Revista "MUNDO e MISSÃO"

Testemunhos da Vida Missionária

 


Muitas crianças que perderam seus pais durante a guerra

Não houve só escuridão na noite da guerra do Burundi.
O perdão acendeu estrelas!

por Janvière Ndoriyobya

Burundi é um pequeno país da África central, independente a partir de 1962. Desde então, sempre viveu entre divisões e conflitos étnicos, políticos e econômicos que no curso dos anos semearam morte, ódio, pobreza e misérias. Junto com todas estas tristes realidades, porém, no meu País nunca se perderam alguns valores humanos fundamentais, como o dom da vida, da acolhida e muitos outros.

Eu sou uma religiosa operária e faço parte desta história. Uma história que para mim - como para muitos outros - foi de sofrimento, ao ponto que abriu no meu coração uma ferida que, em nível humano, era impossível sarar, mas que na misericórdia de Deus foi curada. Foi uma experiência que penetrou todas as dobras da minha alma e me levou a viver um longo período de inquietudes e dúvidas. Hoje posso dizer que saí desta "noite escura", graças a uma longa caminhada pessoal de paz e reconciliação. Porque se há vida, perdão e amor, se superamos o desânimo e o desespero, nenhuma busca cai no vazio. Porque tudo faz parte da busca de Deus.

Guerra absurda

Era o ano de 1993, o ano em que fiz a primeira profissão religiosa, no dia 22 de agosto, cheia de entusiasmo de seguir o Senhor em qualquer lugar que ele quisesse, convencida de que era o caminho que teria me levado à felicidade. O drama iniciou quando, dois meses depois minha profissão, explodiu a guerra. Uma guerra absurda, sem nome, com massacres tremendos e cruéis: muitas pessoas foram mortas por suas posições políticas, étnicas ou pela sua neutralidade.

A guerra começou com a captura e a morte do novo presidente e de alguns de seus colaboradores. Seguiu-se um massacre violento dentro do país. Muitas pessoas inocentes foram mortas. Houve aldeias e bairros totalmente destruídos. Muitas pessoas sumiam enquanto passavam de uma província para outra - seus corpos ficavam abandonados nas ruas, escondidos nas matas ou jogados nos rios... Foi um grande horror!


Ir. Janvière

Nós, irmãs, sentindo-nos impotentes frente a tantos mortos, abrigamo-nos numa casa religiosa; depois, porém, vendo que as pessoas continuavam a ser mortas sem piedade, preferimos voltar para nossa casa para viver até o fim o drama do nosso povo. Eu mesma, com algumas irmãs, tentei algumas vezes ir em busca de minha família, mas não consegui: a primeira vez fomos repelidas, a segunda caímos numa emboscada. No entretanto, chegou-me um telefonema que anunciava a morte de minha mãe e de uma sobrinha de dezoito anos. Haviam sido mortas pelos militares! E a coisa mais horrível era que eles haviam sido acompanhados por meu primo! Parecia-me impossível. Mas por quê?

Não conseguia encontrar o sentido desta morte.... Minha mãe, que sempre me havia ensinado a amar a todos, fora vítima da crueldade humana. A partir daquele momento, comecei a sentir um ódio profundo dentro de mim contra todos e tudo; perdi o sentido de Deus, da oração, da comunidade, pus em discussão minha vocação, convencida de que aquilo era um sinal para mim, quase um convite a voltar para minha casa, para estar perto de meu pai que tinha ficado só, mas sobretudo para procurar fazer justiça, de qualquer jeito. Acendi duas velas dentro de mim, uma da vingança e a outra da recusa do perdão, que me levaram a viver uma vida dupla, serena externamente, mas profundamente inquieta por dentro.

Perdão e paz

Depois de pouco tempo consegui, enfim, encontrar minha família. Todos meus irmãos estavam bravos com meu pai; segundo eles, fora culpa dele, porque, enquanto os outros fugiam, ele, não passando bem, tinha ficado em casa e minha mãe preferiu ficar com ele. Eu também dei razão a meus irmãos e assim fechei o coração também a meu pai. Meus momentos de oração eram só luta, assim decidi falar com meu confessor e ele, com ironia, disse-me: "Acha realmente que é você que tem que perdoar ou é o Senhor que perdoa em você?".

Esta simples resposta remexeu minha vida. Comecei a sentir uma força nova em mim, o desejo de querer oferecer meu perdão e a necessidade de ser perdoada. Foi um momento muito forte de libertação. Sumira, de repente, meu medo de me pôr em jogo e assim decidi falar com meu pai. Ele me contou como aconteceu a morte de minha mãe. "Quando os ouvi chegarem" - disse-me - "ela reconheceu o sobrinho e lhe pediu se vinha ele também para matá-la, apesar de que ela 'lhe tivesse dado o leite nas mãos'".

É uma expressão forte, na minha língua, para dizer que o criou. "Depois" - meu pai continuou - "sua mãe disse que desejava, antes de morrer, uma última coisa: pôr o vestido bonito! A partir daquele momento, não ouvi mais nada, somente o grito de sua sobrinha. Subi numa árvore para me esconder; depois eles entraram em casa para roubar e destruir tudo. Após um longo silêncio desci e as encontrei no chão, mortas, e fugi. Estou convencido de que ela morreu em paz, pedindo só para pôr o vestido bonito para se apresentar ao Senhor...

E como posso eu não perdoar se ela morreu assim na paz?". Comecei com muita dificuldade e revolta o caminho de reconciliação e de perdão, sobretudo em relação a meus parentes, que haviam provocado essa morte. A primeira vez que os encontrei para oferecer-lhes meu perdão, foi duríssima, porque inicialmente experimentava em mim um senso de repulsa deles. Mas também para eles não foi fácil, talvez porque eles esperassem de mim um gesto de acusação ou de condenação, e, ao contrário, foi tão bonito... um momento de emoção profunda!

No perdão, Deus torna-se presente e na nova relação com ele criam-se relações novas com os irmãos. De fato, no perdão reencontrei a mim mesma, reencontrei a Deus e reencontrei os irmãos, mas, sobretudo, reencontrei a paz, que não é somente ausência de guerra, mas um sentido de serenidade e de confiança em Deus e na sua justiça. Sim, Deus tem seus tempos... Depois de um período de sofrimento e, às vezes, de desespero, reencontrei o sentido do meu existir, de minha vocação e da comunidade, além do caminho do perdão e da reconciliação.

É esta a passagem obrigatória no processo de construção da paz, aquela paz que nasce no coração de quem ama e procura, cada dia, caminhar rumo à verdade. Eu estou convencida de que com o perdão e a reconciliação pode-se esperar construir um mundo que seja livre, sem violência nem ódio, com uma paz estável que nasce no coração de Deus.

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