Revista "MUNDO e MISSÃO"

Testemunhos da Vida Missionária

Irmão Yves
mártir da rua

por Paola Vizzotto

embro dele quando, com voz calma e determinada, me dizia: "Irmã, sofremos mais a gerar estes filhos de nosso coração do que suas mães da sua barriga" e, depois de um longo silêncio, "esses problemas se resolvem de joelhos". Assim lembro o irmão Yves Lescanne, um Pequeno Irmão do Evangelho, verdadeiro discípulo, também na morte, de outro "grande" Pequeno Irmão, Charles de Foucauld.

Agora, meu coração chora, pensando nele morrendo, sozinho, sangrando, atrás de uma porta fechada por quem lhe quebrou o crânio com um machado, e que foi salvo, socorrido e amado de maneira toda particular por ele e pela sua mãe idosa, até ser chamado de "o filho de Yves".

A notícia, veiculada por algumas agências e jornais de vários países me surpreende: morto, no dia 29 de julho de 2002, por roubo. De quê? Yves vivia na mais absoluta pobreza, tendo como única riqueza a sacolinha pendurada ao pescoço e um amor infinito, corajoso, livre pelas crianças e meninos da rua e da cadeia.

Nos últimos anos, ele vivia no norte de Camarões e só raramente vinha à cidade, Yaoundé. Para nós da equipe que opera na cadeia e na rua, era como o "pai fundador" do nosso particular ministério de compaixão e de misericórdia, um exemplo, às vezes fora dos esquemas, mas sempre com os olhos do coração fixos nos seus preferidos. Ele era cheio de sabedoria, experiência e dinamismo; tinha-o conhecido mais profundamente através de seu diário, publicado pela insistência dos amigos, que ele havia assinado com o nome de Yves Balaam, quase para nos lembrar de uma misteriosa e profética presença de Deus nos pequenos e nos condenados pela sociedade, invisível aos olhos sem fé.

Nos anos 70, tinha começado a ocupar-se dos "nanga mbôkô", os meninos de rua de Yaoundé, depois dos meninos na cadeia e dos que tinham saído: havia colocado as bases daquilo que se tornaria o compromisso de nossa equipe. Os pequenos daquela época lembram dele, duro e determinado em defendê-los, em ajudá-los a reencontrar a dignidade, a esperança, até arriscar muitas vezes a vida por eles. Alguns receberam uma atenção particular, como C. que, atropelado por um caminhão e arriscando a paralisia quase total, havia sido enviado por Yves à França, na família dele, para ser operado, curado e recuperado.

C., depois que voltou a Yaoundé, foi acolhido no nosso centro, estudou, e, sempre apoiado pela mão de Yves, encontrou um trabalho. Há pouco tempo, de repente e de maneira inexplicável, mudou e queria mudar, a todo custo, para a Europa. Yves procurou dissuadi-lo, ajudando-o a refletir sobre os riscos da clandestinidade e quando, recentemente, C. roubou no laboratório em que trabalhava, foi mais uma vez Yves que o aconselhou a pedir perdão e retomar a caminhada.

C., porém, o alcançou em Maroua, no extremo norte, onde Yves há tempo era o único amigo dos "nanga mbôkô", quase todos muçulmanos. Com eles brincava no leito seco do rio, aprendia o foufouldé, seu idioma, para eles organizou uma simples casa para acolhê-los. A dinâmica de seu martírio é incrível pelo sadismo e frieza: a mão de um filho que pega o machado e golpeia quem lhe dera uma segunda vez a vida. C. teve a coragem, antes de fugir para a Nigéria, de roubar no quarto de sua vítima. O espanto e a surpresa foram imensos entre os católicos e os muçulmanos e o choro mais aflito levantou-se da rua e das prisões onde Yves era o irmão mais velho de todos e disponível para todos.

Por que essa morte? Muitas respostas, nenhuma certeza... Talvez um dos muitos crimes impunes que, nos últimos anos, sacrificaram homens e mulheres da Igreja que está em Camarões? Talvez uma terrível prova de coragem exigida por uma das poderosas sociedades secretas que pipocam no país, prometendo riqueza em troca de assassinados pilotados? Ou, talvez, uma advertência terrivelmente eloqüente pelas denúncias feitas contra homens do poder que usam os meninos para tráficos ilícitos?
Espero que C. tenha agido movido pela droga ou outra bebida alucinógena; não posso acreditar que esse assassinado tenha sido realizado com liberdade e lucidez. Além disso, o fato de que ninguém, nem os informadíssimos meninos de rua, saiba mais nada do jovem assassino, leva a desconfiar sobre o desaparecimento de uma testemunha e de um instrumento, agora incômodo e inútil, e, portanto, vítima por sua vez, da crueldade dos poderosos.

Irmão Yves já encontrou no céu todos seus amigos apedrejados na rua, eliminados pela polícia ou mortos por abandono ou doenças e imagino que já organizou algum jogo em equipe ou alguma estratégia para tornar mais feliz o paraíso dos Bons Ladrões. Não sei se há um padroeiro oficial dos "nanga mbôkô", os meninos de rua, mas, em Camarões, nós o temos: irmão Yves, nanga mbôkô mártir da rua.

FICA CONOSCO PORQUE
A NOITE VEM CHEGANDO

Yves Balaam

À noite, a grande catedral, apesar de o sacristão ter tranca do cuidadosamente as portas, fica aberta a todos os ventos e a todos hóspedes. Os meninos de rua, depois das 22 horas, entram através das mais diferentes aberturas. São meninos sem abrigo que vêm procurar amparo na igreja para dormir. Os meninos levam consigo o material para dormir: dois papelões recuperados no lixo entre os quais se agacham. Lá, até cinco horas da manhã, sabem que ninguém virá incomodá-los. Não são todos "pequenos bandidos". Essa jovem população da catedral compõe-se principalmente desses bandos de meninos que andam no centro da cidade e "assaltam" os carros para vigiá-los ou carregam as compras das senhoras no mercado central...

Não é bom perguntar-lhes de onde eles vêm. Atrás de cada um desses rostos, escondida no mais profundo do seu coração, tem uma ferida, um problema familiar: fuga, desentendimento, divórcio, prostituição, abandono ou simples falta de carinho. Uma noite decidi eu também entrar na catedral para dormir sobre um papelão. Nessa noite havia um só menino, abrigado como um sanduíche entre seus dois papelões. Eu durmo mal: acordo continuamente. Então olho esse menino que dorme pacificamente. Como chegou aqui? Que mistério é sua vida? Virando-me, no fundo da igreja, vejo a lâmpada do Santíssimo Sacramento. Outro mistério esta presença....

Quando acordo, de madrugada, o menino havia desaparecido. Encontro-o mais tarde, sob o pórtico da catedral. Ele me diz: "Ah, era você! Esta noite, quando acordei, vi ao meu lado um grande bandido. Tive medo e saí". "Por que teve medo?". Responde rindo: "Porque eu sou só um pequeno bandido!". Tenho um pedaço de pão e o partilhamos. Naquele momento, como Cléofas, meus olhos se abrem e compreendo, com o coração que arde, a experiência que acabo de fazer. A presença real que me foi lembrada esta noite pela pequena lâmpada no fundo da igreja, não pode ser conduzida numa única direção. Ela esteve muito próxima de mim esta noite. Por que não é Jesus da rua este menino que dormiu lá, ao meu lado, entre dois papelões?

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