Revista "MUNDO e MISSÃO"
Testemunhos da Vida Missionária
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Trabalho na República Centro-Africana, um pequeno país que faz fronteira com a República de Camarões a oeste, o Congo e a Republica Democrática do Congo ao sul; a leste com o Sudão e a norte com Chade. Está encravado no coração da África. O país encontra muitas dificuldades para exportar seus produtos, não tem estradas, é fechado e dependente de outros países e, por isso mesmo, não é industrializado. Possui uma área de 622.436 km²; é rico em recursos naturais: tem diamantes, abriga florestas e recebe chuvas regulares. “Em se plantando, tudo dá”, dizem, mas a verdade é que a população não se beneficia desses recursos: vive na miséria. Mais da metade é analfabeta e não tem acesso às condições básicas para sobreviver.
A DEPENDÊNCIA DAS TRADIÇÕES Outro elemento negativo são todas as circunstâncias que impedem as pessoas de saírem da pobreza, como, por exemplo, a bruxaria e a poligamia. A lei estabelece até cinco esposas para cada homem, mas ele deve haver condições para sustentá-las. Esse aspecto é desprezado, o que acaba exigindo maiores encargos para o poder público, pois são necessárias mais escolas, atendimento médico, etc... Depois da independência, o governo concedeu às mulheres a autorização para estudar. Apesar deste avanço, o povo ainda vive na ignorância e na dependência. Somente o branco tem que ajudar. A população é pobre e só recebe. Isso, porém, em nada ajuda. Eles são mesmo carentes. As pessoas são alegres, simples, acolhedoras. Não se passa por uma casa sem que não seja oferecido algo para comer (milho, amendoim, macaxeira) ou beber (café ou a “gangoia” – bebida tradicional extraída de uma palmeira). A comida e a bebida são elementos importantes para o povo; são um espaço que cria a fraternidade. Veja este exemplo: - com o polvilho da mandioca as mulheres fazem polenta, à qual misturam carne e verdura. As pessoas se reúnem em círculo e, no centro, colocam-se as cumbucas com a comida. Cada um estende a mão, pega um punhado de polenta, passa no molho da carne e come. Não há talheres, e todos se servem do mesmo prato. Esse é um elemento muito bonito da cultura e que precisa ser preservado. Mostra a união entre os membros da família e também com os de fora, que – como se vê – são carinhosamente recebidos. A receptividade do povo é muito grande para com os irmãos que viajam durante o dia, na maioria das vezes à pé. Todos os que chegam, recebem comida e um lugar para passar a noite. É um povo muito religioso. Inúmeros elementos das crenças tradicionais ainda continuam presentes, embora ultimamente os muçulmanos estejam incrementando os casamentos de homens muçulmanos com mulheres católicas. Naturalmente elas assumem a religião do marido e os filhos passam a ser educados naquela religião. NOSSA PRESENÇA
Como combonianos, estamos trabalhando numa região que se chama “Lobaye”, situada ao oeste do país. Uma parte dela é ocupada por uma porção de floresta e outra, pela vegetação de savana. A região é habitada pelas etnias gbaya, bonfi, que são agricultores, e um significativo grupo dos aka, que são pigmeus, e que vivem na floresta. Todos falam e compreendem a língua nacional sango, mesmo se cada grupo conserva sua língua de origem. Nós, combonianos, éramos responsáveis por três paróquias na região: Boda, Boganangone e N´gotto. Devido à falta de missionários deixamos as duas últimas: Boganangone em 2003 e N´gotto nesse ano. Somos atualmente três missionários de três nacionalidades: togolesa, espanhola e brasileira. Dois são padres e um é irmão. Atuamos nas diversas áreas da pastoral e da promoção humana. O trabalho que aqui fazemos é o de acompanhar e animar as comunidades da paróquia, que são mais ou menos 30, divididas em três setores. Através das periódicas visitas, procuramos animar-lhes a fé, com a celebração da Eucaristia, visitas às famílias, encontros de formação com diversos grupos: catequistas, jovens, justiça e paz. Procuramos compartilhar com eles o cotidiano da vida, sempre em atitude de escuta e de respeito, mesmo se, às vezes, somos tentados a julgá-los a partir de nossos esquemas culturais. O povo da República Centro-Africana é sofrido porque está esquecido pelas autoridades. Vive na insegurança e é vitima da violência de mercenários, que só vêm ao país para roubar e destruir. O grande desafio para nós, missionários, é sermos sinal de esperança a essa gente que tem os direitos esmagados pelos seus dirigentes. APRENDENDO E CONVIVENDO Estou caminhando com essa gente há cinco anos e percebo que, apesar de tanto sofrimento, o povo centro-africano é alegre e acolhedor, festeja a vida e até a morte. É um povo que faz da comida e da bebida um espaço para a convivência e a comunhão. O respeito ao outro, ao diferente, é uma escola de aprendizagem para a vida. Importar-se com as coisas mais simples e banais, dar tempo ao outro e descobrir que Deus nos fala através desses gestos singelos da vida, como o sorriso no rosto das crianças, a oferta de um cafezinho, ou até mesmo as saudações: “Mbi bara mo” (Eu te saúdo) ou “Tongana nie?”(Com vai você?). Acredito que o missionário é aquele que vai ao encontro do outro para se descobrir, ir lá no fundo de si mesmo e voltar com um novo olhar para o mundo e as pessoas.
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