Revista "MUNDO e MISSÃO"
Testemunhos da Vida Missionária
Apresentamos parte do testemunho dado pelo ir. Santiago Otero Diez, por ocasião do Cam2-Comla7, sobre os mártires da Guatemala, durante a guerra civil dos anos 70 e 80, que causou 200 mil mortos e desaparecidos.
Foi assim que a Igreja uniu evangelização, dignidade da pessoa, promoção humana e luta pela justiça, e também, evangelização e busca da paz, trabalho pela reconciliação e conversão, tudo isso como momentos importantes da construção da comunidade cristã. Cresceu a fé, cresceram os projetos que permitiam melhorar as condições de vida do povo; cresceu a educação, organizaram-se as cooperativas, cresceu a participação... Em muitos lugares, este esforço se afiançou com o impulso da Ação Católica; em outros, com a formação de catequistas, delegados da Palavra de Deus e animadores da fé. Porém, trouxe também problemas à Igreja: muitos sacerdotes começaram a ser perseguidos; até os bispos foram acusados e tachados de comunistas e subversivos. O ambiente tornou-se particularmente difícil para as comunidades cristãs. Pe. Hermógenes López, sacerdote diocesano guatemalteco, foi assassinado no caminho de San José Pinula. Homem pobre, desdobrou-se pela sua gente, viveu seu último ano numa paróquia rural na qual se fez próximo de todos. Ninguém ficava fora de seu coração.
Defendeu os jovens obrigados ao serviço militar, que eram carregados nos caminhões como sacos e levados sem piedade. Pe. Hermógenes protestou energicamente frente às autoridades militares e do governo, contra essas arbitrariedades que violavam os mais elementares direitos e, sobretudo, o sentido de humanidade. Defendeu os camponeses contra uma empresa que queria fazer negócios com as águas de seus rios, levando-as para os bairros ricos da capital. Cinco dias antes de sua morte, e depois de repetidas ameaças, disse a alguns colegas sacerdotes: “Se for necessário o sangue de um de nós para que haja paz na Guatemala, estou disposto a derramar o meu”. Dois dias antes de morrer, teve a coragem de escrever uma carta ao presidente da República, na qual agradecia por algumas coisas, mas também lhe pedia, pelo bem do povo, que suprimisse o exército, porque não cumpria a missão de cuidar da vida dos cidadãos. Foi assassinado no dia 30 de junho de 1978, quando voltava da visita a alguns enfermos de sua paróquia.
Lembramos, no mesmo ano, a chacina de Paços, onde mais de 100 camponeses foram assassinados em poucos minutos. Dois anos depois, no dia 31 de janeiro de 1980, na embaixada da Espanha, morreram 39 pessoas. Exemplos trágicos da violência irracional, que a Igreja sempre denunciou. Os Informes REMHI (“Guatemala Nunca Mais”, 1998) e “Guatemala Memória do Silêncio” (1999) recolhem, em suas páginas, a descrição de mais de 400 massacres que foram perpetrados durante os anos do conflito armado. Muitos agentes de pastoral, bispos, sacerdotes, religiosas e religiosos e, sobretudo, leigos jogaram sua vida, quase sem falar, para manter acesa a chama da presença da Igreja nas regiões mais afastadas do país. Pe. Juan Alonso, espanhol, foi assassinado em plena repressão. Foi um homem sempre em caminho: missionário na Ásia e na Guatemala. Queria ir aonde não chegam os veículos, não há estradas asfaltadas nem tampouco de terra. Seqüestrado, torturado, foi morto no dia 15 de fevereiro de 1981, no Quiché. Era seu lema a frase de São Paulo “Ai de mim se não anunciar o Evangelho!”. Havia voltado ao Quiché em condições sumamente difíceis de violência e repressão. Numa carta a sua família, reconhecia: “Tenho o pressentimento de que estou em perigo. Não quero de modo algum que me matem, porém tampouco estou disposto, por medo, a me afastar deste povo. Uma vez mais penso agora: ‘Quem vai nos separar do amor de Cristo?’”.
A atitude assumida contra os catequistas foi terrível, mais selvagem. Em muitas comunidades, identificava-se o catequista como um comunista e subversivo. Muitos deles tiveram que fugir para salvar sua vida e a de sua família. Os que ficaram optaram por esconder todo objeto religioso que os revelava como catequistas. Enterraram as Bíblias, os livros de cantos, as cartilhas de saúde; guardaram as imagens. Foram fechadas capelas e igrejas. Na metade de 1980, na diocese do Quiché, os agentes de pastoral, depois de tanta perseguição, repressão e morte, decidiram sair da diocese. Foi essa a tremenda decisão que dom Juan José Girardi teve que tomar. Praticamente, todos os lugares da diocese, casas paroquiais e igrejas foram tomados pelo exército e convertidos em bodegas e depósitos de material de guerra. Na igreja de Chajul, até os santos foram vestidos com trajes militares. Esta igreja, depois da morte do pároco, foi confiada ao sacristão Tomás Ramírez Caba, homem simples e cheio de fé. Tinha a incumbência de abrir e fechar as portas da igreja; acompanhava as poucas pessoas que iam para as orações e cuidava para que nada se perdesse. Foi intimado a ir embora, porque aquilo já não servia mais à Igreja. Respondeu que não fazia mal a ninguém, que abria e fechava a igreja como os padres lhe haviam mandado, porque lhe tinham confiado o local e isso era a única coisa que fazia. Até sua esposa suplicou-lhe para parar, porque iriam matá-lo. Por fim, um dia, os soldados, cansados de sua persistência em cuidar da igreja, fuzilaram-no e não permitiram que seu corpo fosse velado.
Certa vez, os catequistas da aldeia Nueva Liberdad, diocese do Petén, foram ao bispo para dizer que estavam ameaçados. O bispo respondeu aflito que, dadas as condições, não podia fazer nada e que uma ameaça de morte era, na verdade, uma sentença de morte. Ele os dispensava da catequese, que ficassem com suas famílias sem qualquer problema de consciência. Os catequistas reuniram-se e, depois de uma longa reflexão, Longevos Valenzuela González, deu ao bispo a resposta em nome de todos: “O senhor, quando recebi o ministério da catequese de suas mãos, disse, entre outras coisas: “Queridos catequistas, vocês sabem que ao receber este ministério, correm riscos, vão correr o risco pelo Evangelho, que pode até ser de perseguição... E, apesar do que o senhor nos falou das exigências e da responsabilidade do compromisso, aceitamos ser catequistas. E, a partir daquele momento, temos esta disposição de correr o risco por Cristo”. Longevo foi assassinado em sua casa, no dia 28 de fevereiro de 1981. Em Checaram, o catequista Nicolas Tom Castro foi assassinado quando descobriram que, entre as tortillas (alimento típico daquelas populações, à base de milho), que carregava numa cesta, estavam escondidas as hóstias da Eucaristia, que ele levava para a celebração na sua comunidade. Morreu pedindo perdão a sua esposa e a seus filhos, suplicando-lhes que não levassem em conta aquilo, porque ele perdoava àqueles que o haviam feito. Entre as mulheres, lembramos Maria Mejía, membro da organização das mulheres, assassinada em Sacapulas, por haver defendido os direitos das mulheres a partir de sua fé. Verônica García, fiel colaboradora da Igreja em Izabal, jovem que queria entrar na vida religiosa, foi seqüestrada e assassinada: arrastaram-na amarrada atrás de um carro, até que morreu com o corpo desfeito.
Este documento recolheu 6.500 testemunhos, que falam de mais de 55 mil vítimas. A catedral estava lotada. Três dias depois, a mesma catedral não conseguiu conter milhares de pessoas que foram fazer a extrema homenagem a dom Gerardi, assassinado barbaramente na noite de 26 de abril. Ainda não foram esclarecidos os motivos nem foram identificados os responsáveis pelo crime. Os caminhos da Guatemala estão todos marcados com o testemunho dos mártires. Eles nos apresentam a ternura do Evangelho, vivido no caminho, sem outra defesa a não ser a Palavra e Deus na mão e um coração cheio de esperança. Todos eles creram em Deus, seguiram a Jesus, foram portadores do dom do Espírito a seus irmãos. Eles nos mostram parte deste caminho que a Igreja teve que percorrer para ser fiel ao Evangelho e à vida dos mais necessitados. São como sementes que vão germinando. Sua morte nos lembra a morte de Jesus, a morte dos apóstolos, a morte dos cristãos dos primeiros séculos. São lugares teológicos, referências de fé e caridade, que mantêm viva a esperança nos momentos em que a lógica dos sistemas continua fazendo vítimas. Não são todos, lembramos só alguns. Na lista que a Conferência Episcopal da Guatemala mandou a Roma em 2000, por ocasião da jornada das Testemunhas Fiéis, no ano do Jubileu, havia 103 nomes. Em 1984, João Paulo II escreveu ao episcopado guatemalteco: “Não posso deixar de lembrar que entre as vítimas da violência e do ódio se encontram inumeráveis evangelizadores da Cruz e de sua mensagem de caridade; sacerdotes, religiosos e religiosas e, sobretudo, ministros da Palavra (...). Inclino-me com reverência diante do sacrifício desses humildes e valentes trabalhadores da vinha do Senhor, em suas cidades e, sobretudo, em suas aldeias, aos quais foi dado não só crer no Evangelho e proclamá-lo, mas também derramar seu sangue no serviço à Palavra de vida”. O papa propôs à Igreja da Guatemala fazer um processo de discernimento, para que, em certos casos, possa ser aberto também o processo de canonização de alguns desses nossos irmãos. |
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