Revista "MUNDO e MISSÃO"
Testemunhos da Vida Missionária
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por Waldemar Liz Künsch
A cerimônia teve início na Comunidade José Freinademetz, onde a província acolhe os padres e irmãos idosos. Uma bela manhã de sol e a música inspiradora do Grupo de Congada Brasil, da cidade de Diadema (SP), coloriam a festa que transcorreu toda em clima de contido júbilo, marcada pela comunhão entre o grande número de confrades e amigos do aniversariante e por ricas reflexões sobre a missão de religiosos e leigos no mundo de hoje. Missão profética Na homilia proferida na ocasião, dom José Luiz Bertanha refletiu sobre a vida repleta de significados de pe. Georg, sobre seu trabalho, em três continentes, em prol da instauração do Reino de Deus. Pe. Arlindo Pereira Dias, superior da Província Central do Brasil, discorreu sobre a vocação missionária da Congregação do Verbo Divino. Fundada em 1875, a partir do Concílio Vaticano II, ela mudou sua compreensão da “missão ad gentes” de uma orientação exclusivamente geográfica para uma outra, que inclui “situações missionárias”. Assim, ela identificou quatro situações “de fronteira” das quais lhe chega uma chamada especial à qual procura responder: o diálogo com pessoas que procuram a fé; o diálogo com os pobres e marginalizados; o diálogo com gente de outras culturas e o diálogo com gente de diferentes tradições e de ideologias seculares. Vocação Missionária Pe. Georg Christl nasceu em 29 de fevereiro de 1904, em Altenbuch, na Alemanha. Filho de uma família de agricultores da Baviera, teve mais doze irmãos, dos quais, quatro homens e oito mulheres. Completados os estudos fundamental e médio, realizou um curso de especialização em Administração de Fazendas, tendo praticado por três anos essa profissão. Sempre em busca de uma realização maior, viu despertar em si a vocação para o sacerdócio, alimentada pelo exemplo de um capelão do qual foi coroinha. Assim, em 1926, após um retiro numa abadia beneditina, solicitou a entrada na Congregação do Verbo Divino. Em 18 de setembro do mesmo ano, foi aceito na Casa Missionária São José, em Geilensbinken, na Renânia. Em 1929, seria enviado ao Brasil, onde fez o noviciado e os cursos de Filosofia e Teologia no Seminário do Espírito Santo, onde seria ordenado em 1936. Em 1938, partiu para Yenchowfu, na China, país que escolheu para seu trabalho como missionário. Ali enfrentaria situações muito difíceis, em decorrência da Segunda Guerra Mundial, da invasão daquele país pelo exército japonês e da perseguição comunista à Igreja católica. Mas não deixou de trabalhar corajosamente pela causa que havia abraçado. Era, ao mesmo tempo, sacerdote, orientador de comunidades rurais e médico. De tudo um pouquinho. Mas acabaria sendo expulso do país, no final de 1952. Depois de um pequeno período de recuperação, em sua terra natal, seria de novo enviado para o Brasil, em meados de 1953, aqui permanecendo até hoje. Trabalhou por algum tempo em Assaí (PR). Em 1957, foi nomeado vigário da paróquia do Verbo Divino, na Chácara Santo Antônio. Em 1961, foi transferido para a paróquia de Sant’Ana, no Alto da Boa Vista. Os trabalhos missionários de Pe. Georg foram abençoados por Deus, pois, ano após ano, os serviços pastorais iam crescendo e se desenvolvendo. Escreveu em 1989: “Com gozo de boa saúde, nunca quis ficar ocioso diante das necessidades das massas. A falta de sacerdotes e de apóstolos leigos me faz trabalhar incansavelmente”. Em 1998, teve um abalo em sua saúde, afetada por um problema circulatório, que teve como conseqüência um derrame cerebral, do qual se recuperou. Recentemente, outros contratempos levaram-no à necessidade de amputar a perna direita. Pe. Georg conseguiu superar todas essas dificuldades, amparado por sua fé e sua energia e apoiado pela dedicada equipe de enfermagem da Casa São José Freinademetz. Com ele, vivem, atualmente, outros oito confrades idosos, entre os quais, Pe. Germano Hölscher, que também espera comemorar seu centésimo aniversário no ano que vem. O Bom Samaritano De um pequeno opúsculo que escreveu em 1989, “Lembranças da China”, podemos extrair passagens significativas sobre a vida de pe. Georg: “Eu agia como ‘médico’ nas viagens pelas zonas rurais. Tinha sempre à disposição tanto a mala de missa como a bolsa de medicina. Pobres e ricos, velhos e jovens, homens e mulheres, todos mostravam ilimitada confiança em minha ‘milagrosa’ habilidade de curar. Certo dia, vacinei cerca de cem pessoas contra malária (febre amarela), com um sucesso recorde. Ninguém morreu! Todos sararam! Isto favoreceu demais minha atividade missionária. O povo cedo entendeu que o missionário não se empenhava no trabalho por dinheiro, mas para anunciar a Boa Nova de Jesus Cristo”. Convém esclarecer, ao prezado leitor, que um grande número de missionários se vê obrigado a atuar como “médico”, pela grande necessidade dos lugares onde trabalham. Por causa de sua formação, o padre se sente impelido a ser um “bom samaritano”. (...). “Uma mulher foi ferida. Um estilhaço de granada atravessara-lhe o antebraço, pertinho da mão.
O osso foi esmigalhado. A mão estava pretinha, intumescida e ligada ao braço pelos tendões e por umas tiras de músculos. O braço já começava a ficar azul. A perda de sangue fora grande. Era evidente o perigo de morte. Alguns homens e mulheres (talvez parentes) pediram insistentemente que eu realizasse a cirurgia. Assumiram a responsabilidade. Atendendo aos seus pedidos, dei início aos preparativos para a operação. Como bisturi, usei meu canivete, bem afiado. Perguntei à mulher se era de sua vontade ter a mão amputada. A resposta foi: “Por favor, depressa, depressa.” Pedi à irmã enfermeira que me auxiliava que amarrasse com linha desinfetada as veias sangrentas que eu pinçara. Depois, prossegui devagar: cortei tendões e músculos e, aos poucos, a mão estava secionada. Em seguida, nos esforçamos por enfaixar o braço, estancando o sangue. A paciente ficou alguns dias em tratamento. Depois levaram-na “salva” para casa. (...) Para levar a Santa Comunhão aos doentes, eu colocava a hóstia consagrada em caixinhas de fósforos. Professores e catequistas levavam-nas para as respectivas casas, secretamente. Também esse sistema pastoral se tornava cada dia mais difícil e perigoso. O número de espiões vermelhos crescia e existiam espiões até entre nossos amigos. Eu mesmo só podia deixar a casa, quando chamado, e era conduzido por soldados a mando da autoridade local. E isso aconteceu mais vezes do que eu esperava”. Não morreu em Pe. Georg o amor pela população do país onde começou sua missão. “Viva a China!”, repete até hoje, animado pela esperança de que ela caminhe de forma cada vez mais segura para a realização de seu destino como uma grande nação. Contato: Site da Congregação
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