Revista "MUNDO e MISSÃO"

Testemunhos da Vida Missionária

 

por Renato Trevisan

o dia 23 de outubro de 2003, uma índia caiapó foi atropelada por um motoqueiro, ao atravessar a avenida Santa Teresa. Foi levada às pressas para o hospital, mas logo faleceu. Foi muito chorada, quer pelos parentes, os demais índios das outras aldeias, quer pelas pessoas da cidade. Depois dos rituais de despedida (choro e danças das mulheres, pintura e defumação sobre o corpo, discurso do “mebênguêt” – ancião orador), foi levada de avião para Gorotire, onde foi enterrada.

Para os índios caiapós, a materialidade do fato é só a parte mais acessível do conhecimento, pois essa morte repentina por atropelamento, como muitos outros casos, entrava na lógica da constante tensão entre o mundo sociocultural caiapó e aquele do “branco”. Comentavam os caiapós entre si que a índia não teria sido atropelada, mas teria sido vítima de um atentado e, no meio da população de Redenção, ouviam-se conversas tendentes a pressentir alguma forma de reação e de vingança por parte dos caiapós.

No dia 31, um índio caiapó da aldeia de Kubenkrãkenh, jovem que se aproximou das bebidas alcoólicas e da maconha, nas primeiras horas da tarde, levado por um moto-táxi de Redenção, foi para um matagal, pouco fora da cidade. Hora e meia mais tarde, o índio voltava para a casa onde se hospedavam os índios, levando consigo a moto do motoqueiro. Mais tarde, o corpo do motoqueiro foi encontrado degolado. O índio caiapó foi reconhecido como culpado do assassinato.

Na opinião da população de Redenção, a morte da índia tinha sido vingada. Entre os índios caiapós, raciocina-se da mesma maneira: 3 quem é causa da morte de um parente, deve morrer. Entre os dias 1.º e 2.º de novembro, a cidade de Redenção estava quase esvaziada da presença das centenas de índios caiapós. De caminhão, de camionete, de avião, os índios deixaram a cidade por medo de atos de vingança por parte, sobretudo, da categoria dos moto-táxis, bem organizados entre si.

No dia 2, de tarde, os últimos índios caiapós deixavam o lugar conhecido como “chácara dos índios”, um aglomerado de casas de alvenaria e palha, construído para hospedá-los durante sua permanência em Redenção. O terreno “da chácara”, construída uns 20 anos atrás, época da grande exploração do ouro e da madeira (especialmente tirada da área indígena caiapó), nos últimos meses, tinha entrado no plano de urbanização e desenvolvimento do setor oeste da cidade.

Vendido para um importante homem de negócios da cidade pelo coordenador da Funai, o índio caiapó Kubê-i, que era até dono da chácara, esperava-se a oportunidade propícia para tirar os caiapós que não queriam deixar o lugar. O êxodo, ou melhor, a fuga dos caiapós para Gorotire e para a área do hospital deles, situado no setor leste da cidade, levados pelo medo de alguma violência por parte dos colegas do moto-táxi assassinado, abriu as portas para a entrada dos tratores na área.

Entre domingo à tarde e segunda-feira, o local ficou totalmente “liberado” dos caiapós, sem vestígio sequer da “chácara”, único caso talvez de “aldeia indígena” existente na periferia de uma cidade. Ao expectador surpreso e curioso, pareceu que tudo tivesse sido planejado a partir da morte do “moto-táxi”. De fato, o sindicato dos moto-táxis de Redenção organizava uma manifestação de protesto pelas ruas da cidade, pedindo, entre outras coisas, o fim da impunidade dos índios (pois pelo “Estatuto do Índio” os crimes cometidos por eles são julgados pela justiça federal), mas, sobretudo, a retirada dos mesmos da cidade e seu retorno às aldeias.

Houve quem sugerisse o ataque e a destruição dos prédios onde eles moravam na cidade, inclusive os da Funai, mas não se chegou a tanto.Desde o dia dos finados, a sede da pastoral indigenista dos missionários xaverianos ficou totalmente vazia da presença numerosa, cotidiana dos caiapós.

UM PROJETO A SER REALIZADO

A morte do moto-táxi foi um crime detestável, absurdo, ainda mais pelo fato de ter sido friamente planejado, mas, mesmo assim, não justifica a onda de desconfiança e até de ódio por todo o povo caiapó. Os fatos, como outros já acontecidos no passado, levam mais uma vez à tona o desafio da convivência pacífica entre as duas comunidades, aquela não índia, residente na cidade de Redenção, e o povo caiapó, residente nas várias aldeias e postos de vigilância da sua grande reserva, mas que freqüenta a cidade por razões essencialmente ditadas pelas necessidades econômicas (alimentação, serviços), sociais (assistência hospitalar, aposentadorias, Ongs de apoio às aldeias), educacionais (escolas e acesso aos graus superiores dos estudos), institucionais (contatos com a Funai e os órgãos do governo para documentação, etc).

Todas as vezes que as duas realidades culturais entraram em conflito, quase sempre foi e é por atos de violência cometidos por uma das duas partes e sempre se apresentaram algumas questões que, até hoje, não tiveram uma resposta.

O ideal seria uma política do governo, dos órgãos competentes, mas, sobretudo das mesmas lideranças indígenas, que favoreçam a presença e o ritmo normal da vida indígena nas próprias aldeias, limitando as saídas para Redenção só nos casos tidos como urgentes e necessários. Tendo as aldeias uma boa estrutura e atendimento de saúde, muitos casos de doenças, por exemplo, deveriam ser tratados nelas e não na cidade. A Redenção se chega só de caminhão e ou de avião (transporte caríssimo e com pouco espaço para trazer alimentos).


Pe. Renato Trevisan e Dom Erwin Krautler com crianças caiapó, na aldeia de Kikretum, no sul do Pará

O custo da vida na cidade é muito alto e, geralmente, o índio doente é sempre acompanhado por familiares, cuja presença aumenta o custo da estada no hospital.

Na cidade, além do hospital dos índios, da sede da Funai, das casas onde os índios se hospedam, das lojas e dos supermercados onde se gasta e se alimentam desejos, a cidade não oferece outra coisa, a não ser bares, botecos ou lugares de lazer que ninguém recomenda.

O mesmo discurso sobre a saúde vale para a educação, a assistência técnica das infra-estruturas da aldeia, meios de comunicação, programação e acompanhamento de projetos para a sustentação, etc. O ideal não é sempre possível, quer pela carência de meios, quer pela ineficiência do pessoal encarregado, quer pela vontade dos mesmos índios que, atraídos pela cidade, preferem a viagem para Redenção, com todos os problemas que cria para eles e para os não índios, do que ficar nas aldeias.

Se, por um lado, os caiapós vão para a cidade pelos motivos lembrados, por outro lado, a população local não está preparada para acolher e conviver com os caiapós e nem se preocupa com a sua presença. Há na cidade, por exemplo, um lugar de encontro e de lazer (para praticar esporte) para os jovens caiapós? Onde, os que estudam na cidade, encontram espaço e acompanhamento nos estudos, fora do ambiente escolar? Quem os ajuda no encontro com a sociedade envolvente e favorece o diálogo entre a sua cultura e aquela do não índio?

Não existe em Redenção, depois de anos de contato, um centro cultural, um espaço para a exposição e a venda do artesanato caiapó. Enfim, onde se faz e quem faz algo em Redenção, para que os índios caiapós sejam acolhidos, conhecidos, respeitados, tornando a cidade um lugar de encontro e de troca de valores, de crescimento mútuo, em vista da construção de uma sociedade pluriétnica, voltada à realização de um projeto de vida comum mais justo, mais humano?

MISSIONÁRIOS XAVERIANOS

Os missionários xaverianos, há dois anos, tentam responder às perguntas levantadas pela sociedade de Redenção e alertar as comunidades caiapós, a partir da nossa presença nas suas aldeias, sobre a difícil caminhada rumo ao encontro com o mundo branco. Os xaverianos, como agentes da pastoral para os índios, não estão do lado dos caiapós por simpatia ou para a salvação das suas almas, mas pela mesma razão pela qual Jesus Cristo ofereceu a sua vida, isto é, para que o mundo volte a ser o lugar para todas as raças, povos e nações, especialmente as menos favorecidas.

“Eu vim para que todos tenham a vida e a vida em abundância”; são as palavras de Jesus. Não só os caiapós devem aprender a viver fora do próprio território, a conviver com uma cultura diferente, aceitando suas dinâmicas internas e organização social, mas também, a sociedade de Redenção, já cosmopolita pela sua formação humana e histórica, deve aprender a lidar com uma cultura diferente, original e complexa. O caminho para melhorar o recíproco relacionamento deve deixar as ruas dos supermercados e das lojas, do comércio e dos pontos de lazer, para abrir espaços para outros lugares de diálogo e de encontro.

Os caiapós não devem ser tolerados na cidade pela riqueza que trazem com a madeira, o ouro e outros produtos da sua reserva (quantas pessoas melhoraram sua vida por causa dos caiapós e do seu território!), mas pela riqueza que vem de sua cultura, de sua história, do seu jeito de ser e viver, e pelos questionamentos e mudanças de atitudes que tudo isso provoca nas duas culturas.

Nossa presença pastoral em Redenção tem este único objetivo: lembrar ao povo de Redenção e aos amigos e irmãos caiapós que o mundo não se constrói eliminando os antagonistas, os diferentes, os que não pensam da mesma maneira, mas edificando juntos a sociedade que queremos, isto é, aquela onde há lugar para todo mundo e ninguém passa necessidade. O pouco da história recente aqui contada fala por si da urgência de agir e, ao mesmo tempo, está dando razão ao nosso projeto pastoral, mesmo que apenas começado.

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