Revista "MUNDO e MISSÃO"

Testemunhos da Vida Missionária

VOCAÇÃO

Eu me preparava para a crisma na minha cidade, Coroatá (MA). Refletíamos, com a catequista, sobre o evangelho de São Mateus, que narra o encontro de Jesus com o jovem rico. “Mestre, o que devo fazer para possuir a vida eterna?”. E Jesus responde: “Vai, vende tudo o que tens, dá aos pobres, depois vem e segue-me”. Na época, eu tinha 15 anos e não entendia muito bem o que o Senhor me pedia: não era rico, não tinha nada a não ser família, a própria cultura, os amigos. Eles eram tudo o que significa algum valor. Aprendi que era isso que o Senhor queria, porque a frase marcou minha vida.

COMO O PIME ENTROU EM MINHA VIDA

Depois da crisma fui morar em Belém, onde conheci o PIME. Lá, com alguns jovens da paróquia, fiz um ano de discernimento com o pe. Ângelo Da Maren. Além de refletir sobre a palavra de Deus, também refletíamos sobre a encíclica Redemptoris Missio, de João Paulo II, que falava da missionariedade da Igreja. Dois pensamentos me despertaram.

No primeiro, o papa afirmava que a Igreja é, pela sua natureza, missionária:

“Ou ela é missionária, ou não está sendo fiel ao mandato de Cristo”. Eu pensava: se a Igreja é naturalmente missionária e se ela é composta por nós, que somos pedras vivas, como fala São Paulo, então, tais palavras valem pra mim também. Elas fizeram com que eu desse o meu sim à missão e ao desejo de estudar, entrar no PIME e me transformar em missionário além-fronteira.

OLHANDO ALÉM DA FLORESTA

Vastas comunidades amazônicas vêem o padre só duas ou três vezes por ano. Então eu me perguntava: por que ser missionário além-fronteira? E aí me vinha o outro pensamento da encíclica. Nela, o papa insistia que não há ser humano indigno de receber o Evangelho. Ou seja, todos têm o direito de conhecer a Boa Nova de Jesus. Se isso é válido para o europeu, para nós da América Latina, para outros povos asiáticos, por que não é válido para os japoneses? Então, tudo isso me fez dizer sim ao plano universal da missão e porque a maioria daquele povo – João Paulo II falava em 65% da população mundial – nunca ouviu falar de Jesus. Eu pensava: como poderão eles conhecer a Boa Nova, se não há quem a anuncie? Então, foi amadurecendo, aos poucos, minha vocação, o desejo de ser missionário.

A PREPARAÇÃO

Estudei filosofia em Belém, por três anos, com o padre Da Maren e tive a graça de tê-lo, mais tarde, como formador na teologia, na Itália. De fato, terminada a filosofia, fui enviado à Itália, onde fiz os quatro anos de teologia. Recebi o diaconato em Saronno, na Itália, pelo cardeal Carlo M. Martini e fui ordenado padre na minha paróquia de origem, em Coroatá. Era o dia 28 de julho de 2001.

Depois fui estudar inglês nos Estados Unidos, preparando-me para ir ao Japão. A língua inglesa é importante para o brasileiro que quer aprender o japonês. A maioria dos professores japoneses fala inglês e os livros de nível básico são bilíngües. Os outros, só em japonês. O inglês também me ajudou muito no trabalho com os filipinos, por exemplo, e com os americanos que estão no Japão. Os filipinos são o quarto grupo mais numeroso no Japão.


Matsurí - festivais espalhados por quase todas as cidades

OS PRIMEIROS PASSOS

Os dois primeiros anos dos missionários do PIME, que chegam no Japão, são dedicados ao estudo da língua. No primeiro ano, morei na Casa Regional e freqüentava a escola diariamente. No segundo ano, fui a uma paróquia de Tóquio para manter o primeiro contato com o povo, com o pároco japonês, para conhecer o seu trabalho, e sobretudo para praticar a língua. Como eu não conhecia bem o idioma, limitava-me a celebrar a Missa aos paroquianos e, três vezes por semana, para as irmãs de Betânia, uma congregação presente na paróquia, além de visitar doentes no hospital e lhes dar a comunhão.

CONTATOS COM A CULTURA LOCAL

A cultura japonesa, por ser milenar, é riquíssima. Aprendi a gostar dos matsurí, os festivais, espalhados por quase todas as cidades. Alguns festejam a cultura, a natureza,.. outros, pedem graças e proteção contra males, doenças... Participei de um, em Nagayama, que surgiu com a primeira visita do imperador àquela cidade. Mil mulheres de quimono, com um tipo de chapéu com lanterna acesa na cabeça, dançando, acolhem o imperador. A origem de cada masturí varia de lugar para lugar. Por exemplo, o de Kyoto, um dos mais famosos, nasceu de uma grande epidemia ocorrida no passado.

O povo criou o matsurí, pedindo às divindades que eliminassem a epidemia, trouxessem saúde e prosperidade ao povo. Outro aspecto cultural é a famosa timidez do japonês, que, por exemplo, jamais estende a mão nos cumprimentos, mas faz uma leve vênia. A gente, que logo vai estendendo a mão... estranha, depois se acostuma. Pode ser que essa timidez natural explique os mais de 35.000 suicídios por ano, um número absurdo. Mas o país está se ocidentalizando muito rápido. Ele copia o Ocidente, em muitos aspectos, até em coisas condenáveis, sobretudo dos Estados Unidos.

RELIGIÃO


Matsurí - festivais espalhados por quase todas as cidades

A gente brinca, dizendo que o japonês nasce xintoísta, casa-se cristão e morre budista. Nasce xintoísta, pois o recém-nascido é levado ao templo para a purificação e a bênção divina. Casa-se cristão porque, ultimamente, muitos casais querem copiar o estilo festivo do casamento ocidental, com festas e a noiva de branco, vestido longo e muita paparicagem, e não tanto porque compreendam o valor do sacramento. E morre budista, porque a maioria dos japoneses celebra o funeral budista para seus mortos.

A Igreja católica no Japão permite o casamento de japoneses não-cristãos, mas entende que não há o sacramento naquele rito, já que o matrimônio exige o prévio sacramento batismal. No entanto, permitindo essa experiência, após a preparação do casal aos valores cristãos para a vida a dois, muitos retornam, depois de algum tempo, para conhecer melhor e aderir à fé cristã.

DESAFIOS PARA A IGREJA JAPONESA

Um dos maiores desafios é a questão da minoria. Colocando juntos os católicos e os demais cristãos, eles não chegam a 1% da população total. O desafio é evangelizar em um contexto não-cristão. Além disso, o povo, enquanto sociedade, está muito ligado ao clã, ao grupo. Até recentemente dizia-se que o japonês não se casava com a esposa, mas com o grupo, com a empresa, para a qual ele dá a maior parte do dia. Tem, então, muito japonês que vai à missa, mas não consegue dar o passo decisivo rumo à conversão, porque ela é um processo e uma opção pessoal, e não grupal.

Além disso, a rotina japonesa é muito puxada e isso dificulta a atividade paroquial, porque o japonês sai de manhã e só retorna tarde da noite. Toda atividade paroquial é feita só nos finais de semana ou nos feriados. Isso vale também para o xintoísmo, budismo e outras confissões religiosas. O xintoísta ou budista não participa rotineiramente da religião. O povo japonês só vai ao templo nas festas: na virada do ano, quando nasce ou morre alguém da família, durante os grandes festivais.

José Francisco Gomes (gomesjf@yahoo.com)

Na próxima edição, mostraremos o trabalho missionário
do Pe. José Francisco junto aos DEKASSEGUI

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