Revista "MUNDO e MISSÃO"

Testemunhos da Vida Missionária

judo uma paróquia sem pároco no norte de Camarões. Perguntei aos catecúmenos como e quando eles sentiram vontade de se achegar à missão. “Meus filhos morriam um depois do outro – respondeu um homem. Vi os cristãos rezando e deles me aproximei”. “Vivo entre pessoas de diversas etnias – disse-me uma mulher –. Quando eu morrer, quem vai me enterrar? Cada um enterra seus mortos. Mas os cristãos sepultam também os não-cristãos. Por isso vim”. Outra afirmou: “Vejo os cristãos cantarem com alegria. Sobretudo no Natal eles vêm de longe, cantando felizes e depois ficam juntos, unidos e alegres. Eu também encontrei essa alegria”.

No fim do encontro, troquei impressões com as duas irmãs que vivem na missão, uma das quais administra a paróquia. No início, achamos que as razões eram pouco espirituais, pouco teológicas, cristológicas. Depois, percebemos um elemento comum, presente em todos os fatos relatados: os cristãos são os pontos de referência. O testemunho cristão acende a centelha para um caminho freqüentemente longo. O ponto de partida é sempre de ordem material, vital. É como nos Evangelhos, nos encontros com Jesus. Cristo foi ao encontro do homem em suas necessidades básicas, materiais, corporais, sociais. A samaritana pediu água sem compreender o que Jesus dizia e quem ele era. O cego de nascença adquiriu a vista física e viu apenas um homem de Deus. Só mais tarde ambos encontraram o Senhor.

A NOVIDADE DA FÉ


O ponto de partida é sempre de ordem material, vital. É como nos Evangelhos, nos encontros com Jesus. Cristo foi ao encontro do homem em suas necessidades básicas, materiais, corporais, sociais

O estímulo inicial é sempre uma carência: saúde, situações de sofrimento, divisão, necessidade de se pôr ao lado de alguém para descobrir pontos de convergência e, portanto, de amizade, conhecimento e alegria. As necessidades cotidianas se tornam o solo onde nasce a novidade da fé. Deus se torna presente e as provê. É a mesma experiência do Povo de Deus no Antigo Testamento, que encontrou o Senhor nos acontecimentos da própria história. Em seguida, brotou a fé, que crescia e amadurecia naturalmente. Na quaresma de 1974, muitos catecúmenos de Touloum, na diocese de Yagoua, relatavam: “conhecemos Martina. Onde há um doente, ei-la por lá. A palavra de Martina é forte”. Martina, a segunda esposa de um pagão polígamo, freqüentava a catequese, esforçava-se pela formação cristã dos sobrinhos. Morreu antes de ser batizada; mas seu testemunho de vida simples, generosa e acolhedora marcou profundamente os companheiros.

Em 1985, uma imensa carestia dizimou parte do norte do país. As missões católicas ajudaram o povo e tudo fizeram para que viesse ajuda de fora. Desde alguns anos, nas dioceses de Camarões, o conselho pela promoção humana e desenvolvimento colabora com o governo e com ONGs. O povo via os cristãos empenhados em vários setores da vida dos vilarejos, em parceria com protestantes, muçulmanos e seguidores das religiões tradicionais. Percebeu-lhes as diferenças na abordagem e no estilo e isto lhes suscitou profundas interrogações. A missionária italiana Gabriella me contou: “com freqüência, chega uma velhinha com uma ferida enorme em uma perna. Eu lhe dou água e desinfetante e ela vai embora feliz. Ontem, ela falou a um jovem da sua etnia: ‘veja, não sou da missão e jamais vi a Deus. Mas acredito como seja seu rosto. Andei pensando que Deus deve ter as feições da freira que cuida de mim’”.

UM CAMINHO DE PEDRAS

Ao conviver com povos de outras religiões e culturas, a gente se encontra em momentos vitais de extrema simplicidade e importância. É o cristianismo vivo que penetra no nosso cotidiano e, ao mesmo tempo, leva-nos a um estreito contato com Deus e com o Senhor Jesus, evidente na sua Igreja e nos cristãos. Isto nos mostra que Deus não tem rosto, ele tem o nosso rosto. Deus não tem história, ele tem a nossa história. Houve uma época em que Ele tinha as feições de Jesus; hoje tem as nossas. Deus continua vivo em nossa vida. No caminho da fé, as pessoas encontram dificuldades e perseguições. Ouvindo sua história, percebemos que cada um experimenta sofrimentos de todo tipo, no próprio íntimo, na família, entre a vizinhança e entre os líderes. Tornar-se cristão significa escolher e isto pode ser fonte de alegria e também de dor. O velho Matteo Samkreo repete freqüentemente sua história. Era a década de 60, bem no início da missão entre os tupuri do Chade e de Camarões.


No caminho da fé, as pessoas encontram dificuldades e perseguições. Torna-se cristão significa escolher, e isto pode ser fonte de alegria e também de dor

“O missionário me disse: se quiser ser batizado, deve ter só uma esposa. Eu tinha duas esposas e deixei uma, que amava e que ainda amo”. Matteo viveu a vida toda como catequista. Ele é talvez o homem mais respeitado e estimado por todos, inclusive pelos muçulmanos, tanto como cristão, como testemunha do Senhor. Hoje ele sofre calado diante de cristãos pusilânimes e pouco fiéis aos próprios compromissos.

Também a vida de Louakreo, catequista em Kalfou, na diocese de Yagoua, não é fácil. Um dia, ele viu pessoas de um vilarejo distante participando, felizes, de uma festa de Natal. Uniu-se a eles e, através das músicas, sentiu que Deus enviara seu Filho para salvar os homens. Interessou-se por tudo aquilo, participando de encontros. Depois relatou aos amigos tudo o que vira e sentira. Formou, então, um grupo que se punha a caminho para participar das festas cristãs. Mas o chefe do lugar, um muçulmano, chamou-o, interrogou-o e o proibiu de formar o grupo de amigos da “religião dos estrangeiros”. Mais tarde, prendeu-o.

O grupo manteve-se unido e fiel às orações, participando da festa cristã. Alguns anos depois, o presidente da República, outro muçulmano, permitiu aos cristãos a posse de um terreno e a construção de uma sede para sua missão. Até na década de 80, as autoridades do norte do país procuraram islamizar os animistas e impedir que o povo se tornasse cristão. Eu mesmo vi os difíceis primórdios da missão de Guidiguis. Chegado no início de 1974, por mais de um ano fui hóspede de um tupuri, que se virava como catequista. Como hóspede, eu não podia construir nada para as reuniões dos cristãos. Nesse ínterim, eles batiam à porta das autoridades para obter autorização, suportando humilhações. No fim de 1975, o líder do lugar autorizou a construção de uma sede em um pedaço de terra no limite da vila, morada de serpentes venenosas. O pior passou, graças à intervenção corajosa do bispo camaronês Christian Tumi, atual cardeal de Douala, e com a chegada ao poder do presidente Paul Biya, em 1982.

A COMUNIDADE MISSIONÁRIA

Outro elemento forte da vida das comunidades cristãs é o aspecto agregador da fé. Quando alguém inicia um caminho novo, porque encontrou nele algo interessante, precisa não só comunicá-lo, mas também buscar a adesão de outros, através da amizade que se cria rapidamente. Isto assume um aspecto de missionariedade e de anúncio. Esse elemento fortaleceu o início de todas as missões, mas, infelizmente, definha-se com o tempo porque seus membros passam a se preocupar com a organização comunitária e esquecem o aspecto missionário da comunidade, que corre o risco de desaparecer, se não for continuamente alimentado. Em síntese, eis o caminho da comunidade cristã: da necessidade material ao desejo de algo melhor; do eu que procura um tu (Deus) que doa; do discípulo que se deixa guiar ao testemunho; do passivo que acolhe ao ativo que responde.

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