Revista "MUNDO e MISSÃO"
Testemunhos da Vida Missionária
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ÁSIA DIÁLOGO A Ásia constitui uma das maiores frentes para o compromisso
missionário da Igreja. Em primeiro lugar, pelo seu tamanho: é
o maior con-tinente; em segundo lugar, pela sua população:
dois terços dos habitantes da terra. Apesar das epopéias
missionárias terem sido realizadas desde sempre, os povos da Ásia
permaneceram impermeáveis ao cristianismo. PAÍSES: 44 SUPERFÍCIE: 44.397.460 km2 POPULAÇÃO: 3.678.000.000 habitantes POPULAÇÃO URBANA: 36% LÍNGUAS: mandarim, hindi, russo, árabe, bengali, japonês estão entre as 10 línguas mais faladas no mundo. Existem na Ásia 2165 línguas, 33% do total mundial. RELIGIÕES: EXPECTATIVA DE VIDA: 80 anos no Japão e 58 anos em Bangladesh MORTALIDADE INFANTIL: 57 a cada mil nascidos vivos ANALFABETISMO: 24,9% PROD. INTERNO BRUTO: 7.1 trilhões dólares RENDA PER CAPITA: 2.039 dólares A VEZ DA ÁSIA Costanzo Donegana A Ásia desafia o cristianismo a encontrar outros caminhos para anunciar o Evangelho a seus povos. As Igrejas do continente apontam para um diálogo aberto com as outras religiões, capaz de enxergar a criativa ação do Espírito nas tradições milenares A Ásia possui 60% da população mundial. Seu território corresponde a um terço da superfície da terra; ela foi o berço das grandes religiões (hinduísmo, budismo, confucionismo, islã, judaísmo e cristianismo) e viu nascer algumas das mais antigas civilizações da história (China, Índia, Oriente Médio). É chamada "o continente do futuro". Atualmente, na Ásia está acontecendo uma rápida aceleração da modernização, impulsionada pelo processo de industrialização e o desenvolvimento da tecnologia, que coloca alguns países do continente nos primeiros lugares da produção industrial do mundo: Japão, Tigres Asiáticos (Malásia, Cingapura, Tailândia, Coréia do Sul, Indonésia, Taiwan) e China. Isso continua, apesar da crise que, recentemente, afetou algumas dessas economias. Mudanças - Só que, como foi declarado no primeiro Encontro teológico internacional da Federação das Conferências Episcopais da Ásia (FABC) em 1994: "Estão acontecendo na Ásia mudanças fundamentais nos sistemas de trabalho, na estrutura essencial de nossas economias e na própria natureza dos relacionamentos entre indivíduos e comunidades. As pessoas tornam-se uma engrenagem do processo de industrialização e o resultado é o trabalho que explora e desumaniza. Isso vale sobretudo para as mulheres trabalhadoras. Em paralelo com o processo de industrialização, sente-se a necessidade de modernizar o setor comercial. O processo reforça o modelo consumista, no qual os pobres também estão sendo introduzidos. Através da comercialização da educação e o controle da mídia, o fator econômico tornou-se o motor de todos os aspectos da vida". E os teólogos asiáticos concluem: "Na confiança pela modernização se acompanha a secularização. Os relacionamentos familiares tradicionalmente estreitos começam a se afrouxar, enquanto são exploradas e promovidas novas formas de intimidade. O profundo sentido de religiosidade e de comunidade, que caracteriza a maior parte dos povos asiáticos, está lentamente se dissolvendo". Estas palavras valem ainda mais depois de oito anos. Crise das religiões na Ásia, então, diante da pressão
avassaladora da modernidade secularizada? Está acontecendo nesse
continente o mesmo fenômeno que varreu a religião de muitas
camadas da sociedade européia e norte-americana? A resposta é
negativa. As afirmações dos teólogos expressam uma
constatação e, mais ainda, uma preocupação
por uma tendência em crescimento, mas que, por enquanto, não
afeta a maioria da população. Também no Japão,
apresentado como o exemplo máximo de secularização,
a população continua a freqüentar os templos em determinados
momentos do ano, repetindo, talvez de maneira só formal, gestos
da tradição milenar. Seria a Ásia um fracasso da missão? As respostas dependem da idéia de cristianismo e do seu relacionamento com o mundo, as culturas e as religiões que cada um tem. Antigamente e até o Vaticano II, era comum a idéia de que fora da Igreja (católica) não havia salvação. Os fiéis das outras religiões eram destinados à perdição (ou ao Limbo). Havia, porém, uma abertura nesta posição rígida: admitia-se que pessoas em boa fé e observantes da lei natural podiam conseguir a vida eterna. Nesta posição, as religiões não-cristãs, se não eram consideradas "obra do diabo", estavam, porém, totalmente excluídas do plano divino da salvação. Diálogo - Veio o Vaticano II e abriu as portas com sua visão positiva do mundo e de seus valores, reconhecendo tudo o que há de "verdade e graça" (Ad Gentes 9) não só nos corações dos fiéis de outras religiões, mas também em alguns elementos das próprias tradições religiosas, apresentados como "riquezas que o munificente Deus prodigalizou aos povos" (AG 11). Em geral, o diálogo em todos os níveis recebeu direito de cidadania na Igreja. Nos anos seguintes, o diálogo tornou-se uma das palavras mágicas entre os cristãos: diálogo dentro das Igrejas, diálogo entre as Igrejas, diálogo com os ateus, diálogo com as outras religiões. É este último que nos interessa, porque se desenvolveu, sobretudo, na Ásia, pátria das grandes religiões e, em particular, na Índia. Os próprios bispos do continente, em seus documentos, estimulam o diálogo: "Respeitamos o compromisso do outro, porque acreditamos que Deus quer que todos sejam salvos; Deus chama todos os povos à comunhão com ele e entre eles. Para realizar isso, ele dá a graça da salvação a cada pessoa. As grandes religiões da Ásia com seus respectivos credos, cultos e códigos revelam diversos caminhos de responder a Deus, cujo Espírito é ativo em todos os povos e culturas". Logo em seguida, os bispos esclarecem um problema às vezes polêmico: "O diálogo deve estar aberto ao anúncio, embora não se entre no diálogo inter-religioso para preparar o caminho ao anúncio. É o Espírito que decide se é preciso anunciar ou não. É o mesmo Espírito que decide quando, onde e como se deve proclamar. A tarefa do cristão engajado no diálogo é discernir os movimentos do Espírito e seguir suas ações" (1988). Um aspecto importante frisado repetidamente pelos bispos e teólogos asiáticos é que o diálogo não pode ser limitado à esfera religiosa, mas deve abraçar todas as dimensões da vida: a econômica, a sociopolítica, cultural e religiosa. O diálogo é um enorme serviço ao homem e à sociedade, porque une, purifica e leva a um maior compromisso as religiões a partir dos seus valores mais profundos. Dificuldades - O caminho do diálogo é cheio de dificuldades, de todos os lados. Não é fácil iniciar uma experiência nova, quase sem precedentes na história das religiões, tendo que "inventar" métodos, desenvolver uma teologia, fazendo a descoberta do outro, antes desconhecido e até visto negativamente. E isso não acontece em um contexto pacífico, mas convivendo com os fundamentalismos (lembramos os grupos nacionalistas hindus da Índia, os muçulmanos do Afeganistão e os extremistas muçulmanos da Indonésia aos quais, em algumas regiões, os cristãos respondem com a violência), o medo das novidades e o excesso de prudência nas autoridades da Igreja, as posições extremistas de teólogos que podem prejudicar pontos fundamentais da fé cristã, experiências irenistas que põem todas as religiões no mesmo plano. Nesse contexto, explicam-se os casos Balasuriya (veja box pág 39), dos jesuítas padre Anthony de Mello e Jacques Dupuy, que, porém, não podem ser colocados no mesmo plano, dadas as notáveis diferenças de posições entre eles. Para exemplificar mais o caso Mello, autor de livros de espiritualidade lidos no mundo inteiro, a Congregação para a Doutrina da Fé, declarou em 1998 (um ano depois da morte dele) que alguns de seus pontos de vista sobre religião e Deus "são incompatíveis com a fé católica e podem causar." Os superiores provinciais dos jesuítas da Índia explicaram, porém, que as afirmações duvidosas são contidas em publicações de discípulos do padre Mello, sem a permissão do autor e dos superiores. Acrescentaram que ele gostava de contar histórias tiradas das tradições das várias religiões. Então não pode ser lido e criticado come se tivesse escrito tratados de teologia com o uso rigoroso dos termos que ela exige. O problema fundamental para os cristãos é como conciliar diálogo e anúncio, encontro com as outras religiões e afirmação da própria identidade, sem exclusivismos, mas também sem dissolver a verdade sobre Jesus Cristo, único Salvador. O desafio da Ásia para a Igreja consiste no convite a repensar profundamente a missão como tradicionalmente foi realizada, sem chegar necessariamente a uma sensação de fracasso, mas procurando o significado e a função das religiões no plano de salvação de Deus. Estamos ainda no começo: seria perigoso queimar as etapas, encarando a questão de uma maneira superficial e apressada. Nisso, a dimensão existencial é mais proveitosa que o trabalho teológico. E já estão acontecendo em muitos países experiências de diálogo da vida, na escuta e conhecimento recíproco, na oração comum, na ação social conjunta, que constroem pontes e criam o terreno para um entendimento também teológico. O caso Balasuriya Um exemplo do desafio do diálogo inter-religioso é a condenação
do padre Tissa Balasuriya, teólogo do Sri Lanka. Em janeiro de
1997, ele foi excomungado pela Congregação para a Doutrina
da Fé, presidida pelo cardeal Joseph Ratzinger, sob a acusação
de não respeitar alguns pontos fundamentais da fé católica.
O processo começou no próprio Sri Lanka, quando a conferência
episcopal local tinha levantado dúvidas sobre algumas obras de
Balasuriya, pedindo a Roma que estudasse o caso. Em particular, fazia
dificuldade o livro "Maria e a libertação humana". China Na China, hoje, não há nenhum missionário estrangeiro. Todos foram expulsos, quando Mao Tsé Tung assumiu o poder. Mas os cristãos chineses (clero e leigos) assumiram suas responsabilidades e testemunharam sua fidelidade ao Evangelho, no meio de muitas dificuldades e de cruéis perseguições. Seu exemplo fez com que o número dos cristãos triplicasse: eram três milhões no início da revolução comunista e, hoje, são mais de dez milhões. Essas cifras referem-se aos católicos. Mas o mesmo se deu também entre os protestantes. Os comunistas, depois de expulsarem todos os missionários estrangeiros, prenderam bispos, padres e leigos engajados chineses e, em seguida, quiseram que o que restava da Igreja dependesse diretamente do governo, que nomeava os bispos e controlava tudo o que se dizia e fazia nas igrejas. Um grupo de cristãos nunca aceitou o controle do partido e começou a reunir-se nas casas, formando a Igreja clandestina. Muitos desses cristãos foram presos, torturados e passaram muitos anos na cadeia. Outros aceitaram, pelo menos externamente, a ingerência e o controle do governo. Eles formam a chamada Igreja patriótica. Os dois grupos, numericamente se equivalem. Essa situação dura até hoje. C.D. |
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