Revista "MUNDO e MISSÃO"
Testemunhos da Vida Missionária
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por Antonio Germano O RIO DA MINHA VIDA MISSIONÁRIA - consciência de fragilidade, neste lugar de guarda, ao limite da coragem e da possibilidade humana. Pode Deus preencher esta solidão? Meu Deus, tu és tudo para mim e o meu medo é somente por causa da minha fraqueza”. Na parábola da missão, penso à atividade entre os fora-de-casta de Borodol como à pré-história. Depois de um ano da chegada em Bangladesh, concluído o curso de língua, foi-me pedido para reabrir uma missão que ficara fechada por oito anos. Eu aceitei a tarefa, sabendo que tinha que ficar por muito tempo sozinho, sem ser introduzido no ambiente por uma pessoa experiente, portanto, sem a possibilidade de um confronto. A ILUSÃO DE UM SONHO REALIZADO Cheguei com um barco a remos, no qual tinha carregado todos os meus pertences, partindo da missão mais próxima de Satkhira, após uma travessia de onze horas. Aprendi as manhas dos rios do sul do Bangladesh:
Dentro e fora delas, pessoas que não tinham conseguido atingir um estágio minimamente humano de vida. O que se apresentava à minha frente, em Borodol, parecia-me inigualável e questionava-me fortemente. Não tinha tempo para discussões e as escolhas impunham-se com urgência. Vinham-me à mente as sugestivas palavras de Bonhoeffer, o teólogo alemão assassinado pelos nazistas em 1945: “Nós, cristãos, não podemos nunca pronunciar as palavras últimas da fé, se antes não teremos pronunciado as palavras penúltimas da justiça, do progresso e da civilização”. Uma mensagem antiga quanto o Evangelho. UMA NOVA ALDEIA, ROUBADA AO RIO No espaço delimitado, fizemos terraplanagem, deixando livres alguns pedaços, transformando-os em pequenas poças, úteis para a pesca e para tomar banho em águas limpas. As transformações aconteceram. A escola e o centro social surgem aí, onde antes estava o leito do rio. Foram doze anos de trabalho incansável com a ilusão de resolver todos os problemas dos pobres, inventando iniciativas e realizando novos projetos. O perigo é perder de vista o verdadeiro horizonte da missão: a tentação de transformar as pedras em pão é uma cilada constante. Apresenta-se como a solução mais óbvia, que, porém, pode esvaziar o verdadeiro sentido da missão: a proposta da vida nova em Jesus. UMA NOVA EXPERIÊNCIA MISSIONÁRIA Depois de um descanso, voltei a Bangladesh para trabalhar em Chuknagar, a 30 km de Khulna, onde vive a maior concentração dos fora-de-casta. Nesse vilarejo começou-se, nos anos 80, uma nova experiência missionária na qual se deixava em segundo plano o discurso religioso da conversão ao cristianismo, para enfatizar um trabalho paciente de inserção e de educação popular. O objetivo era fazer crescer uma consciência e condições humanas e sociais para que o povo conquistasse sua dignidade, condição básica para uma opção de vida cristã. Após 20 anos de trabalho gratuito, dedicado e inculturado de alguns missionários xaverianos, chegou o pedido, por parte de alguns fora-de-casta, para iniciar uma caminhada de fé para se tornarem discípulos de Jesus. A exigência surgiu do próprio povo, pelo testemunho dos missionários. DISCIPULADO, NÃO PROSELITISMO Atualmente, os candidatos a discípulos de Jesus são cerca de cem, divididos em seis grupos de várias idades: crianças, jovens, adultos. Procuramos dar bastante importância a uma formação litúrgica, pondo os fundamentos sobre a tradição da igreja. Os xaverianos estão em Chuknagar há 25 anos. Os muçulmanos os conhecem muito bem e não têm dúvidas a seu respeito: não estão ali para fazer proselitismo. Muito pelo contrário, dedicam-se de corpo e alma para o bem da população. Contudo, em Bangladesh, há suspeitas em relação aos missionários estrangeiros: - o nosso visto de permanência está incluído na categoria “M” de “Missionários”. Todo ano, ao renovar o visto, devemos assinar uma declaração na qual se afirma que não estamos engajados em atividades proselitistas. Para evitar problemas, o batismo aos novos discípulos de Jesus é conferido por sacerdotes bengaleses natos. JUNTO AOS IMPUROS, PURIFIQUEI-ME Sou um missionário que trabalha em Bangladesh. O campo da minha missão foi o dos excluídos, principalmente o dos mutchi. Eles têm, como profissão, tirar a pele dos animais e curtir o couro para depois vendê-lo a quem lucra sem sujar as mãos. Na Índia e em Bangladesh, os animais, sobretudo os bois, são considerados sagrados. Por isso, a profissão do curtidor é considerada impura e imprime uma marca indelével a quem a pratica, assim como em suas famílias e em suas descendências. No meio dos “impuros” vivi 28 anos da minha vida. Amando-os, purifiquei-me. MISSIONÁRIOS
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