Revista "MUNDO e MISSÃO"
Testemunhos da Vida Missionária
Em um passado não muito distante, povos de diversas etnias foram vítimas de trágicos acontecimentos internos. Onde está a Turquia Bíblica? Carram, de onde saiu Abraão, Éfeso, Tarso e Antioquia..., você imagina onde tais comunidades se encontravam? Tais lugares, transformados através dos séculos, estão na Turquia e a maior parte das comunidades cristãs às quais Paulo, o apóstolo das gentes, se dirigiu, morava no território turco. Não por acaso, portanto, esta nação pode ser considerada uma segunda Terra Santa. Ela recebeu o primeiro anúncio da Boa Nova aos “gentios” e nela os discípulos de Jesus foram chamados, pela primeira vez, de “cristãos”. Foi o primeiro ambiente missionário na história da Igreja. Saindo de Jerusalém, o Evangelho veio para cá e daqui se difundiu pelo mundo inteiro depois da ressurreição do Senhor. E os gálatas, os efésios, os colossenses, a comunidade das sete Igrejas do Apocalipse, assim como todos os acontecimentos que envolveram a Antioquia, Tarso, Éfeso, Mileto, Pérgamo, serão sempre uma referência para toda a cristandade. Memória e profecia Nestes lugares, outrora ricos de comunidades fervorosas e vivazes, o tempo, as guerras mais ou menos “santas”, as ideologias humanas, compuseram uma obra de erosão incrível. Agora, na maior parte dos casos, aquelas pedras cheias de história e de fé se tornaram ruínas arqueológicas, ou foram transformadas em mesquitas ou museus. Lembram um passado atormentado e glorioso para os poucos cristãos ainda hoje presentes em uma Turquia islâmica e secularizada. São pequenos sinais de esperança na terra da qual partiram os primeiros portadores da Esperança, testemunhas e invocadores do nome de Jesus até ao martírio.
Aqui, se encontram todas as Igrejas cristãs: ortodoxos gregos, armênios, sírios, caldeus, católicos de ritos diversos, anglicanos, evangélicos... apenas para citar os mais importantes. Mas sua presença é mínima. Entre 60 milhões de turcos, 99,8% declaram-se muçulmanos. Todos os cristãos, juntos, representam apenas 0,2%. A custo chegam a 150 mil, dos quais 80 mil são armênios e cerca de 20 mil são católicos; as outras igrejas congregam um número reduzido de fiéis. Este pequeno grupo de cristãos se firma na solidariedade, na partilha, no ambiente de diálogo com todos e procura ser sinal de unidade e de caridade. E enquanto em Istambul e Esmirna existem paróquias no estilo europeu, com estrutura de serviço, como hospitais e centros de convivência da juventude, casas para idosos e outros ambientes para os que sofrem, além de escolas, de espaços para o acolhimento e assistência aos mais pobres e aos refugiados...; as demais igrejas espalhadas pelo território servem de espaço, elas próprias, para o encontro, a acolhida, o oásis, onde qualquer um pode entrar, perguntar, fazer uma pausa.
Como afirmou o bispo de Anatólia, Dom Ruggero Franceschini, “as nossas igrejas devem ser um pequeno poço sobre cuja mureta estamos sentados com Jesus, onde há lugar para todos, na oração, na partilha, na solidariedade. Às vezes são os numerosos peregrinos que, sobre as pegadas de Paulo, entre as tantas ruínas de uma civilização desaparecida, trazem uma pedra ‘viva’ e redescobrem a própria fé. Outras vezes são os diversos jovens universitários turcos, em grupos ou sozinhos, que visitam a igreja católica e, com curiosidade e seriedade, perguntam sobre a Igreja, os cristãos, Jesus, o Evangelho; ou muçulmanos que, satisfeita a curiosidade, querem uma palavra de conforto e de paz. Desta maneira a criatividade gera várias formas de apostolado”. Sementes que germinam Padre Lorenzo Pivetto, dominicano, 19 anos na Turquia, professor de latim na Universidade islâmica de Istambul, há três anos instituiu um centro de documentação para o diálogo islâmico-cristão, que recolhe informações sobre o cristianismo. Diz ele: “Os nossos alunos muçulmanos nos pediram informações sobre o cristianismo e freqüentam nossos cursos. Como professor de latim, estimulo nos estudantes um confronto entre a cultura cristã e a muçulmana e respondo às suas dúvidas”. Significativas experiências de ecumenismo acontecem em diversos lugares da Turquia, como em Antioquia, cidade no sul do país, quase na fronteira com a Síria. No passado, ela tinha cinco bispos de Igrejas separadas; hoje, é oficialmente titular de cinco patriarcados. A comunidade católica é formada por sessenta católicos latinos, armênios e caldeus, mas é também freqüentada pelos ortodoxos, com os quais as relações são boas e construtivas: desde algum tempo funciona o escritório da Cáritas para ajudar os pobres da cidade; no mesmo tempo foi feita a Campanha quaresmal e foi celebrada a Páscoa na mesma data.
Frei Domenico Bertogli, capuchino, na Turquia há 35 anos, organizou a catequese, com freqüência média de 50 a 60 jovens, quase todos ortodoxos. “Eles entenderam que nosso objetivo é ajudar os cristãos, de qualquer rito, a serem mais cristãos. É um novo modo de ser Igreja e, quando se é minoria, o ecumenismo é uma obrigação. Eles se empenham em manter uma reunião semanal para partilhar a fé e crescer espiritualmente, nutrindo-se da Palavra e do Pão da Vida. Entre eles, aparece algum muçulmano que quer saber, conhecer, aprender. Pouca gente, poucos sinais que exigem longo tempo e esforços, mas já aparecem os frutos do que parecia ser apenas uma utopia”. No coração da Capadócia vivem alguns leigos consagrados da “Comunidade de São Valentim”. Há seis anos eles se dedicam à oração e à escuta da Palavra de Deus e do povo, colocando-se em sintonia com os monges dos primeiros séculos, que viviam nos inumeráveis monastérios espalhados pelos vales (em torno de Goreme existem duas mil igrejas cavadas na rocha). Ensina irmão Davi: “Aqui estamos não para fazer, mas para marcar presença. Sendo os únicos cristãos na Capadócia, mantemos Jesus presente conosco, esperando que Ele realize seus planos”. O mesmo se pode dizer de outras presenças silenciosas, mas significativas, em Tarso, Konia, Urfa. Sinais de esperança, de uma Igreja que nasceu aqui e que não pode morrer. Esta é, de fato, a terra de Deus, na qual um ardente povo vive, move-se, existe, festeja, reza em uma multidão de línguas e liturgias. Estou contente de estar a serviço desta pequena Igreja em Antioquia e saborear a presença de Deus, de seu Espírito. É vir para crer. |
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