Revista "MUNDO e MISSÃO"

Testemunhos da Vida Missionária

Qual sua reação ao ouvir a notícia da nomeação para substituir dom Casaldáliga em São Félix do Araguaia?

iquei surpreso. Não tanto pela nomeação, mas pelo lugar da destinação, pois eu não conhecia absolutamente nada de Mato Grosso, Goiás e Mato Grosso do Sul. É uma realidade completamente diferente de tudo aquilo que eu vivera até então. Não apenas como realidade econômica e social, mas também como uma tentativa diferente de viver o Evangelho.

Quais as características dessa Igreja, que é um marco no contexto eclesial?

– É uma Igreja que se caracteriza pelo trabalho profundamente engajado na questão da terra e na questão indígena. Mas talvez o que caracteriza mais, o que mais aparece em todo o trabalho em relação à terra, em relação à questão indígena, é que é uma Igreja que tenta trabalhar com comunidades, em que as equipes procuram viver o Evangelho e querem levá-lo adiante. O que eu pude perceber até agora, na reunião de que participei recentemente, é que essa tentativa de viver o Evangelho é uma tentativa de comunhão.

Poderíamos resumir assim:

- é uma Igreja realmente ministerial, porque o clero é muito reduzido, os agentes clericais são poucos; então, é o povo que mais assume essa ação. A prelazia tem, no momento, seis padres, um bom número de religiosas e também um religioso não sacerdote e muitos leigos. Naturalmente, no futuro teremos que trabalhar ainda mais na parte de formação. As extensões geográficas são muito grandes, o que dificulta toda tentativa de formação. Na catequese existe um excelente trabalho, um trabalho muito sério, que nós vamos levar adiante.

O que significa a figura de dom Pedro?

– É uma grande figura. A Igreja do Brasil deve muito a ele; eu diria: não só a Igreja, mas o Brasil deve muito a dom Pedro. Ele é um marco na história do Brasil. É um dos grandes nomes da história do nosso país. Foi o primeiro que, naquela região, começou a mostrar as tensões sociais, e ele mostrou essa realidade na condição de pastor, como um homem que tenta viver o Evangelho. Naturalmente, essa visão de pastor não apareceu tanto nos meios de comunicação social. Apareceu mais o homem corajoso que não teve medo de denunciar as injustiças e de mostrar as grandes dificuldades, os problemas pelos quais eles passaram.

A grande devastação da região: como os povos indígenas estavam sendo massacrados, talvez até com um pouco de exagero, mas a verdade é que estavam sendo massacrados! Mas, mais do que isto, dom Pedro é um homem que vive profundamente o Evangelho. E, graças a Deus, ele vai continuar lá. Está com a saúde um tanto abalada, mas vai continuar lá. Vai ser a presença de um homem de Deus, que sempre procurou e procura ser, ainda hoje. Então, como se costuma dizer, ele é o poeta e o profeta.

Em uma ocasião, quando um jornalista ia iniciar uma entrevista com ele, dom Pedro perguntou:

“Você não quer perguntar primeiro se eu tenho fé?”. Isso significa que ele é um homem que quer viver o Evangelho. É um homem de Deus. Mas é um homem de Deus que sabe por onde passam as questões da terra, as questões indígenas, por onde passam as questões dos assentados, dos assentamentos, a dificuldade de escoamento de todos os produtos da terra. Ele conhece a questão da injustiça. Mas, do que eu pude conhecer nesse pouco tempo de convívio, ele é um homem que procurou conhecer tudo isso a partir do Evangelho.

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