioso que, um dia, tinha-me feito um chamado. Num domingo à tarde, a convite de minha mãe, fui à missa onde encontrei alguns jovens que me pareciam felizes de verdade. Entre eles, encontravam-se alguns amigos de infância. Eles estavam concluindo uma experiência de três dias de encontro de oração e reflexão sobre a fé. Convidaram-me a fazer uma visita a seu grupo. Assim, comecei a freqüentá-lo. E, através dele, o Senhor convidava-me de novo a segui-lo, a me colocar de novo na sua senda. O encontro decisivo aconteceu durante umas férias, quando decidi descansar do trabalho de maneira diferente:
- visitei uma comunidade missionária, junto com outros jovens que, como eu, tinham o mesmo desejo de descobrir o projeto de Deus. Conheci realidades carentes, que despertaram em mim algumas perguntas fundamentais, como, por exemplo, que sentido dar à própria existência. E assim por diante. Entendi que deveria dedicar a vida a serviço dos “pequeninos”, dos quais fala o Evangelho. Pela segunda vez, descobri o “outro”. Redescobri que eu não era o centro do universo e que a vida poderia ser vivida como dom aos outros. Nas situações de sofrimento, pobreza extrema e mal-estar humano, o Senhor me encontrou e eu me deixei encontrar por Ele. Recordo-me que uma das orações durante as férias era: “Senhor, mostra-me o Pai e isto me basta”. A graça foi-me concedida. A iniciativa foi Dele! “Como podemos amar, se primeiro não fomos amados?” se questionava Santo Agostinho. Se “amamos”, recorda-nos o apóstolo São João, é “porque Ele nos amou por primeiro (1Jo 4,19). Encontrar-se com Deus é encontrar-se com o Amor e deixar-se envolver por ele. Toda relação com Deus tem seu início nesse Amor. É a grande luz que brilha no coração de quem acredita. Foi assim com os patriarcas e profetas… Foi assim com Maria: - “meu espírito exulta em Deus, meu Salvador, porque olhou para a humildade de sua serva…”. E é assim conosco, quando nos deixamos encontrar pelo Amor. O encontro não pode ser um segredo entre o que ama e o que é amado. Este, após a experiência, deseja compartilhar e não pode ficar calado: “Sou amado pelo Amor!”. Portanto, descobrir-me amado por Deus, Pai misericordioso, com amor único e infinito, foi determinante! Ingressei na comunidade xaveriana de Campinas (SP) dois anos depois de concluir os estudos universitários. A formação inicial, que durou três anos, foi feita no Brasil. No inicio de 1999, fui enviado à Itália para cursar filosofia e teologia. UM MUNDO QUE SE ABRE Minha experiência em uma cultura diferente foi muito positiva, apesar das dificuldades. Inicialmente, quase tudo era-me estranho. O aprendizado da língua italiana ajudou-me a adentrar na nova cultura. Esse fator é fundamental para o processo inicial de aculturação e inculturação. E possibilitou-me maior e mais aprofundado contato com as pessoas, quer em nível pastoral, quer na esfera acadêmica. Outra dimensão da vida, enriquecida com a experiência na Europa, foi o contato com o universo xaveriano: Parma, onde tudo começou, “il nido degli aquilotti” (o ninho das aguiazinhas), é uma casa onde se respira “xaverianidade”. Lá, tudo emana missionariedade. Conheci confrades de várias nações: - os que estão ativamente empenhados em primeira linha na missão e os que, por motivos de doenças ou idade avançada, participam indiretamente dela. Isso me ajudou a refletir sobre a doação total da vida, isto é, não somente na plenitude do vigor, mas também quando as forças físicas estiverem se exaurindo. Uma das ricas experiências neste sentido foi assistir meu ex-mestre de noviços, padre Sandro Sacchetti, nos seus momentos derradeiros: - mais uma vez ele me deu belíssimo testemunho de entrega à missão. Depois de alguns anos, deixar a Itália não foi fácil, não; parecia que estava deixando de novo o Brasil. Passaram-se quase sete anos. Ser missionário é algo grandioso para mim! Ser xaveriano é partir, é colocar-me a caminhos fora da pátria e compartilhar a experiência do amor de Deus em minha vida. Desde que iniciei a caminhada xaveriana, sempre falava em ir à missão na Ásia. O sonho está se concretizando. Depois da ordenação sacerdotal, partirei para a Indonésia. JOVEM, VALE A PENA! A todos os jovens, eu gostaria de gritar, com toda a voz, que vale a pena doar a vida aos outros, seguindo o Mestre Jesus, que veio para servir e não para ser servido. Uma linda canção de Almir Sater, interpretada por Maria Bethânia, diz que “é preciso compreender a marcha e ir tocando em frente”, porque cada jovem “compõe a sua história e cada ser em si carrega o dom de ser capaz e ser feliz”. Contato |
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