Revista "MUNDO e MISSÃO"

Testemunhos da Vida Missionária


O testemunho de um missionário xaveriano há 28 anos em Bangladesh junto aos excluídos,
os fora-de-casta, considerados impuros. Antes de tudo, vem a luta por uma dignidade básica da
pessoa. De conseqüência, a proposta de conversão para uma vida cristã

por Antonio Germano

população de Bangladesh é, em sua maioria, muçulmana. O Islã é reconhecido como a religião da fraternidade, porque todas as criaturas são iguais diante de Alá. Apesar deste princípio de fé, a estratificação cultural de casta, sub-casta e fora-de-casta marca ainda profundamente a sociedade bengalês. Até a distribuição logística da população reflete esta estrutura mental. Nas aldeias, o fenômeno é mais visível. Assim, o bairro dos mutchi, os fora-de-casta, ocupa sempre uma área marginalizada, sem saneamento e sem caminho de acesso.

O RIO DA MINHA VIDA MISSIONÁRIA

A opção pelos mutchi caracterizou desde o começo a minha atividade em Bangladesh e permaneceu uma constante, até ser considerado como mucider father – “o padre dos mutchi”. Tudo começou com doze anos de imersão na realidade de Borodol, na beira do Kopotokko, que se tornou o rio da minha vida. Doze anos sem eletricidade, sem telefone, num mundo sem os recursos da modernidade. No meu diário de 30 de setembro de 1979, leio estas linhas: “Este fim de setembro vai embora e leva consigo o meu 40.º aniversário:

- consciência de fragilidade, neste lugar de guarda, ao limite da coragem e da possibilidade humana. Pode Deus preencher esta solidão? Meu Deus, tu és tudo para mim e o meu medo é somente por causa da minha fraqueza”. Na parábola da missão, penso à atividade entre os fora-de-casta de Borodol como à pré-história. Depois de um ano da chegada em Bangladesh, concluído o curso de língua, foi-me pedido para reabrir uma missão que ficara fechada por oito anos. Eu aceitei a tarefa, sabendo que tinha que ficar por muito tempo sozinho, sem ser introduzido no ambiente por uma pessoa experiente, portanto, sem a possibilidade de um confronto.

A ILUSÃO DE UM SONHO REALIZADO

Cheguei com um barco a remos, no qual tinha carregado todos os meus pertences, partindo da missão mais próxima de Satkhira, após uma travessia de onze horas. Aprendi as manhas dos rios do sul do Bangladesh:

- começa a viagem com a corrente favorável e depois, com o fenômeno da maré, tem que remar contra a corrente. Cheguei a Borodol, com o ardor missionário de quem esperou longamente o momento de realizar o sonho de anunciar o Reino de Deus e o Evangelho aos não-cristãos. Encontrava-me finalmente no campo e o povo estaria aí para ouvir minhas palavras. Grande ilusão. O primeiro impacto foi tremendo e constituiu o verdadeiro desafio à minha pretensão missionária! O espetáculo era o de um amasso de cabanas que mais pareciam tocas de animais que habitações.

Dentro e fora delas, pessoas que não tinham conseguido atingir um estágio minimamente humano de vida. O que se apresentava à minha frente, em Borodol, parecia-me inigualável e questionava-me fortemente. Não tinha tempo para discussões e as escolhas impunham-se com urgência. Vinham-me à mente as sugestivas palavras de Bonhoeffer, o teólogo alemão assassinado pelos nazistas em 1945: “Nós, cristãos, não podemos nunca pronunciar as palavras últimas da fé, se antes não teremos pronunciado as palavras penúltimas da justiça, do progresso e da civilização”. Uma mensagem antiga quanto o Evangelho.

UMA NOVA ALDEIA, ROUBADA AO RIO

Percebi logo algumas diretrizes sobre as quais organizar o trabalho missionário. Precisava, antes de tudo, criar um espaço vital para que o povo construísse suas cabanas num ambiente mais salubre. Para realizar o projeto, o próprio rio nos ajudou com a grande quantidade de terra que carregava durante as enchentes. Construímos uma barreira de 500 metros para proteger o terreno.

No espaço delimitado, fizemos terraplanagem, deixando livres alguns pedaços, transformando-os em pequenas poças, úteis para a pesca e para tomar banho em águas limpas. As transformações aconteceram. A escola e o centro social surgem aí, onde antes estava o leito do rio. Foram doze anos de trabalho incansável com a ilusão de resolver todos os problemas dos pobres, inventando iniciativas e realizando novos projetos.

O perigo é perder de vista o verdadeiro horizonte da missão: a tentação de transformar as pedras em pão é uma cilada constante. Apresenta-se como a solução mais óbvia, que, porém, pode esvaziar o verdadeiro sentido da missão: a proposta da vida nova em Jesus.

UMA NOVA EXPERIÊNCIA MISSIONÁRIA

Depois de um descanso, voltei a Bangladesh para trabalhar em Chuknagar, a 30 km de Khulna, onde vive a maior concentração dos fora-de-casta. Nesse vilarejo começou-se, nos anos 80, uma nova experiência missionária na qual se deixava em segundo plano o discurso religioso da conversão ao cristianismo, para enfatizar um trabalho paciente de inserção e de educação popular. O objetivo era fazer crescer uma consciência e condições humanas e sociais para que o povo conquistasse sua dignidade, condição básica para uma opção de vida cristã. Após 20 anos de trabalho gratuito, dedicado e inculturado de alguns missionários xaverianos, chegou o pedido, por parte de alguns fora-de-casta, para iniciar uma caminhada de fé para se tornarem discípulos de Jesus. A exigência surgiu do próprio povo, pelo testemunho dos missionários.

DISCIPULADO, NÃO PROSELITISMO

Atualmente, os candidatos a discípulos de Jesus são cerca de cem, divididos em seis grupos de várias idades: crianças, jovens, adultos. Procuramos dar bastante importância a uma formação litúrgica, pondo os fundamentos sobre a tradição da igreja. Os xaverianos estão em Chuknagar há 25 anos. Os muçulmanos os conhecem muito bem e não têm dúvidas a seu respeito: não estão ali para fazer proselitismo. Muito pelo contrário, dedicam-se de corpo e alma para o bem da população.

Contudo, em Bangladesh, há suspeitas em relação aos missionários estrangeiros:

- o nosso visto de permanência está incluído na categoria “M” de “Missionários”. Todo ano, ao renovar o visto, devemos assinar uma declaração na qual se afirma que não estamos engajados em atividades proselitistas. Para evitar problemas, o batismo aos novos discípulos de Jesus é conferido por sacerdotes bengaleses natos.

JUNTO AOS IMPUROS, PURIFIQUEI-ME

Sou um missionário que trabalha em Bangladesh. O campo da minha missão foi o dos excluídos, principalmente o dos mutchi. Eles têm, como profissão, tirar a pele dos animais e curtir o couro para depois vendê-lo a quem lucra sem sujar as mãos. Na Índia e em Bangladesh, os animais, sobretudo os bois, são considerados sagrados. Por isso, a profissão do curtidor é considerada impura e imprime uma marca indelével a quem a pratica, assim como em suas famílias e em suas descendências. No meio dos “impuros” vivi 28 anos da minha vida. Amando-os, purifiquei-me.

MISSIONÁRIOS XAVERIANOS
Rua Gregório Serrão N.º 177 – Vila Mariana
São Paulo - SP - 04106-040
Tel.: (11) 5572.2016 – www.xaverianos.com.br

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